Conto, Os culos de Pedro Anto, 1874

Os culos de Pedro Anto

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/.

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, de 5/1874 a 7/1874.

Trs causas diversas podem
aconselhar o uso dos culos. A primeira de todas  a debilidade do rgo
visual, causa legtima, menos comum do que parece e mais vulgar do que devia
ser. V-se hoje um rapaz entrado na puberdade e j adornado com um par de
culos, no por gosto, seno por necessidade. A natureza conspira para
estabelecer o reinado dos mopes.

Outra causa do uso destes auxlios
da vista  a moda, o capricho, ou, como diz Rodrigues Lobo, a galantaria. O
ameno escritor exprime-se deste modo: Assim  que at culos, que se
inventaram para remediar defeitos da natureza, vi eu j trazer a alguns por
galantaria. Efetivamente quem quiser passar por verdadeiro homem do tom deve
trazer, no direi culos fixos que  s prprio de sbios e estadistas, mas
estas famosas lunetas-pnseis, que so teis, cmodas e graciosas, do bom
aspecto, fascinam as mulheres, servem para os casos difceis e duram muito.

Da terceira causa quem nos d
noticia  nem mais nem menos o gravssimo Montesquieu. Diz ele: Os culos
fazem ver demonstrativamente que o homem que os traz  consumado nas cincias,
por modo que um nariz ornado com eles deve ser tido, sem contestao por nariz
de sbio. Conclui-se disto que a natureza  um causa secundria dos estragos
da vista e que o desejo de parecer ou de brilhar produz o maior nmero dos
casos em que  necessria a arte dos Reis.

Est j o leitor um pouco
atrapalhado com este intrito que lhe parece mais de folhetim que de romance ou
ento pergunta consigo mesmo a qual destas coisas atribui eu os culos de Pedro
Anto. Isto no  folhetim, nem romance:  uma narrao fiel do que me
aconteceu h cerca de trs anos:  crnica. Quanto a Pedro Anto  positivo que
os seus culos deviam ter por causa o enfraquecimento da vista; mas ainda assim
no lhe posso afirmar nada, porque Pedro Anto, que eu no conheci, foi o homem
mais singular das tais crnicas, viveu recluso durante a vida inteira e mal
consta alguma coisa dos seus primeiros anos.

H cerca de trs anos, como dizia,
recebi a seguinte carta do meu amigo Mendona:

Pedro. Recebi hoje as chaves da
casa de meu tio; vou abri-la. Queres acompanhar-me? No penses que  por medo
de l entrar s;  porque eu sei que tu tens interesse e gosto em penetrar nos
negcios misteriosos: e nada mais misterioso que a casa do famoso tio. Vem ao
meio-dia. Teu Mendona.

A minha resposta foi a seguinte:

Jos.  Vou, mas no ao meio-dia.
Entrar em casa misteriosa, quando o sol est no znite,  anacronismo. Irei s
11 horas da noite, e  meia-noite em ponto entraremos na casa do defunto. Teu
Pedro.

Perto das 11 horas, depois de ter
dito  famlia que ia ver um doente grave, por eu ser mdico e costumo ver
doentes  noite, investi para casa de Mendona, que era na Rua do Areal.

Mendona estava ceando; comi com
ele um pouco de fiambre e de assado frio, engoli dois clices de Madeira, tomei
uma xcara de ch saboroso como aquele ch da comdia de Garo, e  meia-noite
menos vinte minutos, samos para ir ver a casa de Pedro Anto.

Pedro Anto tinha morrido dez
meses antes; achou-se-lhe um testamento em que deixava a casa, os livros e mais
objetos ao sobrinho Mendona  com a condio de que s tomaria conta da casa
dez meses depois. Mendona estava ento no boulevard dos Italianos, nico stio
de Paris que conheceu e conhece a fundo, quando recebeu esta notcia. Riu muito
da singularidade do tio, e veio ao Rio de Janeiro expressamente para tomar
conta da casa. Aguardou religiosamente o termo da posse, e no dia 23 de maro
de manh recebeu oficialmente as chaves que ansioso esperava.

A chave e a fechadura resistiram
com fora aos esforos que o Mendona e eu fazamos para abrir a porta.
Felizmente vinha conosco um latago, criado de Mendona, sujeito que se gabava
de no encontrar porta nem mulher que lhe resistisse. Arremeteu o sujeito com
um denodo raro, e a porta gemeu e da a alguns minutos estvamos no corredor.
A despedimos o criado, depois de alguma oposio de Mendona, que afirmava ser
necessrio ter mais algum conosco. O criado saiu, e eu encostei a porta.
Acendemos ento uma das velas que trazamos para o caso, e subimos uma escada
velha e mida que ia ter ao primeiro andar.

No foi fcil a subida, porque, de
quando em quando, surgia de um lado um rato, que esbarrava em nossas pernas e
duas ou trs baratas, assustadas com os inquilinos, voaram de um lado para
outro, indo esbarrar nas paredes, e escorregando depois at o cho. Alm disso,
sentamos aquele mau odor que exala de uma casa fechada durante muito tempo.
Felizmente, Mendona tivera a precauo de trazer consigo plantas e ps
aromticos, que queimamos na sala de visitas apenas l entramos.

Mendona achou-se mal ali dentro.
Era um elegante de primeira classe, amigo do conforto, ao passo que eu, sem
deixar de amar a comodidade e o asseio, estava disposto a aproveitar aquela
pgina de romance ttrico que se me afigurava ver no interior da casa
misteriosa.

 V l, disse Mendona, onde
queres que nos sentemos?

 Nestas cadeiras.

 Sujas como esto?

 Limpam-se.

 Quem as h de limpar?

 Eu.

Mendona levantou os ombros; eu
tirei da algibeira dois lenos e com eles limpei o melhor que pude duas
cadeiras das que ali se achavam.

Mendona viu-me fazer esta
operao com um sorriso de homem resignado a tudo.

 A casa no  m, disse eu,
sentando-me em uma das cadeiras para lhe dar exemplo; e a moblia pode ser
restaurada. Teu tio tinha gosto.

 Vamos ver o resto da casa, disse
Mendona.

 Espera.

 Esperar o qu? ficaremos agora a
contemplar a sala?

 Pareces-me tolo, respondi; tu
queres a herana do tio, e eu quero conhecer o homem. A sala  um primeiro
indcio. Vs este painel sobre a mesa?

Mendona aproximou-se da mesa.

 Vejo, disse ele,  a Madona da
cadeira.

 Cpia de Rafael. J por aqui
sabemos que o homem amava as artes. A cpia no  m, e a moldura  severa.

 C temos outro painel, disse
Mendona apontando para a parede.

Subi ao sof e aproximei a luz do
quadro.

 No conheo este, disse eu.

  um Velsquez, disse Mendona;
vi um igual em casa do conde de Chantilly.

 Que conde  esse?

 No era conde, respondeu
Mendona acendendo um charuto; chamvamo-lo assim por ser um dos primeiros
heris das corridas de Chantilly.

 Aposto que morava no
boulevard...

 Dos Italianos.

Acendi tambm um charuto enquanto
Mendona me contava uma aventura parisiense em que entravam ele, o conde e uma
estrela do bosque de Bolonha. Deixei que a conversa levasse esse caminho,
porque era o meio de reter o meu companheiro.

J vs, disse eu voltando ao meu
assunto, j vs que teu tio tinha gosto; Rafael e Velsquez so alguma coisa.
Vamos ver o resto da casa.

Seguia-se outra sala menor que a
primeira, onde nada havia que seja digno de nota. Apenas vimos sobre uma mesa
um cachimbo alemo, que necessariamente devia ter pertencido ao Cavaleiro
Teodoro Hoffmann, pois a sua forma era de todo fantstica. Representava uma
figura do diabo, com chapu de trs bicos, cruzando as pernas, que eram de
cabra.

 Ol! disse Mendona; o tio
fumava!

 Parece que sim; e o cachimbo no
me parece ortodoxo.

 Pelo contrrio, respondeu
Mendona; no pode ser mais ortodoxo do que ; meter fogo na cabea do diabo
no te parece digno de um servo de Deus?

 Tens razo! disse eu sorrindo.

Mendona readquiria o seu bom
humor e era isso justamente o que eu queria. Se no fosse assim, era provvel
que nos fssemos embora dentro de dez minutos. Agora estava tranqilo; quando
Mendona estava de bom humor obedecia a tudo.

Depois de examinarmos o cachimbo
que, alm daquela no oferecia nenhuma particularidade, seguimos por um
corredor e fomos ter  sala de jantar. Esta como outras salas e quartos da
casa, nada tinha que se parecesse com mistrio. Passando por um dos corredores
vimos uma escada que ia ter a um sto. Subimos. No meio da escada, Mendona
estacou; ouvira um rumor em cima.

 So ratos, disse-lhe eu.

 Sero? perguntou Mendona
empalidecendo um pouco.

 Querias que fosse a alma do
Anto?

Subi afoitamente; Mendona,
envergonhado, subiu tambm. A coragem de muita gente no tem outra explicao.
No  sempre por valentia que os homens so valentes, diz La Rochefoucauld.

Vasto era o sto. Compunha-se de
uma sala de estudo e de escrita, uma alcova na frente, e uma vasta sala no
fundo. Era por assim dizer um segundo andar.

O que primeiro examinamos foi a
sala da frente cuja moblia se compunha de algumas cadeiras, uma secretria,
duas estantes, um sof, tudo como qualquer mortal pode ter. Havia sobre a
secretria dois bustos de mrmore, e aqui comea o fantstico: uma era a cabea
de Cristo, outra a de Satans. Cristo estava  direita, Satans  esquerda.

 Bravo! exclamei; vou penetrando
no homem. Achas ainda alguma ortodoxia nesta aproximao de bustos?

Mendona, que estava enlevado no
primor da escultura, respondeu:

 Toda.

 Explica-te.

 O tio juntava-os para emblema da
vida humana, que se compe do mal e do bem; o bem est aqui para corrigir o
mal.  o Ceci tuera cela, de Vtor Hugo.

 Est feito; tu explicas tudo.
Mas  porque aqui a simetria das coisas te favorece. Cristo e Satans ao lado
um do outro  uma simetria de poeta; mas eu creio que Pedro Anto era outra
coisa. Olha aqui para o cho; vs esta reunio de coisas extravagantes? Um par
de chinelas, uma imagem da Virgem, uma trana de cabelos amarelos, um baralho
de cartas, uma cruz, uma pgina de hebraico; vs?...

 proporo que eu ia
inventariando os objetos encontrados no cho, ia o Mendona examinando atentamente,
tendo previamente calado um par de luvas a fim de no macular as mos.

Abri uma janela a fim de que o ar
penetrasse nos aposentos. Depois, sacudindo o p de duas cadeiras, sentei-me
numa delas, e disse a Mendona:

 Sabes que mais? J no vou daqui
sem que me contes alguma coisa do tio. Que idade tinha ele?

 Quarenta anos.

 Viveu sempre recluso?

 Desde muito tempo. Nos ltimos
cinco anos nem saia de casa. Era um criado que lhe trazia o que precisava. Esse
mesmo criado morreu na vspera de morrer o tio.

 Qual foi o motivo da morte do
criado?

 No sei; creio que uma
apoplexia.

 Quem sabe? Talvez a morte do
criado explique a morte do seu tio. Estou a ver aqui um assassinato e um
suicdio. De que morreu o tio?

 De uma queda.

 Dentro de casa?

 Sim.

 Bem digo eu; aqui h coisa.
Estes objetos dizem claramente que Pedro Anto era feiticeiro.

Mendona sorriu com desdm; posto
que fosse supersticioso e timorato, Mendona no acreditava em sortilgios. Eu era ento um pouco dado a essas crenas, e ainda hoje no deixo de as ter.
Depois que os filsofos modernos, com a mania de destruir tudo, afirmaram que o
criador era uma inveno dos homens, eu, que no dou ao acaso as honras de ter
criado o universo, substitu Deus por um grande feiticeiro, autor de todas as
coisas, e nem por isso sou mais absurdo que os filsofos.

 Que quer dizer, continuei eu,
esta madeixa de cabelos amarelos?

  uma madeixa de cabelos,
respondeu Mendona; amareleceram com o tempo.

 E esta pgina de hebraico no
quer dizer alguma coisa?

 No sei se  hebraico ou
siraco.

 Deve ser hebraico. Eu no
conheo essas lnguas, mas conheo os caracteres; estes so hebraicos. Quanto a
esta cruz metida entre um baralho de cartas, creio que no dirs ser o bem e o
mal, emblema da vida humana. Mas deixemos isto; que houve notvel na vida do
tio?

 Coisa nenhuma. Viveu aqui
recluso sem procurar a famlia; nem receb-la em casa. Ao princpio, correu que o tio tinha alguma beleza escondida, e meu pai procurou saber disso
conversando com o criado, mas o criado disse que no havia ningum. Verdade 
que o primo Antnio disse que uma noite, passando por aqui, viu da rua uma
sombra de mulher passeando na sala de visitas; mas eu o convenci logo de que
seria o mesmo tio, embrulhado em um lenol.

 Que diziam os vizinhos?

 Apenas um afirmou ter ouvido uma
noite gemidos lgubres c dentro; no dia seguinte, no sei se por humanidade,
se por curiosidade, mandou o vizinho saber o que era; o tio correu o portador a
pau. Queres que te diga a minha opinio?

 No, no digas. Veremos se eu
descubro...

 No tens nada que descobrir:
creio que o tio era doido.

  o que te parece. Veremos isso.
Talvez esta secretria nos diga alguma coisa; mas est fechada. Como abri-la?

 Arrombe-se amanh.

 Pois sim; mas vamos ver o resto
do sto.

Peguei na vela e encaminhamo-nos
para o interior. No corredor que separava as duas salas, bati com o p num
objeto que foi parar trs passos adiante.

Era um par de culos de ouro.

Examinamos os culos que nada
particular indicavam; tinham asas grossas e vidros azuis sem grau. Conheci que
era uma quarta espcie de culos; usava-os Pedro Anto para abrandar os raios
da luz quando trabalhasse ou lesse de noite. Um dos vidros estava rachado.

Seguimos levando os culos.

Nenhuma moblia tinha a sala do
fundo. Ao fundo havia uma janela que dava para o telhado. Estava fechada com
uma pequena aldraba.

 Aqui no h que ver, disse
Mendona querendo voltar.

 Pelo contrrio, disse eu.

 Que ?

 Vs isto?

O objeto que eu mostrava a
Mendona era uma escada de seda atirada a um canto. Estava gasta pelo uso e
estragada pelo desuso.

 Creio que isto  alguma. Vejamos
a janela.

Abri a janela, que era baixa. Dava
para o telhado da prpria casa. Olhei em redor; todas as casas eram baixas,
exceto uma que ficava  esquerda, que era um sobrado e tinha uma janela que
dava para o telhado. Junto da janela do sto havia algumas telhas quebradas.

Fechei a janela, e disse rindo a
Mendona:

 J me no escapa o homem!

 s um visionrio, foi a nica
resposta de Mendona.

Quando amos a sair, Mendona deu
um grito.

 Que ?

 V.

Olhei e vi a um canto da sala dois
olhos verdes fitos sobre ns. Quis aproximar-me; Mendona agarrou-me pelas abas
do palet. Fiz um esforo e fui at o canto ver o que eram aqueles olhos.

Dei uma gargalhada.

Era um gato preto que ali se
achava, o qual, assustado com a gargalhada, deitou a correr, desceu a escada e
no apareceu mais.

Comeo a tremer, disse Mendona;
que quer dizer este gato aqui em cima?

 Uma destas duas coisas; ou era
companheiro do homem nos sortilgios; ou  um gato da vizinhana que se acostumou
a vir aqui passar a noite em procura de ratos.

 Ser, ser.

 Inclino-me  segunda hiptese,
porque, ainda que eu suponha teu tio amante de feitiarias, creio que no 
essa a parte mais importante da vida dele.

 Qual ser ento?

 Meu caro, temos j todos os
elementos de que compor um romance; vamos para a outra sala.

Quando ali chegamos, sentei-me
tranqilamente, acendi um charuto, e brincando com os culos de Pedro Anto,
comecei a falar.

 Viste aqui uma casa velha,
trastes velhos, ares velhos, nada mais. Eu vi aqui dentro uma histria
misteriosa. Organizar no vcuo no  coisa que todos possam fazer. Vejamos se
no me achas razo.

Mendona sentou-se e eu comecei:

 Sabes a razo da recluso do
tio?

 No, respondeu o meu
companheiro.

 Foi uma paixo? No te rias. Eu
imagino que teu tio se apaixonou por alguma dama formosa. Sabes donde concluo
isto? Do gosto pelas artes. As artes substituem os amores, quando estes so
impossveis. Amou, e no querendo ou no podendo casar com ela, retirou-se por
aqui. A solido e a paixo comearam a atuar na sua imaginao. Olha os livros
que ele lia; v estes dois bustos de Cristo e de Satans; olha estes objetos de
feitiaria esparsos no cho; tudo isto quer dizer que a religio nem a
filosofia bastavam  alma do tio e quando a filosofia e a religio no podem
triunfar de uma alma, triunfa a superstio. Que te parece?

 Um conto para passar o tempo.

 Ouve o resto. Ao cabo de um ou
dois anos, Pedro Anto recebeu uma pequena cartinha...

 Ah! onde est?

 No sei; mas recebeu. Talvez a
encontremos dentro desta secretria. O bilhete era da mulher amada, e dizia
provavelmente que tendo ele fugido, vinha ela em busca dele.

 E veio?

 Veio morar na vizinhana,
naquele sobrado cujos fundos vimos pela janela do sto. O tio no respondeu 
carta; a dama que eu chamarei Ceclia esperou debalde a resposta. Nova carta:
novo silncio. Ceclia, no furor da paixo, veste-se um dia com uma mantilha e
entra por aqui a pretexto de vir buscar esmolas para os indigentes da parquia.
 Mande entrar quem , disse Pedro Anto. A rapariga entrou, e quando se achou
a ss com o tio, descobriu o rosto.  Cus! s tu!  Sim sou eu; vim porque me
recusavas; amo-te...  Mas desgraada! no sabes que o teu ato  uma loucura e
um crime?   uma virtude pois que amo. O tio ps o rosto nas mos; estava
desesperado.

 Compreendo. E depois?

 Procurou dissuadi-la dos planos
que ela concebera; a nica coisa que conseguiu foi dar sua palavra de que iria v-la
 casa ou ao menos conversar de fora.  Mas eu no sei como possa l ir,
objetou Pedro Anto.  A janela do teu salo d para os fundos da minha casa.
Sobe ao telhado e eu conversarei da janela.  Pois sim respondeu teu tio.

 Supes que ele respondeu assim?

 Com certeza.

 O tio cumpriu ento a promessa?

 Cumpriu. Quando toda a
vizinhana estava recolhida, trepava ele ao telhado e ia conversar por baixo da
janela de Ceclia at que vinha a madrugada e Pedro Anto voltava para casa com
o corao mais tranqilo...

 E uma constipao no lombo.

 No te rias, Mendona; s um
esprito ftil. Ouve o resto, e vers que tudo se explica; eu aprendi a arte de
interpretar as coisas mais insignificantes. Ora, atende; atende e concordars
comigo.

 Continua.

 Assim se passaram os dias, as
semanas, os meses; era um idlio renouvel de Romo. Um dia
provavelmente o pai da moa percebeu que algum costumava perlustrar os
telhados, e tendo ouvido conjugar o verbo amar todas as noites sempre no
indicativo do tempo presente, resolveu pr em cena um quinto ato de Crebillon;
comprou uma pistola...

 E matou o tio?

 No!

 Felizmente.

 Ps-se de emboscada; apenas
apareceu um vulto, disparou a pistola... Dois gritos agudos acompanharam o som
do tiro; Pedro Anto correu a meter-se em casa. Ceclia caiu redondamente no cho.

 Morta?

 Desmaiada. Acudiu toda a
famlia. O pai acudiu tambm; mandou chamar um mdico e deram-se  pequena os
primeiros cuidados que a situao exigia. Albuquerque (deve ser o nome do pai)
era homem de costumes severos; guardou uma repreenso para a filha depois que
ficasse boa. A menina ficou no quarto com a me e uma escrava velha, a tia
Mnica. Aqui no te posso dizer quanto tempo esteve ela gravemente enferma; o
que te afirmo  que, apenas tornou em si, e pde lembrar-se do episdio do
tiro, disse que tivera um grande pesadelo, e a isso devera o desmaio. A me
engoliu a plula; o pai achou-a amarga demais. Passaram-se os dias; Ceclia
sempre de cama, ficava ento s com a escrava. Uma noite, disse-lhe a escrava:
 Por que razo, sinh-moa, quer sempre que eu v  janela de noite? Ceclia
fitou nela os olhos, e com voz fraca disse:  Tia Mnica, voc  capaz de
guardar um segredo?  Sou, respondeu a preta. Ceclia contou ento tudo; e
quando acabou, disse:  Eis aqui por que eu te mando  janela:  para ver se
vs o meu querido Anto; morreria ele?  No, sinh, respondeu Mnica; est
vivo. A moa respirou. Depois ouvindo rumor no telhado, disse  preta que fosse
ver o que era.   ele, disse Mnica.  Ah! diz-lhe que eu estou de cama, mas
que preciso falar-lhe. A preta deu conta do recado; Pedro Anto voltou para
casa. Meditou nos meios de subir  casa de Ceclia e v-la um minuto que fosse.
Por honra dele, devo dizer que hesitou muito tempo em cumprir a promessa...

Mendona neste ponto inclinou-se
mais para mim e disse:

 No ouves?

 O qu?

 Um rumor?

 So ratos. Deixa-te de vos
temores. Ouve a narrao. No te parece exata?

 Sim; parece. Tens uma penetrao
rara! Quem no dir que isso no  a verdade?

 Ningum pode diz-lo.

 Continua.

 Assentou Pedro Anto em ir ver a
enferma; para isso era preciso subir; para subir era necessrio ter uma escada;
e a escada s podia ser de seda. Por quem mandaria comprar uma escada de seda?
Podia diz-lo ao criado; mas isso era impossvel; seria a vergonha. Pedro Anto
resolveu sair ele mesmo...

 Sair?

 Foi a nica vez que saiu depois
da sua voluntria recluso. Saiu, e foi encomendar uma escada de seda, a qual
ficou pronta e veio da a dias por mo do criado, mas enrolada de modo que o
criado no soube o que era.

 Sim, o tio era prudente.

 Na primeira noite em que Pedro Anto subiu  casa houve na sua alma uma verdadeira luta. Eram os ltimos lampejos
da virtude; digo virtude, porque o ato de escalar uma janela constitui um crime
para qualquer, quanto mais para um homem daquela fora! Mas a paixo e a
piedade venceram; teu tio atravessou o telhado com a escada debaixo do brao. A
fiel Mnica l estava e ajudou a preparar a escada; depois subiu Pedro Anto
mais lesto que um menino trepando por uma mangueira acima. No se descreve a
cena do encontro dos dois amantes ao cabo de tanto tempo. Ceclia estava mais
plida que o linho dos lenis; o tio ajoelhou e derramou lgrimas de dor...
Que cena aquela! oh! os que amaram sabem o que  aquilo!

Creio que fui to pattico nesta
descrio, que o prprio Mendona ficou comovido. Pela minha parte no o estava
menos; davam ento duas horas; tudo em volta de ns contribua para a emoo de
que nos achvamos possudos.

 Vamos para casa, disse Mendona.

 Ouve o resto. A visita do tio
foi repetida nos seguintes dias. Parece que isso mesmo apressou o
restabelecimento da moa. No dia em que Ceclia ficou perfeitamente boa, disse-lhe Pedro Anto que era aquela a ltima visita. Ceclia
entrou a chorar.  No chores, disse teu tio; eu te amarei sempre; mas bem vs
que  impossvel a minha volta aqui. A tua doena explicava a minha audcia; a
tua sade...  Que temes tu? disse a moa; a opinio, quando vier a saber que
nos amamos? Pois bem; Mnica assistir as nossas entrevistas... Teu tio
mostrou-se severo e resoluto. A nica coisa que lhe concedeu foi que viria
conversar  janela: ficando ele pendurado na escada.

 Por que supes isto?
perguntou-me Mendona.

 Sabers adiante. Tudo o que at
aqui tenho dito  a verdade; do estudo destes objetos que vemos a concluso que
tiro,  que s a minha narrao pode explicar a vida de Pedro Anto.

 Continua.

 A promessa do tio foi cumprida.
Todas as noites saa o homem de casa, levando a escada que era posta
convenientemente para que ele subisse e fosse conversar com Ceclia na posio em que Romeu e Julieta se separaram dando o ltimo beijo e ouvindo o rouxinol... Queres ouvir o
dilogo da despedida de Romeu?

 No, vamos ao tio.

 No descansou o pai de Ceclia
enquanto no lhe arranjou um casamento. Apresentou-lhe um dia um rapaz dizendo
que era o seu noivo. Imagina o corao da pobre moa ao saber de semelhante
notcia. No ousou dizer abertamente ao pai que no queria o noivo; mas pediu
para refletir trs dias; e comunicou isso a teu tio. Imagina a dor do homem.
Que luta aquela! O amor e o dever  luta terrvel  qual teu tio teria
sucumbido se no fora a grande alma que Deus lhe deu. Que diria  moa?

 Eu carregava com ela.

 Bem, mas ele hesitou;
pareceu-lhe que no podia santificar uma unio condenada pela sociedade. No
queria perturbar o destino da moa que talvez fosse melhor do que se lhe
afigurava a ela. Que fez ento? disse-lhe que se casasse. Ceclia recusou o
conselho; teu tio insistiu; ela chorou. Que fazer diante das lgrimas de uma
mulher? O homem pediu um adiamento de vinte e quatro horas. Terrvel foi a noite
e o dia que se seguiu a esta entrevista. Jogava-se o destino de Anto e de
Ceclia. Raptando a moa, ele ia constituir-se ru perante Deus e os homens. O
momento era solene. A crise da vida chegara ao seu auge. Sobre a tarde tomou
ele uma resoluo suprema; raptar a moa, isto , salv-la das garras de um
noivo a quem ela no amava, e dar-lhe a felicidade que ela almejava neste
mundo. Comunicou o seu plano  rapariga; e assentou-se que da a trs dias se
executaria o plano. A moa dormiu alegre como se no dia seguinte devesse entrar
na bem-aventurana. Oh! o amor  capaz de grandes coisas! e quanta vez se
cometeu crime com alma alegre s porque  o amor que nos impele para o mal!

 Bonito! murmurou Mendona.

Irritou-me a interrupo e
levantei-me.

 Onde vais?

 No me queres ouvir.

 Quero; continua. Aplaudi a tua
exclamao. Quero saber em que parou tudo isso.

 Quando o tio voltou para casa,
encontrou junto  janela o criado. Todo o corpo lhe tremeu; estava descoberto.
O criado tinha ouvido bulha e supondo serem ladres subiu ao sto, viu a
janela aberta, e espantado, viu um vulto ao longe, e esperou. Quando descobriu
que era o tio, compreendeu que alguma coisa havia, e arrependeu-se de ter
subido. Quanto ao tio, passado o primeiro momento, voltou em si, desceu
tranqilamente e disse ao criado que se fosse deitar. O criado desceu sem dizer
palavra; o teu tio veio tranqilamente para esta sala e entrou a meditar no que
devia fazer. Era foroso confessar tudo ao criado; estando descoberto, j lhe no
aparentava a discrio; antes t-lo por amigo mostrando confiana. Assentou
nisso. Mas da a pouco entrou o receio a torturar-lhe a alma. Podia acaso
contar com a discrio de criado, ainda quando lhe mostrasse confiana? O medo
de ver-se descoberto lhe obumbrou a razo; o crime chama o crime. O relmpago
do crime lhe fuzilou na alma...

 Que fez?

 Decretou a morte do criado. Quem
poder dizer que longos foram os instantes passados naquela combinao de um
crime que era o primeiro na escala dos crimes futuros! Ao cabo de uma hora,
tomou uma vela, desceu a escada de mansinho, encaminhou-se ao quarto do criado.
Este dormia profundamente; Pedro Anto lembrou-se de que o melhor meio era
sufoc-lo; subiu outra vez e foi buscar um travesseiro. Desceu; o criado ainda
dormia. Teu tio ps-lhe o travesseiro sobre o pescoo e calcou com todas as
foras. Surpreendido no sono com este ataque, o criado procurou defender-se;
quis lutar; impossvel... por um movimento enrgico Pedro Anto concluiu a
morte comeada.

 Onde viste sinais desse crime?

 No vi sinais; mas  um crime
lgico. Por que razo morreria o criado logo na vspera do rapto? Teu tio quis
arredar uma testemunha ou um cmplice; mas vai ouvindo.

 Triste morte foi essa!

 Terrvel; teu tio subiu,
atirou-se  cama, mas no dormiu; a noite foi cruel; quando chegou a madrugada
ele respirou; podia ao menos afastar a memria do fato terrvel da vspera. Do
quintal chamou um vizinho, e pediu-lhe que fosse cuidar do enterro do criado. 
tarde foi este enterrado, levando para a sepultura o segredo do crime...

 Mas, Pedro,  impossvel que tu
no saibas disto por outro modo que no o conjectural. Ests falando de maneira
que pareces ter assistido a tudo... Sabias alguma coisa?

 Nada.

 Mas ento no compreendo.

 Meu amigo; chama-se a isto
penetrar alm da superfcie dos fatos. Vai ouvindo. A noite do enterro do
criado, era a noite do rapto de Ceclia. Tudo estava preparado. Pedro Anto aguardou
silenciosamente a hora marcada por ele, isto , meia-noite. O leitor facilmente
calcular...

 Que leitor?

 Foi engano. Quero dizer que tu
facilmente calculars as emoes do namorado antes de cometer o rapto.
Entretanto chegou a hora; Pedro Anto, que estava lendo para passar o tempo,
apenas ouviu bater meia-noite, foi ao quarto, pegou na escada... Aqui entram os
culos de Pedro. Estava lendo, e para ler punha os culos a fim de quebrar os
raios da luz. Com a pressa e a preocupao do ato que ia cometer nem se lembrou
de tirar os culos; foi com eles ate  outra sala, abriu a janela, saltou ao
telhado e aproximou-se da casa de Ceclia. Tudo estava silencioso; nenhum sinal
de vida. Que aconteceria? Estaria descoberto o plano? Adoeceria a moa? Nesta
incerteza esteve Pedro Anto durante dez mortais minutos. Abriu-se finalmente a
janela, e a cabea da moa apareceu. Teu tio deu sinal de que ele ali estava, e
a preta disse-lhe que esperasse um pouquinho enquanto a ama completava os
preparativos. Pedro Anto indagou a razo da demora. A preta respondeu que
houvera visitas em casa, e que em virtude disso, Ceclia no pde sair da sala.
Entrou a preta e teu tio esperou.

 V se pes a pequena c para
baixo.

 Ouve. Esperou teu tio outros dez
minutos, ao cabo dos quais voltou a preta e o homem atirou a extremidade da
escada que foi convenientemente presa em cima. Ceclia apareceu e a vista da moa deu nimo ao namorado. Disse-lhe ela que, para melhor
efetuar a descida vestira umas calas do primo; e atirou para baixo duas
trouxas. Continham roupa e vrios objetos. Pedro Anto ps as trouxas de lado,
e disse  pequena que descesse. Ora, justamente quando a moa se preparava a
descer, ouviu-se uma voz que dizia: Miservel!  Ceclia deu um grito e entrou
fechando a janela. Ficou em baixo Pedro Anto a procurar com os olhos de onde vinha a voz, at que um vulto se lhe aproximou. Era
nem mais nem menos o pai de Ceclia.

 De onde surgiu ele?

 Tinha percebido que a pequena
tramava alguma coisa; foi espreitar pelo buraco da fechadura, e viu-a preparar
as trouxas; desceu ao quintal e de l ouviu a voz de teu tio; por meio de uma
escada de mo trepou ao telhado no momento em que a moa ia pr o p fora da
casa. Avalie-se o drama que se passou ali no telhado. O pai, armado com uma
pistola, apontou-a ao peito de Pedro Anto; este viu iminente o seu fim. Quem
poderia salv-lo?  Eu! gritou uma voz no meio das sombras.

 Quem era?

 Espera. O vulto desarmou o pai
de Ceclia e intimou-lhe a retirada; o velho quis recalcitrar, mas teve de
obedecer  voz imperiosa do salvador de Pedro Anto. Tendo escapado por milagre
 morte que o esperava, o homem voltou-se para o vulto e agradeceu-lhe aquela
interveno providencial. Depois pediu que entrasse com ele em casa para lhe
explicar a razo de achar-se ali. Pedro Anto meditava uma mentira. O vulto
respondeu simplesmente.  Eu sei tudo!  Sabe tudo?  Quem  o senhor? 
Ningum.

 Parodiou o Garrett.

 Convidou teu tio ao vulto para
ir descansar alguns minutos em casa. O vulto aceitou. Atravessaram o telhado e entraram pela janela. Como estivesse escuro, Pedro Anto tomou um fsforo,
que levara consigo para a volta e  luz quem havia ele de ver?

 Quem?

 Adivinha.

 No sei.

 O criado?

 Sim.

 O defunto?

 Nem mais nem menos, o defunto.

 Essa agora!...

 Imagina o rosto do pobre homem,
deu um grito e correu; o criado segurou-o ainda pelas abas do palet; Pedro
Anto fez um esforo, escapou-se-lhe das mos, caram-lhe os culos; e ele foi
rolando pela escada abaixo at cair morto.

 Que horror!

 Aqui tens, conclu eu nem mais
nem menos a histria do tio, dos seus motivos de recluso, e da sua morte
desastrosa; a tens explicados os culos no corredor, a escada de seda na outra
sala. Queres mais claro?

 Realmente, disse Mendona, falas
com uma segurana que pareces ter visto tudo isto!!

 Para que serviria a perspiccia
ento?

 Safa! Eras capaz de provar que
eu ontem matei um homem!

 Questo de perspiccia; nada
mais. Queres apostar uma coisa?

 O qu?

 Queres apostar que eu acho nesta
secretria algum indcio do que estive a referir?

 Ento sabias alguma coisa?

 Eu, nada. Mas tenho um
pressentimento de que aqui dentro acharei coisa que nos guie e me prove a
veracidade do que te acabei de contar. Vamos abri-la.

 Com qu?

 No tens nada?

 Nada. Sabes que mais? Vamos
embora. Amanh, abriremos isto.

 No, agora mesmo.

 Qual olha; so trs horas quase.
Vamos dormir; amanh voltarei contigo e de manh, vir conosco um homem que
entenda disto...

 Pois sim.

Samos da casa de Pedro Anto; e
eu confesso que no dormi a noite inteira, porque o pouco que dela restava, gastei-a
eu a pensar na histria do homem. Se eu achasse na secretria alguma coisa, uma
cartinha de amores, uma lembrana de mulher, tinha ganho a glria de ter
adivinhado uma histria que ningum descobriria nem exporia com tanta lucidez.

No dia seguinte s dez horas da
manh fui ter com o meu amigo Mendona que ainda estava dormindo; esperei que
acordasse e almoasse, depois do que fomos buscar um ferreiro, encarregado de
arrombar a secretria de Pedro Anto.

A fechadura no resistiu muito
tempo.

Quando nos achamos ss, entramos a
examinar o contedo daquele velho mvel, testemunha insuspeita da vida do tio.

Muitos objetos amos encontrando
que no serviam para o caso: papis velhos, cartas de amigos, contas de
credores, notas de leitura, etc.

Nada vimos que servisse ao caso.

  impossvel, disse eu; vejamos
nas gavetinhas.

Nas gavetinhas tambm nada se
encontrou que pudesse ter relao com a minha verso da morte de Pedro Anto.

De repente, disse-me Mendona ter
achado uns cabelos.

 Ah! exclamei, enfim!

 Mas so cabelos brancos,
acrescentou Mendona.

Em resumo, nada encontramos que
nos pudesse guiar no assunto, e eu senti deveras porque o menor indcio era
naquele caso uma prova; ao menos eu assim o entendia.

No meio do trabalho em que
estvamos, no demos por uma gaveta escondida por trs de uma tabuinha.

Abriu-se a gaveta por si e graas
a um acaso. Querendo eu arrancar um folheto, apertei uma mola e a gaveta
abriu-se.

Dentro havia um rolo fino de papel
com esta nota por fora. Para ser entregue a meu sobrinho Mendona.

 Vejamos.

Mendona abriu o rolo. Continha
uma folha de papel com as seguintes palavras:

Meu sobrinho. Deixo o mundo sem
saudades. Vivo recluso tanto tempo para me acostumar  morte. Ultimamente li
algumas obras de filosofia da histria, e tais coisas vi, tais explicaes
encontrei de fatos at aqui reconhecidos, que tive uma idia excntrica. Deixei
a uma escada de seda, uns culos verdes, que eu nunca usei, e outros objetos,
a fim de que tu ou algum pasccio igual inventassem a meu respeito um romance,
que toda a gente acreditaria at o achado deste papel. Livra-te da filosofia da
histria.

Calcule agora o leitor o efeito
deste escrito, espcie de dedo invisvel que me deitava por terra o edifcio da
minha interpretao!

Da
para c no interpretei  primeira vista todas as aparncias.
