Conto, O Caso do Romualdo, 1884

O Caso do Romualdo

Texto-fonte:

Obra Completa, de Machado de Assis,
vol. II,

Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente em A Estao, de 15/9/1884 a 15/11/1884.

Um dia, de manh, D. Maria Soares,
que estava em casa, descansando de um baile para ir a outro, foi procurada por
D. Carlota, companheira antiga de colgio, e scia agora da vida elegante.
Considerou isso um benefcio do acaso, ou antes um favor do cu, com o fim
nico de lhe matar as horas aborrecidas. E merecia esse favor, pois de
madrugada, ao voltar do baile, no deixou de cumprir as rezas do costume, e,
logo  noite, antes de ir para o outro, no deixar de persignar-se.

D. Carlota entrou. Ao p uma da
outra pareciam irms; a dona da casa era, talvez, um pouco mais alta, e tinha
os olhos de outra cor; eram castanhos, os de D. Carlota pretos. Outra
diferena: esta era casada, D. Maria Soares, viva:  ambas possuam alguma
coisa, e no chegavam a trinta anos; parece que a viva contava apenas vinte e
nove, posto confessasse vinte e sete, e a casada andava nos vinte e oito.
Agora, como  que uma viva de tal idade, bonita e abastada, no contraa
segundas npcias  o que toda a gente ignorou sempre. No se pode supor que fosse
fidelidade ao morto, pois  sabido que ela no o amava muito nem pouco; foi um
casamento de arranjo. Talvez no se pode crer que lhe faltassem pretendentes;
tinha-os s dzias.

 Voc chegou muito a propsito,
disse a viva a Carlota; vamos falar de ontem... Mas que  isso? que cara 
essa?

Na verdade, a cara de Carlota
trazia impressa uma tempestade interior; os olhos faiscavam, e as narinas
moviam-se deixando passar uma respirao violenta e colrica. A viva insistiu
na pergunta, mas a outra no lhe disse nada; atirou-se a um sof, e s no fim
de uns dez segundos, proferiu algumas palavras que explicaram a agitao.
Tratava-se de um arrufo, no briga com o marido, por causa de um homem. Cimes?
No, no, nada de cimes. Era um homem, com que ela antipatizava profundamente,
e que ele queria fazer amigo da casa. Nada menos, nada mais, e antes assim. Mas
por que  que ele queria relacion-lo com a mulher?

Custa diz-lo: ambio poltica.
Vieira quer ser deputado por um distrito do Cear, e Romualdo tem ali
influncia, e trata de fazer vingar a candidatura do amigo. Ento este, no s
quer met-lo em casa  e j ali o levou duas vezes  como tem o plano de lhe
dar um jantar solene, em despedida, porque o Romualdo embarca para o Norte
dentro de uma semana. A est todo o motivo do dissentimento.

 Mas, Carlota, dizia ele 
mulher, repara que  a minha carreira. Romualdo  trunfo no distrito. E depois
no sei que embirrao  essa, no entendo...

Carlota no dizia nada; torcia a
ponta de uma franja.

 O que  que achas nele?

 Acho-o antiptico, aborrecido...

 Nunca trocaram mais de oito
palavras, se tanto, e j o achas aborrecido!

 Tanto pior. Se ele  aborrecido
calado, imagina o que ser falando. E depois...

 Bem, mas no podes sacrificar-me
alguma coisa? Que diabo  uma ou duas horas de constrangimento, em benefcio
meu? E mesmo teu, porque, eu na Cmara, tu ficas sendo mulher de deputado, e
pode ser... quem sabe? Pode ser at que de ministro, um dia. Desta massa  que
eles se fazem.

Vieira gastou uns dez minutos em
sacudir diante da mulher as pompas de um grande cargo, uma pasta, ordenanas,
fardo ministerial, correios do pao, e as audincias, e os pretendentes, e as
cerimnias... Carlota no se abalava. Afinal, exasperada, fez ao marido uma
revelao.

 Ouviu bem? O tal seu amigo
persegue-me com os olhos de mosca morta, e das oito palavras que me disse,
trs, pelo menos, foram atrevidas.

Vieira ficou alguns instantes sem
dizer nada; depois comeou a mexer com a corrente do relgio, afinal acendeu um
charuto. Estes trs gestos correspondiam a trs momentos do esprito. O
primeiro foi de pasmo e raiva. Vieira amava a mulher, e, por outro lado, cria
que os intuitos do Romualdo eram puramente polticos. A descoberta de que a
proteo da candidatura tinha uma paga, e paga adiantada, foi para ele um
assombro. Veio depois o segundo momento, que foi o da ambio, a cadeira na
Cmara, a reputao parlamentar, a influncia, um ministrio... Tudo isso
atenuou a primeira impresso. Ento ele perguntou a si mesmo, se, estando certo
da mulher, no era j uma grande habilidade poltica explorar o favor do amigo,
e deix-lo ir-se de cabea baixa. Em rigor, a pretenso do Romualdo no seria
nica; Carlota teria outros namorados in petto. No se havia de brigar
com o mundo inteiro. Aqui entrou o terceiro momento, o da resoluo. Vieira
determinou-se a aproveitar o favor poltico do outro, e assim o declarou 
mulher, mas comeou por dissuadi-la.

 Pode ser que voc se engane. As
moas bonitas esto expostas a serem olhadas muita vez por admirao, e se
cuidarem que j isso  amor, ento nem podem mais aparecer.

Carlota sorriu com desdm.

 As palavras? disse o marido. No
podiam ser palavras de cumprimento? Podiam, decerto...

E, depois de um instante, como lhe
visse persistir o ar desdenhoso:

 Juro que se tivesse a certeza do
que me dizes, castigava-o... Mas, por outro lado,  justamente a vingana melhor;
fao-o trabalhar, e... justamente! Querem saber uma coisa? A vida  uma
combinao de interesses... O que eu quero  fazer-te ministra de Estado, e...

Carlota deixou-o falar,  toa.
Como ele insistisse, ela prorrompeu e disse-lhe coisas duras. Estava
sinceramente irritada. Gostava muito do marido, no era loureira, e nada podia
agrav-la mais do que o acordo que o marido procurava entre a convenincia
poltica e os sentimentos dela. Ele, afinal, saiu zangado; ela vestiu-se e foi
para a casa da amiga.

Ho de perguntar-me como se
explica que, tendo mediado algumas horas, entre a briga e a chegada  casa da
amiga, Carlota ainda estava no grau agudo da exasperao. Respondo que em
alguma coisa h de uma moa ser faceira, e pode ser que a nossa Carlota gostasse
de ostentar os seus sentimentos de amor ao marido e de honra conjugal, como
outras mostram de preferncia os olhos e o mtodo de mexer com eles. Digo que
pode ser; no afiano nada.

Ouvida a histria, D. Maria Soares
concordou em parte com a amiga, em parte com o marido, posto que, realmente, s
concordasse consigo mesma, e acreditasse piamente que o maior desastre que
podia suceder a uma criatura humana, depois de uma noite de baile, era
entrar-lhe em casa uma questo daquelas.

Carlota tratou de provar que tinha
razo em tudo, e no parcialmente; e a viva diante da ameaa de maior
desastre, foi admitindo que sim, que afinal quem tinha toda a razo era ela,
mas que o melhor de tudo era deixar andar o marido.

  o melhor, Carlota; voc no
est certa de si? Pois ento deixe-o andar... Vamos ns  Rua do Ouvidor? ou
vamos mais perto, um passeiozinho...

Era um meio de acabar com o
assunto; Carlota aceitou, D. Maria foi vestir-se, e da a pouco saram ambas.
Vieram  Rua do Ouvidor, onde no foi difcil esquecer o assunto, e tudo acabou
ou ficou adiado. Contribuiu para isso o baile da vspera; a viva alcanou
finalmente que falassem das impresses trazidas, falaram por muito tempo,
esquecidas do resto, e para no voltar logo para a casa, foram comprar alguma
coisa a uma loja. Que coisa? Nunca se soube claramente o que foi; h razes
para crer que foi um metro de fita, outros dizem que dois, alguns opinam por
uma dzia de lenos. O nico ponto liquidado  que estiveram na loja at quatro
horas.



Ao voltar para casa, perto da Rua
Gonalves Dias, Carlota disse precipitadamente  amiga:

 L est ele!

 Quem?

 O Romualdo.

 Onde est?

  aquele de barbas grandes, que
est coando o queixo com a bengala, explicou a moa olhando para outra parte.

D. Maria Soares relanceou os olhos
pelo grupo, disfaradamente, e viu o Romualdo. No ocultou a impresso;
confessou que era, na verdade, um sujeito antiptico; podia ser trunfo em
poltica; em amor, devia ser carta branca. Mas, alm de antiptico, tinha um
certo ar de matuto, que no convidava a am-lo. Elas foram andando, e no
escaparam ao Romualdo, que vira Carlota e veio cumpriment-la, afetuoso, posto
que tambm acanhado; perguntou-lhe pelo marido, e se ia naquela noite, ao
baile, disse tambm que o dia estava fresco, que tinha visto umas senhoras
conhecidas de Carlota, e que a rua parecia mais animada naquele dia do que na
vspera. Carlota foi respondendo com palavras frouxas, entre dentes.

 Exagerei? perguntou ela  viva
no bond.

 Qual exageraste! O sujeito 
insuportvel, acudiu a viva; mas, Carlota, no te acho razo na zanga. Pareces
criana! Um sujeito assim no faz zangar ningum. A gente ouve o que ele diz,
no lhe responde nada, ou fala do sol e da lua, e est acabado;  at um
divertimento. J tive muitos do mesmo gnero...

 Sim, mas no tens um marido
que...

 No tenho, mas tive; o Alberto
era do mesmo gnero; eu  que no brigava, nem lhe revelava nada; ria-me. Faze
a mesma coisa; vai rindo... Realmente, o sujeito tem um olhar espantado, e
quando sorri fica mesmo com uma cara de poucos amigos; parece que srio  menos
carrancudo.

 E ...

 Bem vi que era. Ora zangar-se a
gente por to pouca coisa! Demais, ele no vai embora esta semana? Que te custa
suport-lo?

D. Maria Soares tinha aplacado
inteiramente a amiga; enfim, o tempo e a rua perfizeram a melhor parte da obra.
Para o fim da viagem, riam ambas, no s da figura do Romualdo, mas tambm das
palavras que ele dissera a Carlota, as tais palavras atrevidas, que no ponho
aqui por no haver notcia exata delas; estas, porm, confiou-as  viva, no
as tendo dito ao marido. A viva opinou que elas eram menos atrevidas que
burlescas. E ditas por ele deviam ser ainda piores. Era mordaz esta viva, e
amiga de rir e brincar como se tivesse vinte anos.

A verdade  que Carlota voltou
para casa tranqila, e disposta ao banquete. Vieira, que esperava a continuao
da luta, no pde encobrir o contentamento de a ver mudada. Confessou que ela
tinha razo em mortificar-se, e que ele, se no estivessem as coisas em
andamento, abriria mo da candidatura; j o no podia fazer sem escndalo.

Chegou o dia do jantar, que foi
esplndido, assistindo a ele vrios personagens polticos e outros. De
senhoras, apenas duas, Carlota e D. Maria Soares. Um dos brindes de Romualdo
foi feito a ela;  um longo discurso, arrastado, cantado, assoprado, cheio de anjos,
de um ou dois sacrrios, de caras esposas, acabando tudo por um
cumprimento ao nosso venturoso amigo. Vieira interiormente mandou-o ao
diabo; mas, levantou o copo e agradeceu sorrindo.

Dias depois, seguia Romualdo para
o Norte. A noite da vspera foi passada em casa do Vieira, que se desfez em
demonstraes de aparente considerao. De manh, levantou-se este cedo para ir
a bordo, acompanh-lo; recebeu muitos cumprimentos para a mulher,  despedida,
e prometeu que da a pouco iria ter com ele. O aperto de mo foi significativo;
um tremia de esperanas, outro de saudades, ambos pareciam pr naquele arranco
final todo o corao, e punham to-somente o interesse,  ou de amor ou de
poltica,  mas o velho interesse, to amigo da gente e to caluniado.

Pouco tempo depois, seguiu o
Vieira para o Norte, a cuidar da eleio. As despedidas foram naturalmente
chorosas, e por pouco, esteve Carlota disposta a seguir tambm com ele; mas a
viagem no duraria muito tempo, e depois, ele teria de percorrer o distrito,
cuidar de coisas que tornavam difcil a conduo da famlia.

Ficando s, Carlota cuidou de
matar o tempo, para torn-lo mais curto. No foi a teatros nem bailes; mas
visitas e passeios eram com ela. D. Maria Soares continuava a ser a melhor das
companheiras, rindo muito, reparando em tudo, e mordendo sem piedade.
Naturalmente, o Romualdo foi esquecido; Carlota chegou mesmo a arrepender-se de
ter ido confiar  amiga uma coisa, que agora lhe parecia mnima. Demais, a
idia de ver o marido deputado, e provavelmente ministro, comeava a domin-la,
e a quem o deveria, seno ao Romualdo? Tanto bastava para no torn-lo odioso
nem ridculo. A segunda carta do marido confirmou-a nesse sentimento de
indulgncia; dizia que a candidatura tinha esbarrado num grande obstculo, que
o Romualdo destrura, graas a um imenso esforo, em que at perdeu um amigo de
vinte anos.

Tudo caminhou assim, enquanto
Carlota, aqui na corte, ia matando o tempo, segundo ficou dito. J disse tambm
que D. Maria Soares ajudava-a nessa empresa. Resta dizer, que no sempre, mas
s vezes, tinham ambas um parceiro, que era o Dr. Andrade, companheiro de
escritrio do Vieira, e encarregado de todos os seus negcios, durante a
ausncia. Este era um advogado recente, vinte e cinco anos, no deselegante,
nem feio. Tinha talento, era ativo, instrudo, e no pouco sagaz, em negcios
do foro; para o resto das coisas, conservava a ingenuidade primitiva.

Corria que ele gostava de Carlota,
e mal se compreende um tal boato, pois a ningum confiou nada, nem mesmo a ela,
por palavras ou obras. Pouco ia l; e quando ia procedia de modo que no desse
azo a nenhuma suspeita.  certo, porm, que ele gostava dela, e muito, e se
nunca lho declarou, menos o faria agora. Evitava at ir l; mas Carlota
convidou-o algumas vezes a jantar, com outras pessoas; D. Maria Soares, que o
viu ali, tambm o convidou, e foi assim que ele achou-se mais vezes do que
pretendia em contato com a senhora do outro.

D. Maria Soares desconfiou
previamente do amor do Andrade. Era um dos seus princpios desconfiar dos
coraes de vinte e cinco a trinta e quatro anos. Antes de ver nada, suspeitou
que o Andrade amava a amiga, e s tratou de ver se a amiga lhe correspondia.
No viu nada; mas concluiu alguma coisa. Ento considerou que esse corao
abandonado, tiritando de frio na rua, podia ela receb-lo, agasalh-lo, dar-lhe
o principal lugar, numa palavra, casar com ele. Pensou nisto um dia; no dia
seguinte, acordou apaixonada. J? J, e explica-se. D. Maria Soares gostava da
vida brilhante, ruidosa, dispendiosa, e o Andrade, alm das outras qualidades,
no viera a este mundo sem uma av, nem esta av se deixara viver at aos
setenta e quatro anos, na fazenda sem uns oitocentos contos. Constava estar na
dependura; e foi a prpria Carlota que lho disse a ela.

 Parece que at j est pateta.

 Oitocentos contos? repetiu D.
Maria Soares.

 Oitocentos;  uma boa fortuna.

D. Maria Soares olhou para um dos
quadros que Carlota tinha na saleta: uma paisagem da Sua. Bela terra  a
Sua! disse ela. Carlota admitiu que o fosse, mas confessou que preferia viver
em Paris, na grande cidade de Paris... D. Maria Soares suspirou, e olhou para o
espelho. O espelho respondeu-lhe sem cumprimento: Pode tentar a empresa, ainda
est muito bonita.

Assim se explica o primeiro
convite de D. Maria Soares ao Andrade, para ir jantar  casa dela, com a amiga,
e outras pessoas. Andrade foi, jantou, conversou, tocou piano,  pois tambm
sabia tocar piano,  e recebeu da viva os mais ardentes encmios. Realmente,
nunca tinha visto tocar assim; no conhecia amador que pudesse competir com
ele. Andrade gostou de ouvir isto, principalmente porque era dito ao p de
Carlota. Para provar que a viva no elogiava a um ingrato, voltou ao piano, e
deu sonatas, barcarolas, rveries, Mozart, Schubert, nomes novos e
antigos. D. Maria Soares estava encantada.

Carlota percebeu que ela comeava
a cortej-lo, e sentiu no ter intimidade com ele, que lhe permitisse dizer-lho
por brinco; era um modo de os casar mais depressa, e Carlota estimaria ver a
amiga em segundas npcias, com oitocentos contos  porta. Em compensao disse-o
 amiga, que pela regra eterna das coisas negou-o a ps juntos.

 Pode negar, mas eu bem vejo que
voc anda ferida, insistiu Carlota.

 Ento  ferida que no di,
porque eu no sinto nada, replicou a viva.

Em casa, porm, advertiu que
Carlota lhe falara com tal ingenuidade e interesse, que era melhor dizer tudo,
e utiliz-la na conquista do advogado. Na primeira ocasio, negou sorrindo e
vexada; depois, abriu o corao, previamente aparelhado para receb-lo, cheio
de amor por todos os cantos. Carlota viu tudo, andou por ele, e saiu convencida
de que, apesar da diferena de idade, nem ele podia ter melhor esposa, nem ela
melhor marido. A questo era uni-los, e Carlota disps-se  obra.

Eram ento passados dois meses
depois da sada do Vieira, e chegou uma carta dele com a notcia de estar de
cama. A letra pareceu to trmula, e a carta era to curta, que lanou o
esprito de Carlota na maior perturbao. No primeiro instante, a sua idia foi
embarcar e ir ter com o marido; mas o advogado e a viva procuravam aquiet-la,
dizendo-lhe que no era caso disso, e que provavelmente j estaria bom; em todo
caso, era melhor esperar outra carta.

Veio outra carta, mas do Romualdo,
dizendo que o estado do Vieira era grave, no desesperado; os mdicos
aconselhavam que tornasse para o Rio de Janeiro; eles viriam na primeira
ocasio.

Carlota ficou desesperada. Comeou
por no crer na carta. Meu marido morreu, soluava ela; esto me enganando.
Entretanto, veio terceira carta do Romualdo, mais esperanada. O doente j
podia embarcar, e viria no vapor que dali sairia dois dias depois; ele o
acompanharia com todas as cautelas, e a mulher podia no ter cuidado nenhum. A
carta era simples, verdadeira, dedicada e ps um calmante no esprito da moa.

Com efeito, Romualdo embarcou,
acompanhando o doente, que passou bem o primeiro dia de mar. No segundo piorou,
e o estado agravou-se de modo que, ao chegar  Bahia, pensou o Romualdo que era
melhor desembarcar; mas o Vieira recusou formalmente uma e muitas vezes,
dizendo que se tivesse de morrer, preferia vir morrer ao p da famlia. No
houve remdio seno ceder, e por mal dele, expirou vinte e quatro horas depois.

Poucas horas antes de morrer, o
advogado sentiu que era chegado o termo fatal, e fez algumas recomendaes ao
Romualdo, relativamente a negcios de famlia e do foro; umas deviam ser
transmitidas  mulher; outras ao Andrade, companheiro de escritrio, outras a
parentes. S uma importa ao nosso caso.

 Diga  minha mulher que a ltima
prova de amor que lhe peo  que no se case...

 Sim... sim...

 Mas, se ela, a todo o transe
entender que se deve casar, pea-lhe que a escolha do marido recaia no Andrade,
meu amigo e companheiro, e...

Romualdo no entendeu essa preocupao
da ltima hora, nem provavelmente o leitor, nem eu,  e o melhor, em tal caso,
 contar e ouvir a coisa sem pedir explicao. Foi o que ele fez; ouviu, disse
que sim, e poucas horas depois, expirava o Vieira. No dia seguinte, entrava o
vapor no porto, trazendo a Carlota um cadver, em vez do marido que daqui
partira. Imaginem a dor da pobre moa, que alis receava isso mesmo, desde a
ltima carta de Romualdo. Chorara em todo esse tempo, e rezou muito, e prometeu
missas, se o pobre Vieira lhe chegasse vivo e so: mas nem rezas, nem
promessas, nem lgrimas.

Romualdo veio  terra, e correu 
casa de D. Maria Soares, pedindo a sua interveno para preparar a recente
viva a receber a fatal notcia; e ambos passaram  casa de Carlota, que
adivinhou tudo, apenas os viu. O golpe foi o que devia ser, no  preciso
narr-lo. Nem o golpe, nem o enterro, nem os primeiros dias. Saiba-se que
Carlota retirou-se da cidade por algumas semanas, e s voltou  antiga casa,
quando a dor lhe consentiu v-la, mas no pde v-la sem lgrimas. Ainda assim
no quis outra; preferia padecer, mas queria as mesmas paredes e lugares que
tinham visto o marido e a sua felicidade.

Passados trs meses, Romualdo
tratou de desempenhar-se da incumbncia que o Vieira lhe dera,  ltima hora, e
nada mais difcil para ele, no porque amasse a viva do amigo,  realmente,
tinha sido uma coisa passageira,  mas pela natureza mesmo da incumbncia.
Entretanto, era foroso faz-lo. Escreveu-lhe uma carta, dizendo que tinha de
dizer-lhe, em particular, coisas graves que ouvira ao marido, poucas horas
antes de morrer. Carlota respondeu-lhe com este bilhete:

Pode vir quanto antes, e se quiser
hoje mesmo, ou amanh, depois do meio-dia; mas prefiro que seja hoje. Desejo
saber o que , e ainda uma vez agradecer-lhe a dedicao que mostrou ao meu
infeliz marido.

Romualdo foi nesse mesmo dia,
entre trs e quatro horas. Achou ali D. Maria Soares, que no se demorou muito,
e os deixou ss. Eram duas vivas, e ambas de preto, e Romualdo pde compar-las,
e achou que a diferena era imensa; D. Maria Soares dava a sensao de uma
pessoa que escolhera a viuvez por ofcio e comodidade. Carlota estava ainda
acabrunhada, plida e sria. Diferena de data ou de temperamento? Romualdo no
pde averigu-lo, no chegou sequer a formular a questo. Medocre de esprito,
este homem tinha uma dose grande de sensibilidade, e a figura de Carlota
impressionou-o de modo, que no lhe deu lugar a mais do que  comparao das
pessoas. Houve mesmo da parte de D. Maria Soares duas ou trs frases que
pareceram ao Romualdo um tanto esquisitas. Uma delas foi esta:

 Veja se persuade a nossa amiga a
conformar-se com a sorte; lgrimas no ressuscitam ningum.

Carlota sorriu sem vontade, para
responder alguma coisa, e Romualdo rufou com os dedos sobre o joelho, olhando
para o cho. D. Maria Soares levantou-se afinal, e saiu. Carlota, que a
acompanhou at  porta, voltou ansiosa ao Romualdo, e pediu que lhe dissesse
tudo, tudo, as palavras dele, e a doena, e como foi que comeou, e os cuidados
que lhe deu, e que ela soube aqui e lhe agradecia muito. Tinha visto uma carta
de pessoa da provncia, dizendo que a dedicao dele no podia ser maior.
Carlota falava s pressas, cheia de comoo, sem ordem nas idias.

 No falemos do que fiz, disse o
Romualdo; cumpri um dever natural.

 Bem, mas eu agradeo-lhe por ele
e por mim, replicou ela estendendo-lhe a mo.

Romualdo apertou-lhe a mo, que
estava trmula, e nunca lhe pareceu to deliciosa. Ao mesmo tempo, olhou para
ela e viu que a cor plida ia-lhe bem, e com o vestido preto, tinha um tom
asctico e particularmente interessante. Os olhos cansados de chorar no
traziam o mesmo fulgor de outro tempo, mas eram muito melhores assim, como uma
espcie de meia-luz de alcova, abafada pelas cortinas e venezianas fechadas.

Nisto pensou na comisso que o
levava ali, e estremeceu. Comeava a palpitar, outra vez, por ela, e agora que
a achava livre, ia levantar duas barreiras entre ambos:  que se no casasse, e
que, a faz-lo, casasse com outro, uma pessoa determinada. Era exigir demais.
Romualdo pensou em no dizer nada, ou dizer outra coisa qualquer. Que coisa?
Qualquer coisa. Podia atribuir ao marido uma recomendao de ordem geral, que
se lembrasse dele, que lhe sufragasse a alma por certa maneira. Tudo era
crvel, e no prenderia assim o futuro com uma palavra. Carlota, sentada
defronte, esperava que ele falasse; chegou a repetir o pedido. Romualdo sentiu
um repelo da conscincia. No momento de formular a recomendao falsa, recuou,
teve vergonha, e disps-se  verdade. Ningum sabia o que se passara entre ele
e o finado, seno a conscincia dele, mas a conscincia bastava, e ele
obedeceu. Pacincia! era esquecer o passado, e adeus.

 Seu marido,  comeou , no
mesmo dia em que morreu, disse-me que tinha um grande favor que pedir-me, e
fez-me prometer que cumpriria tudo. Respondi-lhe que sim. Ento, disse-me ele
que era um grande benefcio que a senhora lhe fazia, se se conservasse viva, e
que lhe pedisse isto, como um desejo da hora da morte. Entretanto, dado que no
pudesse faz-lo...

Carlota interrompeu-o com o gesto:
no queria ouvir nada, era penoso. Mas o Romualdo insistiu, tinha de cumprir...

Foram interrompidos por um criado;
o Dr. Andrade acabava de chegar, trazendo  viva uma comunicao urgente.

Andrade entrou, e pediu a Carlota
para lhe falar em particular.

 No  preciso, retorquiu a moa,
este senhor  nosso amigo, pode ouvir tudo.

Andrade obedeceu e disse ao que
vinha; este incidente  sem valor para o nosso caso. Depois, conversaram os
trs durante alguns minutos. Romualdo olhava para o Andrade com inveja, e
tornou a perguntar a si mesmo se lhe convinha dizer alguma coisa. A idia de
dizer outra coisa qualquer comeou a turvar-lhe novamente o esprito. Ao ver o
jovem advogado to gracioso, to atraente, Romualdo concluiu,  e no concluiu
mal,  que o pedido do morto era um incitamento; e se Carlota nunca pensara em
casar, era ocasio de faz-lo. O pedido chegou a parecer-lhe to absurdo, que a
idia de alguma desconfiana do marido veio naturalmente, e atribuiu-lhe assim
a inteno de punir moralmente a mulher:  concluso, por outro lado, no menos
absurda,  vista do amor que ele testemunhara no casal.

Carlota, na conversao,
manifestou o desejo de retirar-se para a fazenda de uma tia, logo que acabasse
o inventrio; mas, se demorasse muito tempo iria em breve.

 Farei o que puder para ir
depressa, disse o Andrade.

Da a pouco saiu este, e Carlota,
que o acompanhara at a porta, voltou ao Romualdo, para dizer-lhe:

 No quero saber o que foi que
meu marido lhe confiou. Ele pede-me o que por mim mesmo faria:  ficarei
viva...

Romualdo podia no ir adiante, e
desejou isso mesmo. Estava certo da sinceridade da viva, e da resoluo
anunciada; mas o diabo do Andrade com os seus modos finos e olhos clidos
fazia-lhe travessuras no crebro. Entretanto, a solenidade da promessa tornou a
aparecer-lhe como um pacto que se havia de cumprir, custasse o que custasse.
Ocorreu-lhe um meio-termo: obedecer  viva, e calar-se, e, um dia, se ela
deveras se mostrasse disposta a contrair segundas npcias, completar-lhe a
declarao. Mas no tardou em ver que isto era uma infidelidade disfarada; em
primeiro lugar, ele poderia morrer antes, ou estar fora, em servio ou doente;
em segundo lugar, poderia ser que lhe falasse, quando ela estivesse apaixonada
por outro. Resolveu dizer tudo.

 Como ia dizendo, continuava ele,
seu marido...

 No diga mais nada, interrompeu
Carlota; para qu?

 Ser intil, mas devo cumprir o
que prometi ao meu pobre amigo. A senhora pode dispens-lo, eu  que no.
Pede-lhe que se conserve viva; mas que, no caso de no lhe ser possvel,
pedir-lhe-ia bem que a sua escolha recasse no... Dr. Andrade...

Carlota no pde ocultar o
espanto, e no teve s um, mas dois, um atrs do outro. Quando Romualdo
conclua o pedido, antes de dizer o nome do Andrade, Carlota imaginou que ia
citar o dele mesmo; e, rpido, tanto lhe pareceu um desejo do marido como uma
astcia do portador, que a cortejara antes. Esta segunda suspeita entornou-lhe
na alma um grande desgosto e desprezo. Tudo isso passou como um relmpago, e
quando chegou ao fim, ao nome do Andrade, mudou de espanto, e no foi menor.
Esteve calada alguns segundos, olhando  toa; depois, repetiu o que j dissera.

 No pretendo casar.

 Tanto melhor, disse ele, para os
desejos ltimos de seu marido. No lhe nego que o pedido me pareceu exceder do
direito de um moribundo; mas no me cabe discuti-lo:  questo entre a senhora
e a sua conscincia.

Romualdo levantou-se.

 J? disse ela.

 J.

 Jante comigo.

 Peo-lhe que no; virei outro
dia, disse ele estendendo-lhe a mo.

Carlota estendeu-lhe a mo. Pode
ser que se ela estivesse com o esprito quieto, percebesse nos modos do
Romualdo alguma coisa que no era a audcia de outrora. Na verdade, ele estava
agora acanhado, comovido, e a mo tremia-lhe um tanto. Carlota apertou-lha
cheia de agradecimento; ele saiu.

Ficando s, Carlota refletiu em
tudo o que se passara. A lembrana do marido pareceu-lhe tambm extraordinria;
e, no tendo ela jamais pensado no Andrade, no pde furtar-se a pensar nele e
na simples indicao do moribundo. Tanto pensou em tudo isso, que lhe ocorreu
finalmente a posio do Romualdo. Esse homem tinha-a cortejado, parecia
quer-la, recebeu do marido, prestes a expirar, a confidncia ltima, o pedido
da viuvez e a designao de um sucessor, que no era ele, mas outro; e, no
obstante, cumpriu tudo fielmente. O procedimento pareceu-lhe herico. E da
pode ser que j no a amasse: e foi, talvez, um capricho de momento; estava
acabado; nada mais natural.

No dia seguinte, ocorreu a Carlota
a idia de que Romualdo, sabendo da amizade do marido com o Andrade, podia ir
comunicar a este o pedido do moribundo, se j o no tinha feito. Mais que
depressa, lembrou-se de mandar cham-lo, e pedir-lhe que viesse v-la; chegou
mesmo a escrever-lhe um bilhete, mas mudou de idia, e, em vez de pedir-lho de
viva voz, determinou faz-lo por escrito. Eis o que escreveu:

Estou certa de que as ltimas
palavras de meu marido foram apenas repetidas a mim e a ningum mais;
entretanto, como h outra pessoa, que poderia ter interesse em saber...

Chegando a este ponto da carta,
releu-a, e rasgou-a. Parecia-lhe que a frase tinha um tom misterioso,
inconveniente na situao. Comeou outra, e no lhe agradou tambm; ia escrever
terceira, quando vieram anunciar-lhe a presena do Romualdo; correu  sala.

 Escrevia-lhe agora mesmo, disse
ela logo depois.

 Para qu?

 Referiu aquelas palavras de meu
marido a algum?

 A ningum. No podia faz-lo.

 Sei que no o faria; entretanto,
ns, as mulheres, somos naturalmente medrosas, e o receio de que algum mais,
quem quer que seja, saiba do que se passou, peo-lhe que por nenhuma coisa
refira a outra pessoa...

 Certamente que no.

 Era isto o que lhe dizia a
carta.

Romualdo vinha despedir-se; seguia
da trs dias para o Norte. Pedia-lhe desculpa de no ter aceitado o convite de
jantar, mas na volta...

 Volta? interrompeu ela.

 Conto voltar.

 Quando?

 Daqui a dois meses ou dois anos.

 Cortemos ao meio; seja daqui a
quatro meses.

 Depende.

 Mas, ento, sem jantar comigo
uma vez? Hoje, por exemplo...

 Hoje estou comprometido.

 E amanh?

 Amanh vou a Juiz de Fora.

Carlota fez um gesto de
resignao; depois perguntou-lhe se na volta do Norte.

 Na volta.

 Daqui a quatro meses?

 No posso afirmar nada.

Romualdo saiu; Carlota ficou
pensativa algum tempo.

Singular homem! pensou ela.
Achei-lhe a mo fria e, entretanto...

Depressa passou a Carlota a
impresso que lhe deixara o Romualdo. Este seguiu, e ela retirou-se  fazenda
da tia, enquanto o Dr. Andrade continuou o inventrio. Quatro meses depois,
voltou Carlota a esta corte, mais curada das saudades, e em todo caso cheia de
resignao. A amiga encarregou-se de acabar a cura, e no lhe foi difcil.

Carlota no esquecera o marido;
ele estava presente ao corao, mas o corao tambm cansa de chorar. Andrade
que a freqentava, no pensara em substituir o finado marido; ao contrrio,
parece que principalmente gostava da outra. Pode ser tambm que fosse mais
corteso com ela, por ela ser menos recente viva. O que toda a gente cria 
que dali, qualquer que fosse a escolhida, tinha de nascer um casamento com ele.
No tardou que as pretenses de Andrade se inclinassem puramente  outra.

Tanto melhor pensou Carlota,
logo que o percebeu.

A idia de Carlota  que, sendo
assim, no ficava ela obrigada a despos-lo; mas esta idia no a formulou
inteiramente; era confessar que estaria inclinada a casar.

Passaram-se ainda algumas semanas,
oito ou dez, at que um dia anunciaram os jornais a chegada de Romualdo. Ela
mandou-lhe um carto de cumprimento, e ele deu-se pressa em pagar-lhe a visita.
Acharam-se mudados; ela pareceu-lhe menos plida, um pouco mais tranqila, para
no dizer alegre; ele menos spero no aspecto, e at mais gracioso. Carlota
convidou-o a jantar com ela da a dias. A amiga estava presente.

Romualdo foi circunspecto com
ambas, e, posto que trivial, conseguia pr nas palavras uma nota de interesse.
O que, porm, realava a pessoa dele era,  em relao a uma, a transmisso do
recado do marido, e a respeito da outra a paixo que sentira pela primeira, e a
possibilidade de vir a despos-la. A verdade  que ele passou uma noite
excelente, e saiu de l encantado. A segunda convidou-o tambm para jantar da
a dias, e os trs reuniram-se outra vez.

 Ele ainda gosta de ti?
perguntava uma.

 No, acabou.

 No acabou.

 Por que no? H tanto tempo.

 Que importa o tempo?

E teimava que o tempo era coisa
importante, mas tambm no valia nada, principalmente em certos casos. Romualdo
parecia pertencer  famlia dos apaixonados srios. Enquanto dizia isso, olhava
para ela a ver se lhe descobria alguma coisa; mas era difcil ou impossvel.
Carlota levantava os ombros.

Andrade sups tambm alguma coisa,
por insinuao da outra viva, e tratou de ver se descobria a verdade; no
descobriu coisa nenhuma. O amor de Andrade ia crescendo. No tardou que o cime
viesse fazer-lhe cortejo. Pareceu-lhe que a amada via o Romualdo com olhos
singulares; e a verdade  que estava muita vez com ele.

Para quem se lembra das primeiras
impresses das duas vivas, h de ser difcil ver na observao do nosso
Andrade; mas eu sou historiador fiel, e a verdade antes de tudo. A verdade 
que ambas as vivas comeavam a cerc-lo de especiais atenes.

Romualdo no o percebeu logo,
porque era modesto, apesar de audaz, s vezes; e da parte de Carlota no chegou
mesmo a perceber nada; a outra, porm, houve-se de maneira que no tardou em descobrir-se. Era certo que o cortejava.

Daqui nasceram os primeiros
elementos de um drama. Romualdo no acudiu ao chamado da bela dama, e esse
procedimento no fez mais do que irrit-la e dar-lhe o gosto de teimar e
vencer. Andrade, ao ver-se posto de lado, ou quase, determinou lutar tambm e
destruir o rival nascente, que podia ser em breve triunfante. J isso bastava;
mas eis que Carlota, curiosa da alma do Romualdo, sentiu que este objeto de
estudo podia escapar-se-lhe, desde que a outra o quisesse para si. J ento
eram passados treze meses da morte do marido, o luto estava aliviado, e a
beleza dela, com ou sem luto, fechado ou aliviado, estava no cume.

A luta que ento comeou teve
diferentes fases, e durou cerca de cinco meses mais. Carlota, no meio dela,
sentiu que alguma coisa batia no corao de Romualdo. As duas vivas em breve
descobriram as baterias; Romualdo solicitado por ambas, no se demorou na
escolha; mas o desejo do morto? No fim de cinco meses as duas vivas estavam
brigadas, para sempre; e no fim de mais trs (custa-me diz-lo, mas  verdade),
no fim de mais trs meses, Romualdo e Carlota iam meditar juntos e unidos sobre
a desvantagem de morrer primeiro.
