Conto, Vrias histrias, 1896

Vrias Histrias

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente por
Laemmert & C. Editores, Rio de Janeiro em 1896.

NDICE

ADVERTNCIA

A CARTOMANTE

ENTRE SANTOS

UNS BRAOS

UM HOMEM CLEBRE

A DESEJADA DAS GENTES

A CAUSA SECRETA

TRIO EM L MENOR

ADO E EVA

O ENFERMEIRO

O DIPLOMTICO

MARIANA

CONTO DE ESCOLA

UM APLOGO

D. PAULA

VIVER!

O CNEGO OU METAFSICA DO ESTILO

ADVERTNCIA

Mon ami, faisons toujours
des contes...

Le temps se passe, et le
conte de la vie

s'achve, sans qu'on s'en
aperoive.

Diderot.

As vrias histrias que formam
este volume foram escolhidas entre outras, e podiam ser acrescentadas, se no
conviesse limitar o livro s suas trezentas pginas.  a quinta coleo que dou
ao pblico. As palavras de Diderot que vo por epgrafe no rosto desta coleo
servem de desculpa aos que acharem excessivos tantos contos.  um modo de
passar o tempo. No pretendem sobreviver como os do filsofo. No so feitos
daquela matria, nem daquele estilo que do aos de Mrime o carter de
obras-primas, e colocam os de Poe entre os primeiros escritos da Amrica. O
tamanho no  o que faz mal a este gnero de histrias,  naturalmente a
qualidade; mas h sempre uma qualidade nos contos, que os torna superiores aos
grandes romances, se uns e outros so medocres:  serem curtos.

M. DE A.

A
CARTOMANTE

Hamlet observa a Horcio que h mais coisas no cu e na
terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicao que dava a bela
Rita ao moo Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria
dela, por ter ido na vspera consultar uma cartomante; a diferena  que o
fazia por outras palavras.

 Ria, ria. Os homens so assim; no acreditam em nada.
Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que
eu lhe dissesse o que era. Apenas comeou a botar as cartas, disse-me: 'A
senhora gosta de uma pessoa...' Confessei que sim, e ento ela continuou a
botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que
voc me esquecesse, mas que no era verdade...

 Errou! interrompeu Camilo, rindo.

 No diga isso, Camilo. Se voc soubesse como eu tenho
andado, por sua causa. Voc sabe; j lhe disse. No ria de mim, no ria...

Camilo pegou-lhe nas mos, e olhou para ela srio e fixo.
Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criana; em todo o
caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois,
repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia
sab-lo, e depois...

 Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.

 Onde  a casa?

 Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; no passava ningum
nessa ocasio. Descansa; eu no sou maluca.

Camilo riu outra vez:

 Tu crs deveras nessas coisas? perguntou-lhe.

Foi ento que ela, sem saber que traduzia Hamlet em
vulgar, disse-lhe que havia muita coisa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se
ele no acreditava, pacincia; mas o certo  que a cartomante adivinhara tudo.
Que mais? A prova  que ela agora estava tranqila e satisfeita.

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. No queria
arrancar-lhe as iluses. Tambm ele, em criana, e ainda depois, foi
supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a me lhe incutiu e
que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetao
parasita, e ficou s o tronco da religio, ele, como tivesse recebido da me
ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dvida, e logo depois em uma s negao
total. Camilo no acreditava em nada. Por qu? No poderia diz-lo, no possua
um s argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar  ainda
afirmar, e ele no formulava a incredulidade; diante do mistrio, contentou-se
em levantar os ombros, e foi andando.

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita
estava certa de ser amada; Camilo, no s o estava, mas via-a estremecer e
arriscar-se por ele, correr s cartomantes, e, por mais que a repreendesse, no
podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos
Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das
Mangueiras, na direo de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda
Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.

Vilela, Camilo e Rita, trs nomes, uma aventura e nenhuma
explicao das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infncia.
Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra
a vontade do pai, que queria v-lo mdico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu
no ser nada, at que a me lhe arranjou um emprego pblico. No princpio de
1869, voltou Vilela da provncia, onde casara com uma dama formosa e tonta;
abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe
casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo receb-lo.

  o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mo. No
imagina como meu marido  seu amigo, falava sempre do senhor.

Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos
deveras.

Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do
Vilela no desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos
gestos, olhos clidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que
ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis.
Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher,
enquanto Camilo era um ingnuo na vida moral e prtica. Faltava-lhe tanto a
ao do tempo, como os culos de cristal, que a natureza pe no bero de alguns
para adiantar os anos. Nem experincia, nem intuio.

Uniram-se os trs. Convivncia trouxe intimidade. Pouco
depois morreu a me de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois
mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrgios e do
inventrio; Rita tratou especialmente do corao, e ningum o faria melhor.

Como da chegaram ao amor, no o soube ele nunca. A
verdade  que gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira
moral, quase uma irm, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di
femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorpor-lo em
si prprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo
ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam s noites;  ela mal,  ele, para lhe
ser agradvel, pouco menos mal. At a as coisas. Agora a ao da pessoa, os
olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam
antes de o fazer ao marido, as mos frias, as atitudes inslitas. Um dia,
fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita
apenas um carto com um vulgar cumprimento a lpis, e foi ento que ele pde
ler no prprio corao, no conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras
vulgares; mas h vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha
calea de praa, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada,
fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim  o homem, assim so as coisas
que o cercam.

Camilo quis sinceramente fugir, mas j no pde. Rita,
como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os
ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e
subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a
batalha foi curta e a vitria delirante. Adeus, escrpulos! No tardou que o
sapato se acomodasse ao p, e a foram ambos, estrada fora, braos dados, pisando
folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas
saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiana e estima de Vilela
continuavam a ser as mesmas.

Um dia, porm, recebeu Camilo uma carta annima, que lhe
chamava imoral e prfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo
teve medo, e, para desviar as suspeitas, comeou a rarear as visitas  casa de
Vilela. Este notou-lhe as ausncias. Camilo respondeu que o motivo era uma
paixo frvola de rapaz. Candura gerou astcia. As ausncias prolongaram-se, e
as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse tambm nisso um pouco
de amor-prprio, uma inteno de diminuir os obsquios do marido, para tornar
menos dura a aleivosia do ato.

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu
 cartomante para consult-la sobre a verdadeira causa do procedimento de
Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiana, e que o rapaz
repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo
recebeu mais duas ou trs cartas annimas, to apaixonadas, que no podiam ser
advertncia da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinio de
Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento:  a
virtude  preguiosa e avara, no gasta tempo nem papel; s o interesse  ativo
e prdigo.

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o
annimo fosse ter com Vilela, e a catstrofe viria ento sem remdio. Rita
concordou que era possvel.

 Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a
letra com as das cartas que l aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e
rasgo-a...

Nenhuma apareceu; mas da a algum tempo Vilela comeou a
mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em
diz-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinio dela  que Camilo devia
tornar  casa deles, tatear o marido, e pode ser at que lhe ouvisse a
confidncia de algum negcio particular. Camilo divergia; aparecer depois de
tantos meses era confirmar a suspeita ou denncia. Mais valia acautelarem-se,
sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem,
em caso de necessidade, e separaram-se com lgrimas.

No dia seguinte, estando na repartio, recebeu Camilo
este bilhete de Vilela: 'Vem j, j,  nossa casa; preciso falar-te sem
demora.' Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que
teria sido mais natural cham-lo ao escritrio; por que em casa? Tudo indicava
matria especial, e a letra, fosse realidade ou iluso, afigurou-se-lhe
trmula. Ele combinou todas essas coisas com a notcia da vspera.

 Vem j, j,  nossa casa; preciso falar-te sem demora, 
repetia ele com os olhos no papel.

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita
subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o
bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para mat-lo. Camilo
estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a
idia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia
achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. No achou nada, nem
ningum. Voltou  rua, e a idia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez
mais verossmil; era natural uma denncia annima, at da prpria pessoa que o
ameaara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspenso
das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto ftil, viria
confirmar o resto.

Camilo ia andando inquieto e nervoso. No relia o bilhete,
mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou ento,  o que
era ainda pior,  eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a prpria voz de Vilela.
'Vem j, j,  nossa casa; preciso falar-te sem demora.' Ditas assim,
pela voz do outro, tinham um tom de mistrio e ameaa. Vem, j, j, para qu?
Era perto de uma hora da tarde. A comoo crescia de minuto a minuto. Tanto
imaginou o que se iria passar, que chegou a cr-lo e v-lo. Positivamente, tinha
medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada
perdia, e a precauo era til. Logo depois rejeitava a idia, vexado de si
mesmo, e seguia, picando o passo, na direo do Largo da Carioca, para entrar
num tlburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.

'Quanto antes, melhor, pensou ele; no posso estar
assim...'

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoo. O
tempo voava, e ele no tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da
Guarda Velha, o tlburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma
carroa, que cara. Camilo, em si mesmo, estimou o obstculo, e esperou. No fim
de cinco minutos, reparou que ao lado,  esquerda, ao p do tlburi, ficava a
casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto
crer na lio das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as
outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a
morada do indiferente Destino.

Camilo reclinou-se no tlburi, para no ver nada. A
agitao dele era grande, extraordinria, e do fundo das camadas morais
emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenas, as supersties
antigas. O cocheiro props-lhe voltar  primeira travessa, e ir por outro
caminho: ele respondeu que no, que esperasse. E inclinava-se para fitar a
casa... Depois fez um gesto incrdulo: era a idia de ouvir a cartomante, que
lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu,
reapareceu, e tornou a esvair-se no crebro; mas da a pouco moveu outra vez as
asas, mais perto, fazendo uns giros concntricos... Na rua, gritavam os homens,
safando a carroa:

 Anda! agora! empurra! v! v!

Da a pouco estaria removido o obstculo. Camilo fechava
os olhos, pensava em outras coisas; mas a voz do marido sussurrava-lhe a
orelhas as palavras da carta: 'Vem, j, j...' E ele via as
contores do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer
e entrar... Camilo achou-se diante de um longo vu opaco... pensou rapidamente
no inexplicvel de tantas coisas. A voz da me repetia-lhe uma poro de casos
extraordinrios: e a mesma frase do prncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro:
'H mais coisas no cu e na terra do que sonha a filosofia...' Que
perdia ele, se...?

Deu por si na calada, ao p da porta: disse ao cocheiro
que esperasse, e rpido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era
pouca, os degraus comidos dos ps, o corrimo pegajoso; mas ele no viu nem
sentiu nada. Trepou e bateu. No aparecendo ningum, teve idia de descer; mas
era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele
tornou a bater uma, duas, trs pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante.
Camilo disse que ia consult-la, ela f-lo entrar. Dali subiram ao sto, por
uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha,
mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos
trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que
destrua o prestgio.

A cartomante f-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do
lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora
batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de
cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava
para ele, no de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta
anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou trs
cartas sobre a mesa, e disse-lhe:

 Vejamos primeiro o que  que o traz aqui. O senhor tem
um grande susto...

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.

 E quer saber, continuou ela, se lhe acontecer alguma
coisa ou no...

 A mim e a ela, explicou vivamente ele.

A cartomante no sorriu: disse-lhe s que esperasse.
Rpido pegou outra vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de
unhas descuradas; baralhou-as bem, transps os maos, uma, duas, trs vezes;
depois comeou a estend-las. Camilo tinha os olhos nela curioso e ansioso.

 As cartas dizem-me...

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Ento
ela declarou-lhe que no tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a
outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. No obstante, era indispensvel muita
cautela: ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da
beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as
cartas e fechou-as na gaveta.

 A senhora restituiu-me a paz ao esprito, disse ele
estendendo a mo por cima da mesa e apertando a da cartomante.

Esta levantou-se, rindo.

 V, disse ela; v, ragazzo innamorato...

E de p, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo
estremeceu, como se fosse a mo da prpria sibila, e levantou-se tambm. A
cartomante foi  cmoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um
cacho destas, comeou a despenc-las e com-las, mostrando duas fileiras de
dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ao comum, a mulher tinha um ar
particular. Camilo, ansioso por sair, no sabia como pagasse; ignorava o preo.

 Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a
carteira. Quantas quer mandar buscar?

 Pergunte ao seu corao, respondeu ela.

Camilo tirou uma nota de dez mil-ris, e deu-lha. Os olhos
da cartomante fuzilaram. O preo usual era dois mil-ris.

 Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela
gosta muito do senhor. V, v, tranqilo. Olhe a escada,  escura; ponha o
chapu...

A cartomante tinha j guardado a nota na algibeira, e
descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo,
e desceu a escada que levava  rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga,
tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tlburi esperando; a
rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras coisas traziam
outro aspecto, o cu estava lmpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus
receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu
que eram ntimos e familiares. Onde  que ele lhe descobrira a ameaa? Advertiu
tambm que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum
negcio grave e gravssimo.

 Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou
qualquer coisa; parece que formou tambm o plano de aproveitar o incidente para
tornar  antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as
palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o
estado dele, a existncia de um terceiro; por que no adivinharia o resto? O
presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contnuas, que as
velhas crenas do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistrio empolgava-o com
as unhas de ferro. s vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a
mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortao:  V, v,
ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e
graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma f
nova e vivaz.

A verdade  que o corao ia alegre e impaciente, pensando
nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glria,
Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, at onde a gua e o cu
do um abrao infinito, e teve assim uma sensao do futuro, longo, longo,
interminvel.

Da a pouco chegou  casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a
porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis
degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe
Vilela.

 Desculpa, no pude vir mais cedo; que h?

Vilela no lhe respondeu; tinha as feies decompostas;
fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo no pde
sufocar um grito de terror:  ao fundo sobre o canap, estava Rita morta e
ensangentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revlver,
estirou-o morto no cho.

ENTRE
SANTOS

Quando eu era capelo de S. Francisco de Paula (contava um
padre velho) aconteceu-me uma aventura extraordinria.

Morava ao p da igreja, e recolhi-me tarde, uma noite.
Nunca me recolhi tarde que no fosse ver primeiro se as portas do templo
estavam bem fechadas. Achei-as bem fechadas, mas lobriguei luz por baixo delas.
Corri assustado  procura da ronda; no a achei, tornei atrs e fiquei no adro,
sem saber que fizesse. A luz, sem ser muito intensa, era-o demais para ladres;
alm disso notei que era fixa e igual, no andava de um lado para outro, como
seria a das velas ou lanternas de pessoas que estivessem roubando. O mistrio
arrastou-me; fui a casa buscar as chaves da sacristia (o sacristo tinha ido
passar a noite em Niteri), benzi-me primeiro, abri a porta e entrei.

O corredor estava escuro. Levava comigo uma lanterna e
caminhava devagarinho, calando o mais que podia o rumor dos sapatos. A primeira
e a segunda porta que comunicam com a igreja estavam fechadas; mas via-se a
mesma luz e, porventura, mais intensa que do lado da rua. Fui andando, at que
dei com a terceira porta aberta. Pus a um canto a lanterna, com o meu leno por
cima, para que me no vissem de dentro, e aproximei-me a espiar o que era.

Detive-me logo. Com efeito, s ento adverti que viera
inteiramente desarmado e que ia correr grande risco aparecendo na igreja sem
mais defesa que as duas mos. Correram ainda alguns minutos. Na igreja a luz
era a mesma, igual e geral, e de uma cor de leite que no tinha a luz das
velas. Ouvi tambm vozes, que ainda mais me atrapalharam, no cochichadas nem
confusas, mas regulares, claras e tranqilas,  maneira de conversao. No
pude entender logo o que diziam. No meio disto, assaltou-me uma idia que me
fez recuar. Como naquele tempo os cadveres eram sepultados nas igrejas,
imaginei que a conversao podia ser de defuntos. Recuei espavorido, e s
passado algum tempo,  que pude reagir e chegar outra vez  porta, dizendo a
mim mesmo que semelhante idia era um disparate. A realidade ia dar-me coisa
mais assombrosa que um dilogo de mortos. Encomendei-me a Deus, benzi-me outra
vez e fui andando, sorrateiramente, encostadinho  parede, at entrar. Vi ento
uma coisa extraordinria.

Dois dos trs santos do outro lado, S. Jos e S. Miguel (
direita de quem entra na igreja pela porta da frente), tinham descido dos
nichos e estavam sentados nos seus altares. As dimenses no eram as das
prprias imagens, mas de homens. Falavam para o lado de c, onde esto os
altares de S. Joo Batista e S. Francisco de Sales. No posso descrever o que
senti. Durante algum tempo, que no chego a calcular, fiquei sem ir para diante
nem para trs, arrepiado e trmulo. Com certeza, andei beirando o abismo da
loucura, e no ca nele por misericrdia divina. Que perdi a conscincia de mim
mesmo e de toda outra realidade que no fosse aquela, to nova e to nica,
posso afirm-lo; s assim se explica a temeridade com que, dali a algum tempo,
entrei mais pela igreja, a fim de olhar tambm para o lado oposto. Vi a a
mesma coisa: S. Francisco de Sales e S. Joo, descidos dos nichos, sentados nos
altares e falando com os outros santos.

Tinha sido tal a minha estupefao que eles continuaram a
falar, creio eu, sem que eu sequer ouvisse o rumor das vozes. Pouco a pouco,
adquiri a percepo delas e pude compreender que no tinham interrompido a
conversao; distingui-as, ouvi claramente as palavras, mas no pude colher
desde logo o sentido. Um dos santos, falando para o lado do altar-mor, fez-me
voltar a cabea, e vi ento que S. Francisco de Paula, o orago da igreja,
fizera a mesma coisa que os outros e falava para eles, como eles falavam entre
si. As vozes no subiam do tom mdio e, contudo, ouviam-se bem, como se as
ondas sonoras tivessem recebido um poder maior de transmisso. Mas, se tudo
isso era espantoso, no menos o era a luz, que no vinha de parte nenhuma,
porque os lustres e castiais estavam todos apagados; era como um luar, que ali
penetrasse, sem que os olhos pudessem ver a lua; comparao tanto mais exata
quanto que, se fosse realmente luar, teria deixado alguns lugares escuros, como
ali acontecia, e foi num desses recantos que me refugiei.

J ento procedia automaticamente. A vida que vivi durante
esse tempo todo, no se pareceu com a outra vida anterior e posterior. Basta
considerar que, diante de to estranho espetculo, fiquei absolutamente sem
medo; perdi a reflexo, apenas sabia ouvir e contemplar.

Compreendi, no fim de alguns instantes, que eles
inventariavam e comentavam as oraes e imploraes daquele dia. Cada um notava
alguma coisa. Todos eles, terrveis psiclogos, tinham penetrado a alma e a
vida dos fiis, e desfibravam os sentimentos de cada um, como os anatomistas
escalpelam um cadver. S. Joo Batista e S. Francisco de Paula, duros ascetas,
mostravam-se s vezes enfadados e absolutos. No era assim S. Francisco de
Sales; esse ouvia ou contava as coisas com a mesma indulgncia que presidira ao
seu famoso livro da Introduo  Vida Devota.

Era assim, segundo o temperamento de cada um, que eles iam
narrando e comentando. Tinham j contado casos de f sincera e castia, outros
de indiferena, dissimulao e versatilidade; os dois ascetas estavam a mais e
mais anojados, mas S. Francisco de Sales recordava-lhes o texto da Escritura:
muitos so os chamados e poucos os escolhidos, significando assim que nem todos
os que ali iam  igreja levavam o corao puro. S. Joo abanava a cabea.

 Francisco de Sales, digo-te que vou criando um
sentimento singular em santo: comeo a descrer dos homens.

 Exageras tudo, Joo Batista, atalhou o santo bispo, no
exageremos nada. Olha  ainda hoje aconteceu aqui uma coisa que me fez sorrir,
e pode ser, entretanto, que te indignasse. Os homens no so piores do que eram
em outros sculos; descontemos o que h neles ruim, e ficar muita coisa boa.
Cr isto e hs de sorrir ouvindo o meu caso.

 Eu?

 Tu, Joo Batista, e tu tambm, Francisco de Paula, e
todos vs haveis de sorrir comigo: e, pela minha parte, posso faz-lo, pois j
intercedi e alcancei do Senhor aquilo mesmo que me veio pedir esta pessoa.

 Que pessoa?

 Uma pessoa mais interessante que o teu escrivo, Jos, e
que o teu lojista, Miguel...

 Pode ser, atalhou S. Jos, mas no h de ser mais
interessante que a adltera que aqui veio hoje prostrar-se a meus ps. Vinha
pedir-me que lhe limpasse o corao da lepra da luxria. Brigara ontem mesmo
com o namorado, que a injuriou torpemente, e passou a noite em lgrimas. De
manh, determinou abandon-lo e veio buscar aqui a fora precisa para sair das
garras do demnio. Comeou rezando bem, cordialmente; mas pouco a pouco vi que
o pensamento a ia deixando para remontar aos primeiros deleites. As palavras
paralelamente, iam ficando sem vida. J a orao era morna, depois fria, depois
inconsciente; os lbios, afeitos  reza, iam rezando; mas a alma, que eu
espiava c de cima, essa j no estava aqui, estava com o outro. Afinal
persignou-se, levantou-se e saiu sem pedir nada.

 Melhor  o meu caso.

 Melhor que isto? perguntou S. Jos curioso.

 Muito melhor, respondeu S. Francisco de Sales, e no 
triste como o dessa pobre alma ferida do mal da terra, que a graa do Senhor
ainda pode salvar. E por que no salvar tambm a esta outra? L vai o que .

Calaram-se todos, inclinaram-se os bustos, atentos,
esperando. Aqui fiquei com medo; lembrou-me que eles, que vem tudo o que se
passa no interior da gente, como se fssemos de vidro, pensamentos recnditos,
intenes torcidas, dios secretos, bem podiam ter-me lido j algum pecado ou
grmen de pecado. Mas no tive tempo de refletir muito; S. Francisco de Sales
comeou a falar.

 Tem cinqenta anos o meu homem, disse ele, a mulher est
de cama, doente de uma erisipela na perna esquerda. H cinco dias vive aflito porque
o mal agrava-se e a cincia no responde pela cura. Vede, porm, at onde pode
ir um preconceito pblico. Ningum acredita na dor do Sales (ele tem o meu
nome), ningum acredita que ele ame outra coisa que no seja dinheiro, e logo
que houve notcia da sua aflio desabou em todo o bairro um aguaceiro de motes
e dichotes; nem faltou quem acreditasse que ele gemia antecipadamente pelos
gastos da sepultura.

 Bem podia ser que sim, ponderou S. Joo.

 Mas no era. Que ele  usurrio e avaro no o nego;
usurrio, como a vida, e avaro, como a morte. Ningum extraiu nunca to
implacavelmente da algibeira dos outros o ouro, a prata, o papel e o cobre;
ningum os amuou com mais zelo e prontido. Moeda que lhe cai na mo
dificilmente torna a sair; e tudo o que lhe sobra das casas mora dentro de um
armrio de ferro, fechado a sete chaves. Abre-o s vezes, por horas mortas,
contempla o dinheiro alguns minutos, e fecha-o outra vez depressa; mas nessas
noites no dorme, ou dorme mal. No tem filhos. A vida que leva  srdida; come
para no morrer, pouco e ruim. A famlia compe-se da mulher e de uma preta
escrava, comprada com outra, h muitos anos, e s escondidas, por serem de
contrabando. Dizem at que nem as pagou, porque o vendedor faleceu logo sem
deixar nada escrito. A outra preta morreu h pouco tempo; e aqui vereis se este
homem tem ou no o gnio da economia; Sales libertou o cadver...

E o santo bispo calou-se para saborear o espanto dos
outros.

 O cadver?

 Sim, o cadver. Fez enterrar a escrava como pessoa livre
e miservel, para no acudir s despesas da sepultura. Pouco embora, era alguma
coisa. E para ele no h pouco; com pingos d'gua  que se alagam as ruas.
Nenhum desejo de representao, nenhum gosto nobilirio; tudo isso custa dinheiro,
e ele diz que o dinheiro no lhe cai do cu. Pouca sociedade, nenhuma recreao
de famlia. Ouve e conta anedotas da vida alheia, que  regalo gratuito.

 Compreende-se a incredulidade pblica, ponderou S.
Miguel.

 No digo que no, porque o mundo no vai alm da
superfcie das coisas. O mundo no v que, alm de caseira eminente educada por
ele, e sua confidente de mais de vinte anos, a mulher deste Sales  amada
deveras pelo marido. No te espantes, Miguel; naquele muro asprrimo brotou uma
flor descorada e sem cheiro mas flor. A botnica sentimental tem dessas
anomalias. Sales ama a esposa; est abatido e desvairado com a idia de a
perder. Hoje de manh, muito cedo, no tendo dormido mais de duas horas entrou
a cogitar no desastre prximo. Desesperando da terra, voltou-se para Deus;
pensou em ns, e especialmente em mim que sou o santo do seu nome. S um
milagre podia salv-la; determinou vir aqui. Mora perto, e veio correndo.
Quando entrou trazia o olhar brilhante e esperanado; podia ser a luz da f,
mas era outra coisa muito particular, que vou dizer. Aqui peo-vos que
redobreis de ateno.

Vi os bustos inclinarem-se ainda mais; eu prprio no pude
esquivar-me ao movimento e dei um passo para diante. A narrao do santo foi
to longa e mida, a anlise to complicada, que no as ponho aqui
integralmente, mas em substncia.

 Quando pensou em vir pedir-me que intercedesse pela vida
da esposa, Sales teve uma idia especfica de usurrio, a de prometer-me uma
perna de cera. No foi o crente, que simboliza desta maneira a lembrana do
benefcio; foi o usurrio que pensou em forar a graa divina pela expectao
do lucro. E no foi s a usura que falou, mas tambm a avareza; porque em
verdade, dispondo-se  promessa, mostrava ele querer deveras a vida da mulher 
intuio de avaro;  despender  documentar: s se quer de corao aquilo que
se paga a dinheiro, disse-lho a conscincia pela mesma boca escura. Sabeis que
pensamentos tais no se formulam como outros, nascem das entranhas do carter e
ficam na penumbra da conscincia. Mas eu li tudo nele logo que aqui entrou
alvoroado, com o olhar flgido de esperana; li tudo e esperei que acabasse de
benzer-se e rezar.

 Ao menos, tem alguma religio, ponderou S. Jos.

 Alguma tem, mas vaga e econmica. No entrou nunca em
irmandades e ordens terceiras, porque nelas se rouba o que pertence ao Senhor;
 o que ele diz para conciliar a devoo com a algibeira. Mas no se pode ter
tudo;  certo que ele teme a Deus e cr na doutrina.

 Bem, ajoelhou-se e rezou.

 Rezou. Enquanto rezava, via eu a pobre alma, que padecia
deveras, conquanto a esperana comeasse a trocar-se em certeza intuitiva. Deus
tinha de salvar a doente, por fora, graas  minha interveno, e eu ia interceder;
 o que ele pensava, enquanto os lbios repetiam as palavras da orao.
Acabando a orao, ficou Sales algum tempo olhando, com as mos postas; afinal
falou a boca do homem, falou para confessar a dor, para jurar que nenhuma outra
mo, alm da do Senhor, podia atalhar o golpe. A mulher ia morrer... ia
morrer... ia morrer... E repetia a palavra, sem sair dela. A mulher ia morrer.
No passava adiante. Prestes a formular o pedido e a promessa no achava
palavras idneas, nem aproximativas, nem sequer dbias, no achava nada, to
longo era o descostume de dar alguma coisa. Afinal saiu o pedido; a mulher ia
morrer, ele rogava-me que a salvasse, que pedisse por ela ao Senhor. A
promessa, porm,  que no acabava de sair. No momento em que a boca ia articular
a primeira palavra, a garra da avareza mordia-lhe as entranhas e no deixava
sair nada. Que a salvasse... que intercedesse por ela...

No ar, diante dos olhos, recortava-se-lhe a perna de cera,
e logo a moeda que ela havia de custar. A perna desapareceu, mas ficou a moeda,
redonda, luzidia, amarela, ouro puro, completamente ouro, melhor que o dos
castiais do meu altar, apenas dourados. Para onde quer que virasse os olhos,
via a moeda, girando, girando, girando. E os olhos a apalpavam, de longe, e
transmitiam-lhe a sensao fria do metal e at a do relevo do cunho. Era ela
mesma, velha amiga de longos anos, companheira do dia e da noite, era ela que
ali estava no ar, girando, s tontas; era ela que descia do teto, ou subia do
cho, ou rolava no altar, indo da Epstola ao Evangelho, ou tilintava nos
pingentes do lustre.

Agora a splica dos olhos e a melancolia deles eram mais
intensas e puramente voluntrias. Vi-os alongarem-se para mim, cheios de
contrio, de humilhao, de desamparo; e a boca ia dizendo algumas coisas
soltas,  Deus,  os anjos do Senhor,  as bentas chagas,  palavras lacrimosas
e trmulas, como para pintar por elas a sinceridade da f e a imensidade da
dor. S a promessa da perna  que no saa. s vezes, a alma, como pessoa que
recolhe as foras, a fim de saltar um valo, fitava longamente a morte da mulher
e rebolcava-se no desespero que ela lhe havia de trazer; mas,  beira do valo,
quando ia a dar o salto, recuava. A moeda emergia dele e a promessa ficava no
corao do homem.

O tempo ia passando. A alucinao crescia, porque a moeda,
acelerando e multiplicando os saltos, multiplicava-se a si mesma e parecia uma
infinidade delas; e o conflito era cada vez mais trgico. De repente, o receio
de que a mulher podia estar expirando, gelou o sangue ao pobre homem e ele quis
precipitar-se. Podia estar expirando... Pedia-me que intercedesse por ela, que
a salvasse...

Aqui o demnio da avareza sugeria-lhe uma transao nova,
uma troca de espcie, dizendo-lhe que o valor da orao era superfino e muito
mais excelso que o das obras terrenas. E o Sales, curvo, contrito, com as mos
postas, o olhar submisso, desamparado, resignado, pedia-me que lhe salvasse a
mulher. Que lhe salvasse a mulher, e prometia-me trezentos,  no menos, 
trezentos padre-nossos e trezentas ave-marias. E repetia enftico: trezentos,
trezentas, trezentos... Foi subindo, chegou a quinhentos, a mil padre-nossos e
mil ave-marias. No via esta soma escrita por letras do alfabeto, mas em
algarismos, como se ficasse assim mais viva, mais exata, e a obrigao maior, e
maior tambm a seduo. Mil padre-nossos, mil ave-marias. E voltaram as
palavras lacrimosas e trmulas, as bentas chagas, os anjos do Senhor... 1.000 
1.000  1.000. Os quatro algarismos foram crescendo tanto, que encheram a
igreja de alto a baixo, e com eles, crescia o esforo do homem, e a confiana
tambm; a palavra saa-lhe mais rpida, impetuosa, j falada, mil, mil, mil,
mil ... Vamos l, podeis rir  vontade, concluiu S. Francisco de Sales.

E os outros santos riram efetivamente, no daquele grande
riso descomposto dos deuses de Homero, quando viram o coxo Vulcano servir 
mesa, mas de um riso modesto, tranqilo, beato e catlico.

Depois, no pude ouvir mais nada. Ca redondamente no
cho. Quando dei por mim era dia claro... Corri a abrir todas as portas e
janelas da igreja e da sacristia, para deixar entrar o sol, inimigo dos maus
sonhos.

UNS
BRAOS

Incio estremeceu, ouvindo os gritos do solicitador,
recebeu o prato que este lhe apresentava e tratou de comer, debaixo de uma
trovoada de nomes, malandro, cabea de vento, estpido, maluco.

 Onde anda que nunca ouve o que lhe digo? Hei de contar
tudo a seu pai, para que lhe sacuda a preguia do corpo com uma boa vara de
marmelo, ou um pau; sim, ainda pode apanhar, no pense que no. Estpido!
maluco!

 Olhe que l fora  isto mesmo que voc v aqui,
continuou, voltando-se para D. Severina, senhora que vivia com ele
maritalmente, h anos. Confunde-me os papis todos, erra as casas, vai a um
escrivo em vez de ir a outro, troca os advogados:  o diabo!  o tal sono
pesado e contnuo. De manh  o que se v; primeiro que acorde  preciso
quebrar-lhe os ossos... Deixe; amanh hei de acord-lo a pau de vassoura!

D. Severina tocou-lhe no p, como pedindo que acabasse.
Borges expetorou ainda alguns improprios, e ficou em paz com Deus e os homens.

No digo que ficou em paz com os meninos, porque o nosso Incio
no era propriamente menino. Tinha quinze anos feitos e bem feitos. Cabea
inculta, mas bela, olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga, que quer
saber e no acaba de saber nada. Tudo isso posto sobre um corpo no destitudo
de graa, ainda que mal vestido. O pai  barbeiro na Cidade Nova, e p-lo de
agente, escrevente, ou que quer que era, do solicitador Borges, com esperana
de v-lo no foro, porque lhe parecia que os procuradores de causas ganhavam
muito. Passava-se isto na Rua da Lapa, em 1870.

Durante alguns minutos no se ouviu mais que o tinir dos
talheres e o rudo da mastigao. Borges abarrotava-se de alface e vaca;
interrompia-se para virgular a orao com um golpe de vinho e continuava logo
calado.

Incio ia comendo devagarinho, no ousando levantar os
olhos do prato, nem para coloc-los onde eles estavam no momento em que o
terrvel Borges o descomps. Verdade  que seria agora muito arriscado. Nunca
ele ps os olhos nos braos de D. Severina que se no esquecesse de si e de tudo.

Tambm a culpa era antes de D. Severina em traz-los assim
nus, constantemente. Usava mangas curtas em todos os vestidos de casa, meio
palmo abaixo do ombro; dali em diante ficavam-lhe os braos  mostra. Na
verdade, eram belos e cheios, em harmonia com a dona, que era antes grossa que
fina, e no perdiam a cor nem a maciez por viverem ao ar; mas  justo explicar
que ela os no trazia assim por faceira, seno porque j gastara todos os
vestidos de mangas compridas. De p, era muito vistosa; andando, tinha meneios
engraados; ele, entretanto, quase que s a via  mesa, onde, alm dos braos,
mal poderia mirar-lhe o busto. No se pode dizer que era bonita; mas tambm no
era feia. Nenhum adorno; o prprio penteado consta de mui pouco; alisou os
cabelos, apanhou-os, atou-os e fixou-os no alto da cabea com o pente de
tartaruga que a me lhe deixou. Ao pescoo, um leno escuro; nas orelhas, nada.
Tudo isso com vinte e sete anos floridos e slidos.

Acabaram de jantar. Borges, vindo o caf, tirou quatro charutos
da algibeira, comparou-os, apertou-os entre os dedos, escolheu um e guardou os
restantes. Aceso o charuto, fincou os cotovelos na mesa e falou a D. Severina
de trinta mil coisas que no interessavam nada ao nosso Incio; mas enquanto
falava, no o descompunha e ele podia devanear  larga.

Incio demorou o caf o mais que pde. Entre um e outro
gole alisava a toalha, arrancava dos dedos pedacinhos de pele imaginrios ou
passava os olhos pelos quadros da sala de jantar, que eram dois, um S. Pedro e
um S. Joo, registros trazidos de festas encaixilhados em casa. V que
disfarasse com S. Joo, cuja cabea moa alegra as imaginaes catlicas, mas
com o austero S. Pedro era demais. A nica defesa do moo Incio  que ele no
via nem um nem outro; passava os olhos por ali como por nada. Via s os braos
de D. Severina,  ou porque sorrateiramente olhasse para eles, ou porque
andasse com eles impressos na memria.

 Homem, voc no acaba mais? bradou de repente o
solicitador.

No havia remdio; Incio bebeu a ltima gota, j fria, e
retirou-se, como de costume, para o seu quarto, nos fundos da casa. Entrando,
fez um gesto de zanga e desespero e foi depois encostar-se a uma das duas
janelas que davam para o mar. Cinco minutos depois, a vista das guas prximas
e das montanhas ao longe restitua-lhe o sentimento confuso, vago, inquieto,
que lhe doa e fazia bem, alguma coisa que deve sentir a planta, quando abotoa
a primeira flor. Tinha vontade de ir embora e de ficar. Havia cinco semanas que
ali morava, e a vida era sempre a mesma, sair de manh com o Borges, andar por
audincias e cartrios, correndo, levando papis ao selo, ao distribuidor, aos
escrives, aos oficiais de justia. Voltava  tarde, jantava e recolhia-se ao
quarto, at a hora da ceia; ceava e ia dormir. Borges no lhe dava intimidade
na famlia, que se compunha apenas de D. Severina, nem Incio a via mais de
trs vezes por dia, durante as refeies. Cinco semanas de solido, de trabalho
sem gosto, longe da me e das irms; cinco semanas de silncio, porque ele s
falava uma ou outra vez na rua; em casa, nada.

'Deixe estar,  pensou ele um dia  fujo daqui e no
volto mais.'

No foi; sentiu-se agarrado e acorrentado pelos braos de
D. Severina. Nunca vira outros to bonitos e to frescos. A educao que tivera
no lhe permitia encar-los logo abertamente, parece at que a princpio
afastava os olhos, vexado. Encarou-os pouco a pouco, ao ver que eles no tinham
outras mangas, e assim os foi descobrindo, mirando e amando. No fim de trs
semanas eram eles, moralmente falando, as suas tendas de repouso. Agentava
toda a trabalheira de fora, toda a melancolia da solido e do silncio, toda a
grosseria do patro, pela nica paga de ver, trs vezes por dia, o famoso par
de braos.

Naquele dia, enquanto a noite ia caindo e Incio
estirava-se na rede (no tinha ali outra cama), D. Severina, na sala da frente,
recapitulava o episdio do jantar e, pela primeira vez, desconfiou alguma
coisa. Rejeitou a idia logo, uma criana! Mas h idias que so da famlia das
moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam. Criana?
Tinha quinze anos; e ela advertiu que entre o nariz e a boca do rapaz havia um
princpio de rascunho de buo. Que admira que comeasse a amar? E no era ela
bonita? Esta outra idia no foi rejeitada, antes afagada e beijada. E recordou
ento os modos dele, os esquecimentos, as distraes, e mais um incidente, e
mais outro, tudo eram sintomas, e concluiu que sim.

 Que  que voc tem? disse-lhe o solicitador, estirado no
canap, ao cabo de alguns minutos de pausa.

 No tenho nada.

 Nada? Parece que c em casa anda tudo dormindo! Deixem
estar, que eu sei de um bom remdio para tirar o sono aos dorminhocos...

E foi por ali, no mesmo tom zangado, fuzilando ameaas,
mas realmente incapaz de as cumprir, pois era antes grosseiro que mau. D.
Severina interrompia-o que no, que era engano, no estava dormindo, estava
pensando na comadre Fortunata. No a visitavam desde o Natal; por que no iriam
l uma daquelas noites? Borges redargia que andava cansado, trabalhava como um
negro, no estava para visitas de parola, e descomps a comadre, descomps o compadre,
descomps o afilhado, que no ia ao colgio, com dez anos! Ele, Borges, com dez
anos, j sabia ler, escrever e contar, no muito bem,  certo, mas sabia. Dez
anos! Havia de ter um bonito fim:  vadio, e o cvado e meio nas costas. A
tarimba  que viria ensin-lo.

D. Severina apaziguava-o com desculpas, a pobreza da
comadre, o caiporismo do compadre, e fazia-lhe carinhos, a medo, que eles
podiam irrit-lo mais. A noite cara de todo; ela ouviu o tlic do
lampio do gs da rua, que acabavam de acender, e viu o claro dele nas janelas
da casa fronteira. Borges, cansado do dia, pois era realmente um trabalhador de
primeira ordem, foi fechando os olhos e pegando no sono, e deixou-a s na sala,
s escuras, consigo e com a descoberta que acaba de fazer.

Tudo parecia dizer  dama que era verdade; mas essa
verdade, desfeita a impresso do assombro, trouxe-lhe uma complicao moral,
que ela s conheceu pelos efeitos, no achando meio de discernir o que era. No
podia entender-se nem equilibrar-se, chegou a pensar em dizer tudo ao
solicitador, e ele que mandasse embora o fedelho. Mas que era tudo? Aqui
estacou: realmente, no havia mais que suposio, coincidncia e possivelmente
iluso. No, no, iluso no era. E logo recolhia os indcios vagos, as atitudes
do mocinho, o acanhamento, as distraes, para rejeitar a idia de estar
enganada. Da a pouco, (capciosa natureza!) refletindo que seria mau acus-lo
sem fundamento, admitiu que se iludisse, para o nico fim de observ-lo melhor
e averiguar bem a realidade das coisas.

J nessa noite, D. Severina mirava por baixo dos olhos os
gestos de Incio; no chegou a achar nada, porque o tempo do ch era curto e o
rapazinho no tirou os olhos da xcara. No dia seguinte pde observar melhor, e
nos outros otimamente. Percebeu que sim, que era amada e temida, amor
adolescente e virgem, retido pelos liames sociais e por um sentimento de
inferioridade que o impedia de reconhecer-se a si mesmo. D. Severina
compreendeu que no havia recear nenhum desacato, e concluiu que o melhor era
no dizer nada ao solicitador; poupava-lhe um desgosto, e outro  pobre
criana. J se persuadia bem que ele era criana, e assentou de o tratar to
secamente como at ali, ou ainda mais. E assim fez; Incio comeou a sentir que
ela fugia com os olhos, ou falava spero, quase tanto como o prprio Borges. De
outras vezes,  verdade que o tom da voz saa brando e at meigo, muito meigo;
assim como o olhar geralmente esquivo, tanto errava por outras partes, que,
para descansar, vinha pousar na cabea dele; mas tudo isso era curto.

 Vou-me embora, repetia ele na rua como nos primeiros
dias.

Chegava a casa e no se ia embora. Os braos de D.
Severina fechavam-lhe um parntesis no meio do longo e fastidioso perodo da
vida que levava, e essa orao intercalada trazia uma idia original e
profunda, inventada pelo cu unicamente para ele. Deixava-se estar e ia
andando. Afinal, porm, teve de sair, e para nunca mais; eis aqui como e
porqu.

D. Severina tratava-o desde alguns dias com benignidade. A
rudeza da voz parecia acabada, e havia mais do que brandura, havia desvelo e
carinho. Um dia recomendava-lhe que no apanhasse ar, outro que no bebesse
gua fria depois do caf quente, conselhos, lembranas, cuidados de amiga e
me, que lhe lanaram na alma ainda maior inquietao e confuso. Incio chegou
ao extremo de confiana de rir um dia  mesa, coisa que jamais fizera; e o
solicitador no o tratou mal dessa vez, porque era ele que contava um caso
engraado, e ningum pune a outro pelo aplauso que recebe. Foi ento que D.
Severina viu que a boca do mocinho, graciosa estando calada, no o era menos
quando ria.

A agitao de Incio ia crescendo, sem que ele pudesse
acalmar-se nem entender-se. No estava bem em parte nenhuma. Acordava de noite,
pensando em D. Severina. Na rua, trocava de esquinas, errava as portas, muito
mais que dantes, e no via mulher, ao longe ou ao perto, que lha no
trouxesse  memria. Ao entrar no corredor da casa, voltando do trabalho,
sentia sempre algum alvoroo, s vezes grande, quando dava com ela no topo da
escada, olhando atravs das grades de pau da cancela, como tendo acudido a ver
quem era.

Um domingo,  nunca ele esqueceu esse domingo,  estava s
no quarto,  janela, virado para o mar, que lhe falava a mesma linguagem
obscura e nova de D. Severina. Divertia-se em olhar para as gaivotas, que
faziam grandes giros no ar, ou pairavam em cima d'gua, ou avoaavam somente. O
dia estava lindssimo. No era s um domingo cristo; era um imenso domingo
universal.

Incio passava-os todos ali no quarto ou  janela, ou
relendo um dos trs folhetos que trouxera consigo, contos de outros tempos,
comprados a tosto, debaixo do passadio do Largo do Pao. Eram duas horas da
tarde. Estava cansado, dormira mal a noite, depois de haver andado muito na
vspera; estirou-se na rede, pegou em um dos folhetos, a Princesa Magalona,
e comeou a ler. Nunca pde entender por que  que todas as heronas dessas
velhas histrias tinham a mesma cara e talhe de D. Severina, mas a verdade 
que os tinham. Ao cabo de meia hora, deixou cair o folheto e ps os olhos na
parede, donde, cinco minutos depois, viu sair a dama dos seus cuidados. O
natural era que se espantasse; mas no se espantou. Embora com as plpebras
cerradas viu-a desprender-se de todo, parar, sorrir e andar para a rede. Era
ela mesma, eram os seus mesmos braos.

 certo, porm, que D. Severina tanto no podia sair da
parede, dado que houvesse ali porta ou rasgo, que estava justamente na sala da
frente ouvindo os passos do solicitador que descia as escadas. Ouviu-o descer;
foi  janela v-lo sair e s se recolheu quando ele se perdeu ao longe, no
caminho da Rua das Mangueiras. Ento entrou e foi sentar-se no canap. Parecia
fora do natural, inquieta, quase maluca; levantando-se, foi pegar na jarra que
estava em cima do aparador e deixou-a no mesmo lugar; depois caminhou at 
porta, deteve-se e voltou, ao que parece, sem plano. Sentou-se outra vez, cinco
ou dez minutos. De repente, lembrou-se que Incio comera pouco ao almoo e
tinha o ar abatido, e advertiu que podia estar doente; podia ser at que
estivesse muito mal.

Saiu da sala, atravessou rasgadamente o corredor e foi at
o quarto do mocinho, cuja porta achou escancarada. D. Severina parou, espiou,
deu com ele na rede, dormindo, com o brao para fora e o folheto cado no cho.
A cabea inclinava-se um pouco do lado da porta, deixando ver os olhos
fechados, os cabelos revoltos e um grande ar de riso e de beatitude.

D. Severina sentiu bater-lhe o corao com veemncia e
recuou. Sonhara de noite com ele; pode ser que ele estivesse sonhando com ela.
Desde madrugada que a figura do mocinho andava-lhe diante dos olhos como uma
tentao diablica. Recuou ainda, depois voltou, olhou dois, trs, cinco
minutos, ou mais. Parece que o sono dava  adolescncia de Incio uma expresso
mais acentuada, quase feminina, quase pueril. 'Uma criana!' disse
ela a si mesma, naquela lngua sem palavras que todos trazemos conosco. E esta
idia abateu-lhe o alvoroo do sangue e dissipou-lhe em parte a turvao dos
sentidos.

'Uma criana!'

E mirou-o lentamente, fartou-se de v-lo, com a cabea
inclinada, o brao cado; mas, ao mesmo tempo que o achava criana, achava-o
bonito, muito mais bonito que acordado, e uma dessas idias corrigia ou
corrompia a outra. De repente estremeceu e recuou assustada: ouvira um rudo ao
p, na saleta do engomado; foi ver, era um gato que deitara uma tigela ao cho.
Voltando devagarinho a espi-lo, viu que dormia profundamente. Tinha o sono
duro a criana! O rumor que a abalara tanto, no o fez sequer mudar de posio.
E ela continuou a v-lo dormir,  dormir e talvez sonhar.

Que no possamos ver os sonhos uns dos outros! D. Severina
ter-se-ia visto a si mesma na imaginao do rapaz; ter-se-ia visto diante da
rede, risonha e parada; depois inclinar-se, pegar-lhe nas mos, lev-las ao
peito, cruzando ali os braos, os famosos braos. Incio, namorado deles, ainda
assim ouvia as palavras dela, que eram lindas, clidas, principalmente novas, 
ou, pelo menos, pertenciam a algum idioma que ele no conhecia, posto que o
entendesse. Duas, trs e quatro vezes a figura esvaa-se, para tornar logo,
vindo do mar ou de outra parte, entre gaivotas, ou atravessando o corredor, com
toda a graa robusta de que era capaz. E tornando, inclinava-se, pegava-lhe
outra vez das mos e cruzava ao peito os braos, at que, inclinando-se, ainda
mais, muito mais, abrochou os lbios e deixou-lhe um beijo na boca.

Aqui o sonho coincidiu com a realidade, e as mesmas bocas
uniram-se na imaginao e fora dela. A diferena  que a viso no recuou, e a
pessoa real to depressa cumprira o gesto, como fugiu at  porta, vexada e
medrosa. Dali passou  sala da frente, aturdida do que fizera, sem olhar
fixamente para nada. Afiava o ouvido, ia at o fim do corredor, a ver se
escutava algum rumor que lhe dissesse que ele acordara, e s depois de muito
tempo  que o medo foi passando. Na verdade, a criana tinha o sono duro; nada
lhe abria os olhos, nem os fracassos contguos, nem os beijos de verdade. Mas,
se o medo foi passando, o vexame ficou e cresceu. D. Severina no acabava de
crer que fizesse aquilo; parece que embrulhara os seus desejos na idia de que
era uma criana namorada que ali estava sem conscincia nem imputao; e, meia
me, meia amiga, inclinara-se e beijara-o. Fosse como fosse, estava confusa,
irritada, aborrecida, mal consigo e mal com ele. O medo de que ele podia estar
fingindo que dormia apontou-lhe na alma e deu-lhe um calafrio.

Mas a verdade  que dormiu ainda muito, e s acordou para
jantar. Sentou-se  mesa lpido. Conquanto achasse D. Severina calada e severa
e o solicitador to rspido como nos outros dias, nem a rispidez de um, nem a
severidade da outra podiam dissipar-lhe a viso graciosa que ainda trazia
consigo, ou amortecer-lhe a sensao do beijo. No reparou que D. Severina
tinha um xale que lhe cobria os braos; reparou depois, na segunda-feira, e na
tera-feira, tambm, e at sbado, que foi o dia em que Borges mandou dizer ao
pai que no podia ficar com ele; e no o fez zangado, porque o tratou
relativamente bem e ainda lhe disse  sada:

 Quando precisar de mim para alguma coisa, procure-me.

 Sim, senhor. A Sra. D. Severina...

 Est l para o quarto, com muita dor de cabea. Venha
amanh ou depois despedir-se dela.

Incio saiu sem entender nada. No entendia a despedida,
nem a completa mudana de D. Severina, em relao a ele, nem o xale, nem nada.
Estava to bem! falava-lhe com tanta amizade! Como  que, de repente... Tanto
pensou que acabou supondo de sua parte algum olhar indiscreto, alguma distrao
que a ofendera; no era outra coisa; e daqui a cara fechada e o xale que cobria
os braos to bonitos... No importa; levava consigo o sabor do sonho. E
atravs dos anos, por meio de outros amores, mais efetivos e longos, nenhuma
sensao achou nunca igual  daquele domingo, na Rua da Lapa, quando ele tinha
quinze anos. Ele mesmo exclama s vezes, sem saber que se engana:

 E foi um sonho! um simples sonho!

UM HOMEM CLEBRE

 Ah! o senhor  que  o Pestana? perguntou Sinhazinha
Mota, fazendo um largo gesto admirativo. E logo depois, corrigindo a
familiaridade:  Desculpe meu modo, mas...  mesmo o senhor?

Vexado, aborrecido, Pestana respondeu que sim, que era
ele. Vinha do piano, enxugando a testa com o leno, e ia a chegar  janela,
quando a moa o fez parar. No era baile; apenas um sarau ntimo, pouca gente,
vinte pessoas ao todo, que tinham ido jantar com a viva Camargo, Rua do Areal,
naquele dia dos anos dela, cinco de novembro de 1875... Boa e patusca viva!
Amava o riso e a folga, apesar dos sessenta anos em que entrava, e foi a ltima
vez que folgou e riu, pois faleceu nos primeiros dias de 1876. Boa e patusca
viva! Com que alma e diligncia arranjou ali umas danas, logo depois do
jantar, pedindo ao Pestana que tocasse uma quadrilha! Nem foi preciso acabar o
pedido; Pestana curvou-se gentilmente, e correu ao piano. Finda a quadrilha,
mal teriam descansado uns dez minutos, a viva correu novamente ao Pestana para
um obsquio mui particular.

 Diga, minha senhora.

  que nos toque agora aquela sua polca No Bula
Comigo, Nhonh.

Pestana fez uma careta, mas dissimulou depressa,
inclinou-se calado, sem gentileza, e foi para o piano, sem entusiasmo. Ouvidos
os primeiros compassos, derramou-se pela sala uma alegria nova, os cavalheiros
correram s damas, e os pares entraram a saracotear a polca da moda. Da moda;
tinha sido publicada vinte dias antes, e j no havia recanto da cidade em que
no fosse conhecida. Ia chegando  consagrao do assobio e da cantarola
noturna.

Sinhazinha Mota estava longe de supor que aquele Pestana
que ela vira  mesa de jantar e depois ao piano, metido numa sobrecasaca cor de
rap, cabelo negro, longo e cacheado, olhos cuidosos, queixo rapado, era o
mesmo Pestana compositor; foi uma amiga que lho disse quando o viu vir do
piano, acabada a polca. Da a pergunta admirativa. Vimos que ele respondeu
aborrecido e vexado. Nem assim as duas moas lhe pouparam finezas, tais e
tantas, que a mais modesta vaidade se contentaria de as ouvir; ele recebeu-as
cada vez mais enfadado, at que, alegando dor de cabea, pediu licena para
sair. Nem elas, nem a dona da casa, ningum logrou ret-lo. Ofereceram-lhe
remdios caseiros, algum repouso, no aceitou nada, teimou em sair e saiu.

Rua fora, caminhou depressa, com medo de que ainda o
chamassem; s afrouxou, depois que dobrou a esquina da Rua Formosa. Mas a
mesmo esperava-o a sua grande polca festiva. De uma casa modesta,  direita, a
poucos metros de distncia, saam as notas da composio do dia, sopradas em
clarineta. Danava-se. Pestana parou alguns instantes, pensou em arrepiar
caminho, mas disps-se a andar, estugou o passo, atravessou a rua, e seguiu
pelo lado oposto ao da casa do baile. As notas foram-se perdendo, ao longe, e o
nosso homem entrou na Rua do Aterrado, onde morava. J perto de casa, viu vir
dois homens: um deles, passando rentezinho com o Pestana, comeou a assobiar a
mesma polca, rijamente, com brio, e o outro pegou a tempo na msica, e a foram
os dois abaixo, ruidosos e alegres, enquanto o autor da pea, desesperado,
corria a meter-se em casa.

Em casa, respirou. Casa velha, escada velha, um preto
velho que o servia, e que veio saber se ele queria cear.

 No quero nada, bradou o Pestana: faa-me caf e v
dormir.

Despiu-se, enfiou uma camisola, e foi para a sala dos fundos.
Quando o preto acendeu o gs da sala, Pestana sorriu e, dentro d'alma,
cumprimentou uns dez retratos que pendiam da parede. Um s era a leo, o de um
padre, que o educara, que lhe ensinara latim e msica, e que, segundo os
ociosos, era o prprio pai do Pestana. Certo  que lhe deixou em herana aquela
casa velha, e os velhos trastes, ainda do tempo de Pedro I. Compusera alguns
motetes o padre, era doido por msica, sacra ou profana, cujo gosto incutiu no
moo, ou tambm lhe transmitiu no sangue, se  que tinham razo as bocas
vadias, coisa de que se no ocupa a minha histria, como ides ver.

Os demais retratos eram de compositores clssicos,
Cimarosa, Mozart, Beethoven, Gluck, Bach, Schumann, e ainda uns trs, alguns
gravados, outros litografados, todos mal encaixilhados e de diferente tamanho,
mas postos ali como santos de uma igreja. O piano era o altar; o evangelho da
noite l estava aberto: era uma sonata de Beethoven.

Veio o caf; Pestana engoliu a primeira xcara, e
sentou-se ao piano. Olhou para o retrato de Beethoven, e comeou a executar a
sonata, sem saber de si, desvairado ou absorto, mas com grande perfeio.
Repetiu a pea, depois parou alguns instantes, levantou-se e foi a uma das
janelas. Tornou ao piano; era a vez de Mozart, pegou de um trecho, e executou-o
do mesmo modo, com a alma alhures. Haydn levou-o  meia-noite e  segunda
xcara de caf.

Entre meia-noite e uma hora, Pestana pouco mais fez que
estar  janela e olhar para as estrelas, entrar e olhar para os retratos. De
quando em quando ia ao piano, e, de p, dava uns golpes soltos no teclado, como
se procurasse algum pensamento; mas o pensamento no aparecia e ele voltava a
encostar-se  janela. As estrelas pareciam-lhe outras tantas notas musicais
fixadas no cu  espera de algum que as fosse descolar; tempo viria em que o
cu tinha de ficar vazio, mas ento a terra seria uma constelao de
partituras. Nenhuma imagem, desvario ou reflexo trazia uma lembrana qualquer
de Sinhazinha Mota, que entretanto, a essa mesma hora, adormecia, pensando
nele, famoso autor de tantas polcas amadas. Talvez a idia conjugal tirou 
moa alguns momentos de sono. Que tinha? Ela ia em vinte anos, ele em trinta,
boa conta. A moa dormia ao som da polca, ouvida de cor, enquanto o autor desta
no cuidava nem da polca nem da moa, mas das velhas obras clssicas,
interrogando o cu e a noite, rogando aos anjos, em ltimo caso ao diabo. Por
que no faria ele uma s que fosse daquelas pginas imortais?

s vezes, como que ia surgir das profundezas do inconsciente
uma aurora de idia: ele corria ao piano, para avent-la inteira, traduzi-la,
em sons, mas era em vo: a idia esvaa-se. Outras vezes, sentado, ao piano,
deixava os dedos correrem,  ventura, a ver se as fantasias brotavam deles,
como dos de Mozart: mas nada, nada, a inspirao no vinha, a imaginao
deixava-se estar dormindo. Se acaso uma idia aparecia, definida e bela, era
eco apenas de alguma pea alheia, que a memria repetia, e que ele supunha
inventar. Ento, irritado, erguia-se, jurava abandonar a arte, ir plantar caf
ou puxar carroa: mas da a dez minutos, ei-lo outra vez, com os olhos em
Mozart, a imit-lo ao piano.

Duas, trs, quatro horas. Depois das quatro foi dormir; estava
cansado, desanimado, morto; tinha que dar lies no dia seguinte. Pouco dormiu;
acordou s sete horas. Vestiu-se e almoou.

 Meu senhor quer a bengala ou o chapu-de-sol? perguntou
o preto, segundo as ordens que tinha, porque as distraes do senhor eram
freqentes.

 A bengala.

 Mas parece que hoje chove.

 Chove, repetiu Pestana maquinalmente.

 Parece que sim, senhor, o cu est meio escuro.

Pestana olhava para o preto, vago, preocupado. De repente:

 Espera a.

Correu  sala dos retratos, abriu o piano, sentou-se e
espalmou as mos no teclado. Comeou a tocar alguma coisa prpria, uma
inspirao real e pronta, uma polca, uma polca buliosa, como dizem os
anncios. Nenhuma repulsa da parte do compositor; os dedos iam arrancando as
notas, ligando-as, meneando-as; dir-se-ia que a musa compunha e bailava a um
tempo. Pestana esquecera as discpulas, esquecera o preto, que o esperava com a
bengala e o guarda-chuva, esquecera at os retratos que pendiam gravemente da parede.
Compunha s, teclando ou escrevendo, sem os vos esforos da vspera, sem
exasperao, sem nada pedir ao cu, sem interrogar os olhos de Mozart. Nenhum
tdio. Vida, graa, novidade, escorriam-lhe da alma como de uma fonte perene.

Em pouco tempo estava a polca feita. Corrigiu ainda alguns
pontos, quando voltou para jantar: mas j a cantarolava, andando, na rua.
Gostou dela; na composio recente e indita circulava o sangue da paternidade
e da vocao. Dois dias depois, foi lev-la ao editor das outras polcas suas,
que andariam j por umas trinta. O editor achou-a linda.

 Vai fazer grande efeito.

Veio a questo do ttulo. Pestana, quando comps a
primeira polca, em 1871, quis dar-lhe um ttulo potico, escolheu este: Pingos
de Sol. O editor abanou a cabea, e disse-lhe que os ttulos deviam ser, j
de si, destinados  popularidade, ou por aluso a algum sucesso do dia,  ou
pela graa das palavras; indicou-lhe dois: A Lei de 28 de Setembro, ou
Candongas No Fazem Festa.

 Mas que quer dizer Candongas No Fazem Festa?
perguntou o autor.

 No quer dizer nada, mas populariza-se logo.

Pestana, ainda donzel indito, recusou qualquer das
denominaes e guardou a polca, mas no tardou que compusesse outra, e a
comicho da publicidade levou-o a imprimir as duas, com os ttulos que ao
editor parecessem mais atraentes ou apropriados. Assim se regulou pelo tempo
adiante.

Agora, quando Pestana entregou a nova polca, e passaram ao
ttulo, o editor acudiu que trazia um, desde muitos dias, para a primeira obra
que ele lhe apresentasse, ttulo de espavento, longo e meneado. Era este: Senhora
Dona, Guarde o Seu Balaio.

 E para a vez seguinte, acrescentou, j trago outro de
cor.

Pestana, ainda donzel indito, recusou qualquer das
denominaes compositor bastava  procura; mas a obra em si mesma era adequada
ao gnero, original, convidava a dan-la e decorava-se depressa. Em oito dias,
estava clebre. Pestana, durante os primeiros, andou deveras namorado da
composio, gostava de a cantarolar baixinho, detinha-se na rua, para ouvi-la
tocar em alguma casa, e zangava-se quando no a tocavam bem. Desde logo, as
orquestras de teatro a executaram, e ele l foi a um deles. No desgostou
tambm de a ouvir assobiada, uma noite, por um vulto que descia a Rua do Aterrado.

Essa lua-de-mel durou apenas um quarto de lua. Como das
outras vezes, e mais depressa ainda, os velhos mestres retratados o fizeram
sangrar de remorsos. Vexado e enfastiado, Pestana arremeteu contra aquela que o
viera consolar tantas vezes, musa de olhos marotos e gestos arredondados, fcil
e graciosa. E a voltaram as nuseas de si mesmo, o dio a quem lhe pedia a
nova polca da moda, e juntamente o esforo de compor alguma coisa ao sabor
clssico, uma pgina que fosse, uma s, mas tal que pudesse ser encadernada
entre Bach e Schumann. Vo estudo, intil esforo. Mergulhava naquele Jordo
sem sair batizado. Noites e noites, gastou-as assim, confiado e teimoso, certo
de que a vontade era tudo, e que, uma vez que abrisse mo da msica fcil...

 As polcas que vo para o inferno fazer danar o diabo,
disse ele um dia, de madrugada, ao deitar-se.

Mas as polcas no quiseram ir to fundo. Vinham  casa de
Pestana,  prpria sala dos retratos, irrompiam to prontas, que ele no tinha
mais que o tempo de as compor, imprimi-las depois, gost-las alguns dias,
aborrec-las, e tornar s velhas fontes, donde lhe no manava nada. Nessa
alternativa viveu at casar, e depois de casar.

 Casar com quem? perguntou Sinhazinha Mota ao tio escrivo
que lhe deu aquela notcia.

 Vai casar com uma viva.

 Velha?

 Vinte e sete anos.

 Bonita?

 No, nem feia, assim, assim. Ouvi dizer que ele se
enamorou dela, porque a ouviu cantar na ltima festa de S. Francisco de Paula. Mas
ouvi tambm que ela possui outra prenda, que no  rara, mas vale menos: est
tsica.

Os escrives no deviam ter esprito,  mau esprito,
quero dizer. A sobrinha deste sentiu no fim um pingo de blsamo, que lhe curou
a dentadinha da inveja. Era tudo verdade. Pestana casou da a dias com uma
viva de vinte e sete anos, boa cantora e tsica. Recebeu-a como a esposa
espiritual do seu gnio. O celibato era, sem dvida, a causa da esterilidade e
do transvio, dizia ele consigo; artisticamente considerava-se um arruador de
horas mortas; tinha as polcas por aventuras de petimetres. Agora, sim,  que ia
engendrar uma famlia de obras srias, profundas, inspiradas e trabalhadas.

Essa esperana abotoou desde as primeiras horas do amor, e
desabrochou  primeira aurora do casamento. Maria, balbuciou a alma dele, d-me
o que no achei na solido das noites, nem no tumulto dos dias.

Desde logo, para comemorar o consrcio, teve idia de
compor um noturno. Chamar-lhe-ia Ave, Maria. A felicidade como que lhe
trouxe um princpio de inspirao; no querendo dizer nada  mulher, antes de
pronto, trabalhava s escondidas; coisa difcil, porque Maria, que amava
igualmente a arte, vinha tocar com ele, ou ouvi-lo somente, horas e horas, na
sala dos retratos. Chegaram a fazer alguns concertos semanais, com trs
artistas, amigos do Pestana. Um domingo, porm, no se pde ter o marido, e
chamou a mulher para tocar um trecho do noturno; no lhe disse o que era nem de
quem era. De repente, parando, interrogou-a com os olhos.

 Acaba, disse Maria; no  Chopin?

Pestana empalideceu, fitou os olhos no ar, repetiu um ou
dois trechos e ergueu-se. Maria assentou-se ao piano, e, depois de algum
esforo de memria, executou a pea de Chopin. A idia, o motivo eram os
mesmos; Pestana achara-os em algum daqueles becos escuros da memria, velha
cidade de traies. Triste, desesperado, saiu de casa, e dirigiu-se para o lado
da ponte, caminho de S. Cristvo.

 Para que lutar? dizia ele. Vou com as polcas... Viva a
polca!

Homens que passavam por ele, e ouviam isto, ficavam
olhando, como para um doido. E ele ia andando, alucinado, mortificado, eterna
peteca entre a ambio e a vocao... Passou o velho matadouro; ao chegar 
porteira da estrada de ferro, teve idia de ir pelo trilho acima e esperar o
primeiro trem que viesse e o esmagasse. O guarda f-lo recuar. Voltou a si e
tornou a casa.

Poucos dias depois,  uma clara e fresca manh de maio de
1876,  eram seis horas, Pestana sentiu nos dedos um frmito particular e
conhecido. Ergueu-se devagarinho, para no acordar Maria, que tossira toda
noite, e agora dormia profundamente. Foi para a sala dos retratos, abriu o
piano, e, o mais surdamente que pde, extraiu uma polca. F-la publicar com um
pseudnimo; nos dois meses seguintes comps e publicou mais duas. Maria no
soube nada; ia tossindo e morrendo, at que expirou, uma noite, nos braos do
marido, apavorado e desesperado.

Era noite de Natal. A dor do Pestana teve um acrscimo, porque
na vizinhana havia um baile, em que se tocaram vrias de suas melhores polcas.
J o baile era duro de sofrer; as suas composies davam-lhe um ar de ironia e
perversidade. Ele sentia a cadncia dos passos, adivinhava os movimentos,
porventura lbricos, a que obrigava alguma daquelas composies; tudo isso ao
p do cadver plido, um molho de ossos, estendido na cama... Todas as horas da
noite passaram assim, vagarosas ou rpidas, midas de lgrimas e de suor, de
guas-da-colnia e de Labarraque, saltando sem parar, como ao som da polca de
um grande Pestana invisvel.

Enterrada a mulher, o vivo teve uma nica preocupao:
deixar a msica, depois de compor um Requiem, que faria executar no
primeiro aniversrio da morte de Maria. Escolheria outro emprego, escrevente,
carteiro, mascate, qualquer coisa que lhe fizesse esquecer a arte assassina e
surda.

Comeou a obra; empregou tudo, arrojo, pacincia,
meditao, e at os caprichos do acaso, como fizera outrora, imitando Mozart.
Releu e estudou o Requiem deste autor. Passaram-se semanas e meses. A
obra, clere a princpio, afrouxou o andar. Pestana tinha altos e baixos. Ora
achava-a incompleta, no lhe sentia a alma sacra, nem idia, nem inspirao,
nem mtodo; ora elevava-se-lhe o corao e trabalhava com vigor. Oito meses,
nove, dez, onze, e o Requiem no estava concludo. Redobrou de esforos;
esqueceu lies e amizades. Tinha refeito muitas vezes a obra; mas agora queria
conclu-la, fosse como fosse. Quinze dias, oito, cinco... A aurora do
aniversrio veio ach-lo trabalhando.

Contentou-se da missa rezada e simples, para ele s. No
se pode dizer se todas as lgrimas que lhe vieram sorrateiramente aos olhos,
foram do marido, ou se algumas eram do compositor. Certo  que nunca mais
tornou ao Requiem.

'Para qu?' dizia ele a si mesmo.

Correu ainda um ano. No princpio de 1878, apareceu-lhe o
editor.

 L vo dois anos, disse este, que nos no d um ar da
sua graa. Toda a gente pergunta se o senhor perdeu o talento. Que tem feito?

 Nada.

 Bem sei o golpe que o feriu; mas l vo dois anos. Venho
propor-lhe um contrato: vinte polcas durante doze meses; o preo antigo, e uma
porcentagem maior na venda. Depois, acabado o ano, podemos renovar.

Pestana assentiu com um gesto. Poucas lies tinha,
vendera a casa para saldar dvidas, e as necessidades iam comendo o resto, que
era assaz escasso. Aceitou o contrato.

 Mas a primeira polca h de ser j, explicou o editor. 
urgente. Viu a carta do Imperador ao Caxias? Os liberais foram chamados ao
poder; vo fazer a reforma eleitoral. A polca h de chamar-se: Bravos 
Eleio Direta! No  poltica;  um bom ttulo de ocasio.

Pestana comps a primeira obra do contrato. Apesar do
longo tempo de silncio, no perdera a originalidade nem a inspirao. Trazia a
mesma nota genial. As outras polcas vieram vindo, regularmente. Conservara os
retratos e os repertrios; mas fugia de gastar todas as noites ao piano, para
no cair em novas tentativas. J agora pedia uma entrada de graa, sempre que
havia alguma boa pera ou concerto de artista, ia, metia-se a um canto, gozando
aquela poro de coisas que nunca lhe haviam de brotar do crebro. Uma ou outra
vez, ao tornar para casa, cheio de msica, despertava nele o maestro indito;
ento, sentava-se ao piano, e, sem idia, tirava algumas notas, at que ia
dormir, vinte ou trinta minutos depois.

Assim foram passando os anos, at 1885. A fama do Pestana
dera-lhe definitivamente o primeiro lugar entre os compositores de polcas; mas
o primeiro lugar da aldeia no contentava a este Csar, que continuava a
preferir-lhe, no o segundo, mas o centsimo em Roma. Tinha ainda as
alternativas de outro tempo, acerca de suas composies; a diferena  que eram
menos violentas. Nem entusiasmo nas primeiras horas, nem horror depois da
primeira semana; algum prazer e certo fastio.

Naquele ano, apanhou uma febre de nada, que em poucos dias
cresceu, at virar perniciosa. J estava em perigo, quando lhe apareceu o editor,
que no sabia da doena, e ia dar-lhe notcia da subida dos conservadores, e
pedir-lhe uma polca de ocasio. O enfermeiro, pobre clarineta de teatro,
referiu-lhe o estado do Pestana, de modo que o editor entendeu calar-se. O
doente  que instou para que lhe dissesse o que era; o editor obedeceu.

 Mas h de ser quando estiver bom de todo, concluiu.

 Logo que a febre decline um pouco, disse o Pestana.

Seguiu-se uma pausa de alguns segundos. O clarineta foi p
ante p preparar o remdio; o editor levantou-se e despediu-se.

 Adeus.

 Olhe, disse o Pestana, como  provvel que eu morra por
estes dias, fao-lhe logo duas polcas; a outra servir para quando subirem os
liberais.

Foi a nica pilhria que disse em toda a vida, e era
tempo, porque expirou na madrugada seguinte, s quatro horas e cinco minutos,
bem com os homens e mal consigo mesmo.

A DESEJADA DAS GENTES

 Ah! conselheiro, a comea a falar em verso.

 Todos os homens devem ter uma lira no corao,  ou no
sejam homens. Que a lira ressoe a toda a hora, nem por qualquer motivo, no o
digo eu, mas de longe em longe, e por algumas reminiscncias particulares...
Sabe por que  que lhe pareo poeta, apesar das Ordenaes do Reino e dos
cabelos grisalhos?  porque vamos por esta Glria adiante, costeando aqui a
Secretaria de Estrangeiros... L est o outeiro clebre... Adiante h uma
casa...

 Vamos andando.

 Vamos... Divina Quintlia! Todas essas caras que a
passam so outras, mas falam-me daquele tempo, como se fossem as mesmas de
outrora;  a lira que ressoa, e a imaginao faz o resto. Divina Quintlia!

 Chamava-se Quintlia? Conheci de vista, quando andava na
Escola de Medicina, uma linda moa com esse nome. Diziam que era a mais bela da
cidade.

 H de ser a mesma, porque tinha essa fama. Magra e alta?

 Isso. Que fim levou?

 Morreu em 1859. Vinte de abril. Nunca me h de esquecer
esse dia. Vou contar-lhe um caso interessante para mim, e creio que tambm para
o senhor. Olhe, a casa era aquela... Morava com um tio, chefe de esquadra
reformado; tinha outra casa no Cosme Velho. Quando conheci Quintlia... Que
idade pensa que teria, quando a conheci?

 Se foi em 1855...

 Em 1855.

 Devia ter vinte anos.

 Tinha trinta.

 Trinta?

 Trinta anos. No os parecia, nem era nenhuma inimiga que
lhe dava essa idade. Ela prpria a confessava e at com afetao. Ao contrrio,
uma de suas amigas afirmava que Quintlia no passava dos vinte e sete; mas
como ambas tinham nascido no mesmo dia, dizia isso para diminuir-se a si
prpria.

 Mau, nada de ironias; olhe que a ironia no faz boa cama
com a saudade.

 Que  a saudade seno uma ironia do tempo e da fortuna?
Veja l; comeo a ficar sentencioso. Trinta anos; mas em verdade, no os
parecia. Lembra-se bem que era magra e alta; tinha os olhos como eu ento
dizia, que pareciam cortados da capa da ltima noite, mas apesar de noturnos,
sem mistrios nem abismos. A voz era brandssima, um tanto apaulistada, a boca
larga, e os dentes, quando ela simplesmente falava, davam-lhe  boca um ar de
riso. Ria tambm, e foram os risos dela, de parceria com os olhos, que me
doeram muito durante certo tempo.

 Mas se os olhos no tinham mistrios...

 Tanto no os tinham que cheguei ao ponto de supor que
eram as portas abertas do castelo, e o riso o clarim que chamava os cavaleiros.
J a conhecamos, eu e o meu companheiro de escritrio, o Joo Nbrega, ambos
principiantes na advocacia, e ntimos como ningum mais; mas nunca nos lembrou
namor-la. Ela andava ento no galarim; era bela, rica, elegante, e da primeira
roda. Mas um dia, no antigo Teatro Provisrio entre dois atos dos Puritanos,
estando eu num corredor, ouvi um grupo de moos que falavam dela, como de uma
fortaleza inexpugnvel. Dois confessaram haver tentado alguma coisa, mas sem
fruto; e todos pasmavam do celibato da moa que lhes parecia sem explicao. E
chalaceavam: um dizia que era promessa at ver se engordava primeiro; outro que
estava esperando a segunda mocidade do tio para casar com ele; outro que
provavelmente encomendara algum anjo ao porteiro do cu; trivialidades que me
aborreceram muito, e da parte dos que confessavam t-la cortejado ou amado,
achei que era uma grosseria sem nome. No que eles estavam todos de acordo  que
ela era extraordinariamente bela; a foram entusiastas e sinceros.

 Oh! ainda me lembro!... era muito bonita.

 No dia seguinte, ao chegar ao escritrio, entre duas
causas que no vinham, contei ao Nbrega a conversao da vspera. Nbrega
riu-se do caso, refletiu, e depois de dar alguns passos, parou diante de mim,
olhando, calado.  Aposto que a namoras? perguntei-lhe.  No, disse ele; nem
tu? Pois lembrou-me uma coisa: vamos tentar o assalto  fortaleza? Que perdemos
com isso? Nada; ou ela nos pe na rua, e j podemos esper-lo, ou aceita um de
ns, e tanto melhor para o outro que ver o seu amigo feliz.  Ests falando
srio?  Muito srio.  Nbrega acrescentou que no era s a beleza dela que a
fazia atraente. Note que ele tinha a presuno de ser esprito prtico, mas era
principalmente um sonhador que vivia lendo e construindo aparelhos sociais e
polticos. Segundo ele, os tais rapazes do teatro evitavam falar dos bens da
moa, que eram um dos feitios dela, e uma das causas provveis da
desconsolao de uns e dos sarcasmos de todos. E dizia-me:  Escuta, nem
divinizar o dinheiro, nem tambm bani-lo; no vamos crer que ele d tudo, mas
reconheamos que d alguma coisa e at muita coisa,  este relgio, por
exemplo. Combatamos pela nossa Quintlia, minha ou tua, mas provavelmente
minha, porque sou mais bonito que tu.

 Conselheiro, a confisso  grave; foi assim
brincando...?

 Foi assim brincando, cheirando ainda aos bancos da
academia, que nos metemos em negcio de tanta ponderao, que podia acabar em
nada, mas deu muito de si. Era um comeo estouvado, quase um passatempo de
crianas, sem a nota da sinceridade; mas o homem pe e a espcie dispe.
Conhecamo-la, posto no tivssemos encontros freqentes; uma vez que nos
dispusemos a uma ao comum, entrou um elemento novo na nossa vida, e dentro de
um ms estvamos brigados.

 Brigados?

 Ou quase. No tnhamos contado com ela, que nos
enfeitiou a ambos, violentamente. Em algumas semanas j pouco falvamos de
Quintlia, e com indiferena; tratvamos de enganar um ao outro e dissimular o
que sentamos. Foi assim que as nossas relaes se dissolveram, no fim de seis
meses, sem dio, nem luta, nem demonstrao externa, porque ainda nos falvamos,
onde o acaso nos reunia; mas j ento tnhamos banca separada.

 Comeo a ver uma pontinha do drama...

 Tragdia, diga tragdia; porque da a pouco tempo, ou
por desengano verbal que ela lhe desse, ou por desespero de vencer, Nbrega
deixou-me s em campo. Arranjou uma nomeao de juiz municipal l para os
sertes da Bahia, onde definhou e morreu antes de acabar o quatrinio. E
juro-lhe que no foi o inculcado esprito prtico de Nbrega que o separou de
mim; ele, que tanto falara das vantagens do dinheiro, morreu apaixonado como um
simples Werther.

 Menos a pistola.

Tambm o veneno mata; e o amor de Quintlia podia dizer-se
alguma coisa parecido com isso; foi o que o matou, e o que ainda hoje me di...
Mas, vejo pelo seu dito que o estou aborrecendo...

 Pelo amor de Deus. Juro-lhe que no; foi uma graola que
me escapou. Vamos adiante, conselheiro; ficou s em campo.

 Quintlia no deixava ningum estar s em campo,  no
digo por ela, mas pelos outros. Muitos vinham ali tomar um clix de esperanas,
e iam cear a outra parte. Ela no favorecia a um mais que a outro; mas era
lhana, graciosa e tinha essa espcie de olhos derramados que no foram feitos
para homens ciumentos. Tive cimes amargos e, s vezes, terrveis. Todo
argueiro me parecia um cavaleiro, e todo cavaleiro um diabo. Afinal
acostumei-me a ver que eram passageiros de um dia. Outros me metiam mais medo,
eram os que vinham dentro da luva das amigas. Creio que houve duas ou trs
negociaes dessas, mas sem resultado. Quintlia declarou que nada faria sem
consultar o tio, e o tio aconselhou a recusa,  coisa que ela sabia de antemo.
O bom velho no gostava nunca da visita de homens, com receio de que a sobrinha
escolhesse algum e casasse. Estava to acostumado a traz-la ao p de si, como
uma muleta da velha alma aleijada, que temia perd-la inteiramente.

 No seria essa a causa da iseno sistemtica da moa?

 Vai ver que no.

 O que noto  que o senhor era mais teimoso que os
outros...

 ...Iludido, a princpio, porque no meio de tantas
candidaturas malogradas, Quintlia preferia-me a todos os outros homens, e
conversava comigo mais largamente e mais intimamente, a tal ponto que chegou a
correr que nos casvamos.

 Mas conversavam de qu?

 De tudo o que ela no conversava com os outros; e era de
fazer pasmar que uma pessoa to amiga de bailes e passeios, de valsar e rir,
fosse comigo to severa e grave, to diferente do que costumava ou parecia ser.

 A razo  clara: achava a sua conversao menos insossa
que a dos outros homens.

 Obrigado; era mais profunda a causa da diferena, e a
diferena ia-se acentuando com os tempos. Quando a vida c embaixo a aborrecia
muito, ia para o Cosme Velho, e ali as nossas conversaes eram mais freqentes
e compridas. No lhe posso dizer, nem o senhor compreenderia nada, o que foram
as horas que ali passei, incorporando na minha vida toda a vida que jorrava
dela. Muitas vezes quis dizer-lhe o que sentia, mas as palavras tinham medo e
ficavam no corao. Escrevi cartas sobre cartas; todas me pareciam frias,
difusas, ou inchadas de estilo. Demais, ela no dava ensejo a nada, tinha um ar
de velha amiga. No princpio de 1857 adoeceu meu pai em Itabora; corri a
v-lo, achei-o moribundo. Este fato reteve-me fora da Corte uns quatro meses.
Voltei pelos fins de maio. Quintlia recebeu-me triste da minha tristeza, e vi
claramente que o meu luto passara aos olhos dela...

 Mas que era isso seno amor?

 Assim o cri, e dispus a minha vida para despos-la.
Nisto, adoeceu o tio gravemente. Quintlia no ficava s, se ele morresse,
porque, alm dos muitos parentes espalhados que tinha, morava com ela agora, na
casa da Rua do Catete, uma prima, D. Ana, viva; mas,  certo que a afeio
principal ia-se embora e nessa transio da vida presente  vida ulterior podia
eu alcanar o que desejava. A molstia do tio foi breve; ajudada da velhice,
levou-o em duas semanas. Digo-lhe aqui que a morte dele lembrou-me a de meu
pai, e a dor que ento senti foi quase a mesma. Quintlia viu-me padecer,
compreendeu o duplo motivo, e, segundo me disse depois, estimou a coincidncia
do golpe, uma vez que tnhamos de o receber sem falta e to breve. A palavra
pareceu-me um convite matrimonial; dois meses depois cuidei de pedi-la em
casamento. D. Ana ficara morando com ela e estavam no Cosme Velho. Fui ali,
achei-as juntas no terrao, que ficava perto da montanha. Eram quatro horas da
tarde de um domingo. D. Ana, que nos presumia namorados, deixou-nos o campo
livre.

 Enfim!

 No terrao, lugar solitrio, e posso dizer agreste,
proferi a primeira palavra. O meu plano era justamente precipitar tudo, com
medo de que, cinco minutos de conversa me tirassem as foras. Ainda assim, no
sabe o que me custou; custaria menos uma batalha, e juro-lhe que no nasci para
guerras. Mas aquela mulher magrinha e delicada impunha-se-me, como nenhuma
outra, antes e depois...

 E ento?

 Quintlia adivinhara, pelo transtorno do meu rosto, o
que lhe ia pedir, e deixou-me falar para preparar a resposta. A resposta foi
interrogativa e negativa. Casar para qu? Era melhor que ficssemos amigos como
dantes. Respondi-lhe que a amizade era, em mim, desde muito, a simples
sentinela do amor; no podendo mais cont-lo, deixou que ele sasse. Quintlia
sorriu da metfora, o que me doeu, e sem razo; ela, vendo o efeito, fez-se
outra vez sria e tratou de persuadir-me de que era melhor no casar.  Estou
velha, disse ela; vou em trinta e trs anos.  Mas se eu a amo assim mesmo,
repliquei, e disse-lhe uma poro de coisas, que no poderia repetir agora.
Quintlia refletiu um instante; depois insistiu nas relaes de amizade; disse
que, posto que mais moo que ela, tinha a gravidade de um homem mais velho e
inspirava-lhe confiana como nenhum outro. Desesperanado, dei algumas
passadas, depois sentei-me outra vez e narrei-lhe tudo. Ao saber da minha briga
com o amigo e companheiro da academia, e a separao em que ficamos, sentiu-se,
no sei se diga, magoada ou irritada. Censurou-nos a ambos, no valia a pena que
chegssemos a tal ponto.  A senhora diz isso porque no sente a mesma coisa. 
Mas ento  um delrio?  Creio que sim; o que lhe afiano  que ainda agora,
se fosse necessrio, separar-me-ia dele uma e cem vezes; e creio poder
afirmar-lhe que ele faria a mesma coisa. Aqui olhou ela espantada para mim,
como se olha para uma pessoa cujas faculdades parecem transtornadas; depois
abanou a cabea, e repetiu que fora um erro; no valia a pena.  Fiquemos
amigos, disse-me, estendendo a mo.   impossvel; pede-me coisa superior s
minhas foras, nunca poderei ver na senhora uma simples amiga; no desejo
impor-lhe nada; dir-lhe-ei at que nem mais insisto, porque no aceitaria outra
resposta agora. Trocamos ainda algumas palavras, e retirei-me... Veja a minha mo.

 Treme-lhe ainda...

 E no lhe contei tudo. No lhe digo aqui os
aborrecimentos que tive, nem a dor e o despeito que me ficaram. Estava
arrependido, zangado, devia ter provocado aquele desengano desde as primeiras
semanas; mas a culpa foi da esperana, que  uma planta daninha, que me comeu o
lugar de outras plantas melhores. No fim de cinco dias sa para Itabora, onde
me chamaram alguns interesses do inventrio de meu pai. Quando voltei, trs
semanas depois, achei em casa uma carta de Quintlia.

 Oh!

 Abri-a alvoroadamente: datava de quatro dias. Era
longa; aludia aos ltimos sucessos, e dizia coisas meigas e graves. Quintlia
afirmava ter esperado por mim todos os dias, no cuidando que eu levasse o
egosmo at no voltar l mais, por isso escrevia-me, pedindo que fizesse dos
meus sentimentos pessoais e sem eco uma pgina de histria acabada; que ficasse
s o amigo, e l fosse ver a sua amiga. E conclua com estas singulares
palavras: 'Quer uma garantia? Juro-lhe que no casarei nunca. Compreendi
que um vnculo de simpatia moral nos ligava um ao outro; com a diferena que o
que era em mim paixo especfica, era nela uma simples eleio de carter.
ramos dois scios, que entravam no comrcio da vida com diferente capital: eu,
tudo o que possua; ela, quase um bolo. Respondi  carta dela nesse sentido; e
declarei que era tal a minha obedincia e o meu amor, que cedia, mas de m
vontade, porque, depois do que se passara entre ns, ia sentir-me humilhado.
Risquei a palavra ridculo, j escrita, para poder ir v-la sem este vexame;
bastava o outro.

 Aposto que seguiu atrs da carta?  o que eu faria,
porque essa moa, ou eu me engano ou estava morta por casar com o senhor.

 Deixe a sua fisiologia usual; este caso  particularssimo.

 Deixe-me adivinhar o resto; o juramento era um anzol
mstico; depois, o senhor, que o recebera, podia desobrig-la dele, uma vez que
aproveitasse com a absolvio. Mas, enfim, correr  casa dele.

 No corri; fui dois dias depois. No intervalo, respondeu
ela  minha carta com um bilhete carinhoso, que rematava com esta idia:
'no fale de humilhao, onde no houve pblico.' Fui, voltei uma e
mais vezes e restabeleceram-se as nossas relaes. No se falou em nada; ao
princpio, custou-me muito parecer o que era dantes; depois, o demnio da
esperana veio pousar outra vez no meu corao; e, sem nada exprimir, cuidei
que um dia, um dia tarde, ela viesse a casar comigo. E foi essa esperana que
me retificou aos meus prprios olhos, na situao em que me achava. Os boatos
de nosso casamento correram mundo. Chegaram aos nossos ouvidos; eu negava
formalmente e srio; ela dava de ombros e ria. Foi essa fase da nossa vida a
mais serena para mim, salvo um incidente curto, um diplomata austraco ou no
sei que, rapago, elegante, ruivo, olhos grandes e atrativos, e fidalgo ainda
por cima. Quintlia mostrou-se-lhe to graciosa, que ele cuidou estar aceito, e
tratou de ir adiante. Creio que algum gesto meu, inconsciente, ou ento um
pouco da percepo fina que o cu lhe dera, levou depressa o desengano 
legao austraca. Pouco depois ela adoeceu; e foi ento que a nossa intimidade
cresceu de vulto. Ela, enquanto se tratava, resolveu no sair, e isso mesmo lhe
disseram os mdicos. L passava eu muitas horas diariamente. Ou elas tocavam,
ou jogvamos os trs, ou ento lia-se alguma coisa; a maior parte das vezes
conversvamos somente. Foi ento que a estudei muito; escutando as suas
leituras vi que os livros puramente amorosos achava-os incompreensveis, e, se
as paixes a eram violentas, largava-os com tdio. No falava assim por
ignorante; tinha notcia vaga das paixes, e assistira a algumas alheias.

 De que molstia padecia?

 Da espinha. Os mdicos diziam que a molstia no era
talvez recente, e ia tocando o ponto melindroso. Chegamos assim a 1859. Desde
maro desse ano a molstia agravou-se muito; teve uma pequena parada, mas para
os fins do ms chegou ao estado desesperador. Nunca vi depois criatura mais
enrgica diante da iminente catstrofe; estava ento de uma magreza
transparente, quase fluida; ria, ou antes, sorria apenas, e vendo que eu
escondia as minhas lgrimas, apertava-me as mos agradecida. Um dia, estando s
com o mdico, perguntou-lhe a verdade; ele ia mentir; ela disse-lhe que era intil,
que estava perdida.  Perdida, no, murmurou o mdico.  Jura que no estou
perdida?  Ele hesitou, ela agradeceu-lho. Uma vez certa que morria, ordenou o
que prometera a si mesma.

 Casou com o senhor, aposto?

 No me relembre essa triste cerimnia; ou antes,
deixe-me relembr-la, porque me traz algum alento do passado. No aceitou
recusas nem pedidos meus; casou comigo  beira da morte. Foi no dia 18 de abril
de 1859. Passei os ltimos dois dias, at 20 de abril ao p da minha noiva
moribunda, e abracei-a pela primeira vez feita cadver.

 Tudo isso  bem esquisito.

 No sei o que dir a sua fisiologia. A minha, que  de
profano, cr que aquela moa tinha ao casamento uma averso puramente fsica. Casou
meio defunta, s portas do nada. Chame-lhe monstro, se quer, mas acrescente
divino.

A
CAUSA SECRETA

Garcia, em p, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na
cadeira de balano, olhava para o teto; Maria Lusa, perto da janela, conclua
um trabalho de agulha. Havia j cinco minutos que nenhum deles dizia nada.
Tinham falado do dia, que estivera excelente,  de Catumbi, onde morava o casal
Fortunato, e de uma casa de sade, que adiante se explicar. Como os trs
personagens aqui presentes esto agora mortos e enterrados, tempo  de contar a
histria sem rebuo.

Tinham falado tambm de outra coisa, alm daquelas trs,
coisa to feia e grave, que no lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do
bairro e da casa de sade. Toda a conversao a este respeito foi constrangida.
Agora mesmo, os dedos de Maria Lusa parecem ainda trmulos, ao passo que h no
rosto de Garcia uma expresso de severidade, que lhe no  habitual. Em
verdade, o que se passou foi de tal natureza, que para faz-lo entender 
preciso remontar  origem da situao.

Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior,
1861. No de 1860, estando ainda na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela
primeira vez,  porta da Santa Casa; entrava, quando o outro saa. Fez-lhe
impresso a figura; mas, ainda assim, t-la-ia esquecido, se no fosse o
segundo encontro, poucos dias depois. Morava na rua de D. Manoel. Uma de suas
raras distraes era ir ao teatro de S. Janurio, que ficava perto, entre essa
rua e a praia; ia uma ou duas vezes por ms, e nunca achava acima de quarenta
pessoas. S os mais intrpidos ousavam estender os passos at aquele recanto da
cidade. Uma noite, estando nas cadeiras, apareceu ali Fortunato, e sentou-se ao
p dele.

A pea era um dramalho, cosido a facadas, ouriado de
imprecaes e remorsos; mas Fortunato ouvia-a com singular interesse. Nos
lances dolorosos, a ateno dele redobrava, os olhos iam avidamente de um
personagem a outro, a tal ponto que o estudante suspeitou haver na pea
reminiscncias pessoais do vizinho. No fim do drama, veio uma farsa; mas
Fortunato no esperou por ela e saiu; Garcia saiu atrs dele. Fortunato foi
pelo Beco do Cotovelo, Rua de S. Jos, at o Largo da Carioca. Ia devagar,
cabisbaixo, parando s vezes, para dar uma bengalada em algum co que dormia; o
co ficava ganindo e ele ia andando. No Largo da Carioca entrou num tlburi, e
seguiu para os lados da Praa da Constituio. Garcia voltou para casa sem
saber mais nada.

Decorreram algumas semanas. Uma noite, eram nove horas, estava
em casa, quando ouviu rumor de vozes na escada; desceu logo do sto, onde
morava, ao primeiro andar, onde vivia um empregado do arsenal de guerra. Era
este que alguns homens conduziam, escada acima, ensangentado. O preto que o
servia acudiu a abrir a porta; o homem gemia, as vozes eram confusas, a luz
pouca. Deposto o ferido na cama, Garcia disse que era preciso chamar um mdico.

 J a vem um, acudiu algum.

Garcia olhou: era o prprio homem da Santa Casa e do
teatro. Imaginou que seria parente ou amigo do ferido; mas, rejeitou a
suposio, desde que lhe ouvira perguntar se este tinha famlia ou pessoa
prxima. Disse-lhe o preto que no, e ele assumiu a direo do servio, pediu
s pessoas estranhas que se retirassem, pagou aos carregadores, e deu as
primeiras ordens. Sabendo que o Garcia era vizinho e estudante de medicina
pediu-lhe que ficasse para ajudar o mdico. Em seguida contou o que se passara.

 Foi uma malta de capoeiras. Eu vinha do quartel de
Moura, onde fui visitar um primo, quando ouvi um barulho muito grande, e logo
depois um ajuntamento. Parece que eles feriram tambm a um sujeito que passava,
e que entrou por um daqueles becos; mas eu s vi a este senhor, que atravessava
a rua no momento em que um dos capoeiras, roando por ele, meteu-lhe o punhal.
No caiu logo; disse onde morava e, como era a dois passos, achei melhor
traz-lo.

 Conhecia-o antes? perguntou Garcia.

 No, nunca o vi. Quem ?

  um bom homem, empregado no arsenal de guerra. Chama-se
Gouva.

 No sei quem .

Mdico e subdelegado vieram da a pouco; fez-se o
curativo, e tomaram-se as informaes. O desconhecido declarou chamar-se
Fortunato Gomes da Silveira, ser capitalista, solteiro, morador em Catumbi. A
ferida foi reconhecida grave. Durante o curativo ajudado pelo estudante,
Fortunato serviu de criado, segurando a bacia, a vela, os panos, sem perturbar
nada, olhando friamente para o ferido, que gemia muito. No fim, entendeu-se
particularmente com o mdico, acompanhou-o at o patamar da escada, e reiterou
ao subdelegado a declarao de estar pronto a auxiliar as pesquisas da polcia.
Os dois saram, ele e o estudante ficaram no quarto.

Garcia estava atnito. Olhou para ele, viu-o sentar-se
tranqilamente, estirar as pernas, meter as mos nas algibeiras das calas, e
fitar os olhos no ferido. Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se
devagar, e tinham a expresso dura, seca e fria. Cara magra e plida; uma tira
estreita de barba, por baixo do queixo, e de uma tmpora a outra, curta, ruiva
e rara. Teria quarenta anos. De quando em quando, voltava-se para o estudante,
e perguntava alguma coisa acerca do ferido; mas tornava logo a olhar para ele,
enquanto o rapaz lhe dava a resposta. A sensao que o estudante recebia era de
repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade; no podia negar que estava
assistindo a um ato de rara dedicao, e se era desinteressado como parecia,
no havia mais que aceitar o corao humano como um poo de mistrios.

Fortunato saiu pouco antes de uma hora; voltou nos dias
seguintes, mas a cura fez-se depressa, e, antes de concluda, desapareceu sem
dizer ao obsequiado onde morava. Foi o estudante que lhe deu as indicaes do
nome, rua e nmero.

 Vou agradecer-lhe a esmola que me fez, logo que possa
sair, disse o convalescente.

Correu a Catumbi da a seis dias. Fortunato recebeu-o
constrangido, ouviu impaciente as palavras de agradecimento, deu-lhe uma
resposta enfastiada e acabou batendo com as borlas do chambre no joelho.
Gouva, defronte dele, sentado e calado, alisava o chapu com os dedos,
levantando os olhos de quando em quando, sem achar mais nada que dizer. No fim
de dez minutos, pediu licena para sair, e saiu.

 Cuidado com os capoeiras! disse-lhe o dono da casa,
rindo-se.

O pobre-diabo saiu de l mortificado, humilhado,
mastigando a custo o desdm, forcejando por esquec-lo, explic-lo ou
perdo-lo, para que no corao s ficasse a memria do benefcio; mas o esforo
era vo. O ressentimento, hspede novo e exclusivo, entrou e ps fora o
benefcio, de tal modo que o desgraado no teve mais que trepar  cabea e
refugiar-se ali como uma simples idia. Foi assim que o prprio benfeitor
insinuou a este homem o sentimento da ingratido.

Tudo isso assombrou o Garcia. Este moo possua, em grmen,
a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da
anlise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas
morais, at apalpar o segredo de um organismo. Picado de curiosidade,
lembrou-se de ir ter com o homem de Catumbi, mas advertiu que nem recebera dele
o oferecimento formal da casa. Quando menos, era-lhe preciso um pretexto, e no
achou nenhum.

Tempos depois, estando j formado e morando na Rua de
Mata-cavalos, perto da do Conde, encontrou Fortunato em uma gndola,
encontrou-o ainda outras vezes, e a freqncia trouxe a familiaridade. Um dia
Fortunato convidou-o a ir visit-lo ali perto, em Catumbi.

 Sabe que estou casado?

 No sabia.

 Casei-me h quatro meses, podia dizer quatro dias. V
jantar conosco domingo.

 Domingo?

 No esteja forjando desculpas; no admito desculpas. V
domingo.

Garcia foi l domingo. Fortunato deu-lhe um bom jantar,
bons charutos e boa palestra, em companhia da senhora, que era interessante. A
figura dele no mudara; os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e
frias; as outras feies no eram mais atraentes que dantes. Os obsquios,
porm, se no resgatavam a natureza, davam alguma compensao, e no era pouco.
Maria Lusa  que possua ambos os feitios, pessoa e modos. Era esbelta,
airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia no passar
de dezenove. Garcia,  segunda vez que l foi, percebeu que entre eles havia
alguma dissonncia de caracteres, pouca ou nenhuma afinidade moral, e da parte
da mulher para com o marido uns modos que transcendiam o respeito e confinavam
na resignao e no temor. Um dia, estando os trs juntos, perguntou Garcia a
Maria Lusa se tivera notcia das circunstncias em que ele conhecera o marido.

 No, respondeu a moa.

 Vai ouvir uma ao bonita.

 No vale a pena, interrompeu Fortunato.

 A senhora vai ver se vale a pena, insistiu o mdico.

Contou o caso da Rua de D. Manoel. A moa ouviu-o
espantada. Insensivelmente estendeu a mo e apertou o pulso ao marido, risonha
e agradecida, como se acabasse de descobrir-lhe o corao. Fortunato sacudia os
ombros, mas no ouvia com indiferena. No fim contou ele prprio a visita que o
ferido lhe fez, com todos os pormenores da figura, dos gestos, das palavras
atadas, dos silncios, em suma, um estrdio. E ria muito ao cont-la. No era o
riso da dobrez. A dobrez  evasiva e oblqua; o riso dele era jovial e franco.

'Singular homem!' pensou Garcia.

Maria Lusa ficou desconsolada com a zombaria do marido;
mas o mdico restituiu-lhe a satisfao anterior, voltando a referir a
dedicao deste e as suas raras qualidades de enfermeiro; to bom enfermeiro,
concluiu ele, que, se algum dia fundar uma casa de sade, irei convid-lo.

 Valeu? perguntou Fortunato.

 Valeu o qu?

 Vamos fundar uma casa de sade?

 No valeu nada; estou brincando.

 Podia-se fazer alguma coisa; e para o senhor, que comea
a clnica, acho que seria bem bom. Tenho justamente uma casa que vai vagar, e
serve.

Garcia recusou nesse e no dia seguinte; mas a idia
tinha-se metido na cabea ao outro, e no foi possvel recuar mais. Na verdade,
era uma boa estria para ele, e podia vir a ser um bom negcio para ambos.
Aceitou finalmente, da a dias, e foi uma desiluso para Maria Lusa. Criatura
nervosa e frgil, padecia s com a idia de que o marido tivesse de viver em
contato com enfermidades humanas, mas no ousou opor-se-lhe, e curvou a cabea.
O plano fez-se e cumpriu-se depressa. Verdade  que Fortunato no curou de mais
nada, nem ento, nem depois. Aberta a casa, foi ele o prprio administrador e
chefe de enfermeiros, examinava tudo, ordenava tudo, compras e caldos, drogas e
contas.

Garcia pde ento observar que a dedicao ao ferido da
Rua D. Manoel no era um caso fortuito, mas assentava na prpria natureza deste
homem. Via-o servir como nenhum dos fmulos. No recuava diante de nada, no
conhecia molstia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a
qualquer hora do dia ou da noite. Toda a gente pasmava e aplaudia. Fortunato
estudava, acompanhava as operaes, e nenhum outro curava os custicos.

 Tenho muita f nos custicos, dizia ele.

A comunho dos interesses apertou os laos da intimidade.
Garcia tornou-se familiar na casa; ali jantava quase todos os dias, ali
observava a pessoa e a vida de Maria Lusa, cuja solido moral era evidente. E
a solido como que lhe duplicava o encanto. Garcia comeou a sentir que alguma
coisa o agitava, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada,
ao canto da janela, ou tocava ao piano umas msicas tristes. Manso e manso,
entrou-lhe o amor no corao. Quando deu por ele, quis expeli-lo, para que
entre ele e Fortunato no houvesse outro lao que o da amizade; mas no pde.
Pde apenas tranc-lo; Maria Lusa compreendeu ambas as coisas, a afeio e o
silncio, mas no se deu por achada.

No comeo de outubro deu-se um incidente que desvendou
ainda mais aos olhos do mdico a situao da moa. Fortunato metera-se a
estudar anatomia e fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e
envenenar gatos e ces. Como os guinchos dos animais atordoavam os doentes,
mudou o laboratrio para casa, e a mulher, compleio nervosa, teve de os
sofrer. Um dia, porm, no podendo mais, foi ter com o mdico e pediu-lhe que,
como coisa sua, alcanasse do marido a cessao de tais experincias.

 Mas a senhora mesma...

Maria Lusa acudiu, sorrindo:

 Ele naturalmente achar que sou criana. O que eu queria
 que o senhor, como mdico, lhe dissesse que isso me faz mal; e creia que
faz...

Garcia alcanou prontamente que o outro acabasse com tais
estudos. Se os foi fazer em outra parte, ningum o soube, mas pode ser que sim.
Maria Lusa agradeceu ao mdico, tanto por ela como pelos animais, que no
podia ver padecer. Tossia de quando em quando; Garcia perguntou-lhe se tinha
alguma coisa, ela respondeu que nada.

 Deixe ver o pulso.

 No tenho nada.

No deu o pulso, e retirou-se. Garcia ficou apreensivo.
Cuidava, ao contrrio, que ela podia ter alguma coisa, que era preciso
observ-la e avisar o marido em tempo.

Dois dias depois,  exatamente o dia em que os vemos agora,
 Garcia foi l jantar. Na sala disseram-lhe que Fortunato estava no gabinete,
e ele caminhou para ali: ia chegando  porta, no momento em que Maria Lusa
saa aflita.

 Que ? perguntou-lhe.

 O rato! O rato! exclamou a moa sufocada e afastando-se.

Garcia lembrou-se que, na vspera, ouvira ao Fortunado
queixar-se de um rato, que lhe levara um papel importante; mas estava longe de
esperar o que viu. Viu Fortunato sentado  mesa, que havia no centro do
gabinete, e sobre a qual pusera um prato com esprito de vinho. O lquido
flamejava. Entre o polegar e o ndice da mo esquerda segurava um barbante, de
cuja ponta pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No
momento em que o Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em
seguida desceu o infeliz at a chama, rpido, para no mat-lo, e disps-se a
fazer o mesmo  terceira, pois j lhe havia cortado a primeira. Garcia estacou
horrorizado.

 Mate-o logo! disse-lhe.

 J vai.

E com um sorriso nico, reflexo de alma satisfeita, alguma
coisa que traduzia a delcia ntima das sensaes supremas, Fortunato cortou a
terceira pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento at a chama. O
miservel estorcia-se, guinchando, ensangentado, chamuscado, e no acabava de
morrer. Garcia desviou os olhos, depois voltou-os novamente, e estendeu a mo
para impedir que o suplcio continuasse, mas no chegou a faz-lo, porque o
diabo do homem impunha medo, com toda aquela serenidade radiosa da fisionomia.
Faltava cortar a ltima pata; Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a
tesoura com os olhos; a pata caiu, e ele ficou olhando para o rato meio
cadver. Ao desc-lo pela quarta vez, at a chama, deu ainda mais rapidez ao
gesto, para salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida.

Garcia, defronte, conseguia dominar a repugnncia do
espetculo para fixar a cara do homem. Nem raiva, nem dio; to-somente um
vasto prazer, quieto e profundo, como daria a outro a audio de uma bela
sonata ou a vista de uma esttua divina, alguma coisa parecida com a pura
sensao esttica. Pareceu-lhe, e era verdade, que Fortunato havia-o
inteiramente esquecido. Isto posto, no estaria fingindo, e devia ser aquilo
mesmo. A chama ia morrendo, o rato podia ser que tivesse ainda um resduo de vida,
sombra de sombra; Fortunato aproveitou-o para cortar-lhe o focinho e pela
ltima vez chegar a carne ao fogo. Afinal deixou cair o cadver no prato, e
arredou de si toda essa mistura de chamusco e sangue.

Ao levantar-se deu com o mdico e teve um sobressalto.
Ento, mostrou-se enraivecido contra o animal, que lhe comera o papel; mas a
clera evidentemente era fingida.

'Castiga sem raiva', pensou o mdico, 'pela
necessidade de achar uma sensao de prazer, que s a dor alheia lhe pode dar:
 o segredo deste homem'.

Fortunato encareceu a importncia do papel, a perda que
lhe trazia, perda de tempo,  certo, mas o tempo agora era-lhe preciosssimo.
Garcia ouvia s, sem dizer nada, nem lhe dar crdito. Relembrava os atos dele,
graves e leves, achava a mesma explicao para todos. Era a mesma troca das
teclas da sensibilidade, um diletantismo sui generis, uma reduo de
Calgula.

Quando Maria Lusa voltou ao gabinete, da a pouco, o
marido foi ter com ela, rindo, pegou-lhe nas mos e falou-lhe mansamente:

 Fracalhona!

E voltando-se para o mdico:

 H de crer que quase desmaiou?

Maria Lusa defendeu-se a medo, disse que era nervosa e
mulher; depois foi sentar-se  janela com as suas ls e agulhas, e os dedos
ainda trmulos, tal qual a vimos no comeo desta histria. Ho de lembrar-se
que, depois de terem falado de outras coisas, ficaram calados os trs, o marido
sentado e olhando para o teto, o mdico estalando as unhas. Pouco depois foram
jantar; mas o jantar no foi alegre. Maria Lusa cismava e tossia; o mdico
indagava de si mesmo se ela no estaria exposta a algum excesso na companhia de
tal homem. Era apenas possvel; mas o amor trocou-lhe a possibilidade em
certeza; tremeu por ela e cuidou de os vigiar.

Ela tossia, tossia, e no se passou muito tempo que a
molstia no tirasse a mscara. Era a tsica, velha dama insacivel, que chupa
a vida toda, at deixar um bagao de ossos. Fortunato recebeu a notcia como um
golpe; amava deveras a mulher, a seu modo, estava acostumado com ela,
custava-lhe perd-la. No poupou esforos, mdicos, remdios, ares, todos os
recursos e todos os paliativos. Mas foi tudo vo. A doena era mortal.

Nos ltimos dias, em presena dos tormentos supremos da
moa, a ndole do marido subjugou qualquer outra afeio. No a deixou mais;
fitou o olho bao e frio naquela decomposio lenta e dolorosa da vida, bebeu
uma a uma as aflies da bela criatura, agora magra e transparente, devorada de
febre e minada de morte. Egosmo asprrimo, faminto de sensaes, no lhe
perdoou um s minuto de agonia, nem lhos pagou com uma s lgrima, pblica ou
ntima. S quando ela expirou,  que ele ficou aturdido. Voltando a si, viu que
estava outra vez s.

De noite, indo repousar uma parenta de Maria Lusa, que a
ajudara a morrer, ficaram na sala Fortunato e Garcia, velando o cadver, ambos
pensativos; mas o prprio marido estava fatigado, o mdico disse-lhe que
repousasse um pouco.

 V descansar, passe pelo sono uma hora ou duas: eu irei
depois.

Fortunato saiu, foi deitar-se no sof da saleta contgua,
e adormeceu logo. Vinte minutos depois acordou, quis dormir outra vez, cochilou
alguns minutos, at que se levantou e voltou  sala. Caminhava nas pontas dos
ps para no acordar a parenta, que dormia perto. Chegando  porta, estacou
assombrado.

Garcia tinha-se chegado ao cadver, levantara o leno e
contemplara por alguns instantes as feies defuntas. Depois, como se a morte
espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Foi nesse momento que
Fortunato chegou  porta. Estacou assombrado; no podia ser o beijo da amizade,
podia ser o eplogo de um livro adltero. No tinha cimes, note-se; a natureza
comp-lo de maneira que lhe no deu cimes nem inveja, mas dera-lhe vaidade,
que no  menos cativa ao ressentimento. Olhou assombrado, mordendo os beios.

Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez
o cadver; mas ento no pde mais. O beijo rebentou em soluos, e os olhos no
puderam conter as lgrimas, que vieram em borbotes, lgrimas de amor calado, e
irremedivel desespero. Fortunato,  porta, onde ficara, saboreou tranqilo
essa exploso de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.

TRIO
EM L
MENOR

NDICE

Captulo Primeiro

Captulo II

Captulo iii

Captulo iv

CAPTULO PRIMEIRO

ADAGIO CANTABILE

Maria Regina acompanhou a av at o quarto, despediu-se e
recolheu-se ao seu. A mucama que a servia, apesar da familiaridade que existia
entre elas, no pde arrancar-lhe uma palavra, e saiu, meia hora depois,
dizendo que Nhanh estava muito sria. Logo que ficou s, Maria Regina
sentou-se ao p da cama, com as pernas estendidas, os ps cruzados, pensando.

A verdade pede que diga que esta moa pensava amorosamente
em dois homens ao mesmo tempo, um de vinte e sete anos, Maciel  outro de
cinqenta, Miranda. Convenho que  abominvel, mas no posso alterar a feio
das coisas, no posso negar que se os dois homens esto namorados dela, ela no
o est menos de ambos. Uma esquisita, em suma; ou, para falar como as suas
amigas de colgio, uma desmiolada. Ningum lhe nega corao excelente e claro
esprito; mas a imaginao  que  o mal, uma imaginao adusta e cobiosa,
insacivel principalmente, avessa  realidade, sobrepondo s coisas da vida
outras de si mesmas; da curiosidades irremediveis.

A visita dos dois homens (que a namoravam de pouco) durou
cerca de uma hora. Maria Regina conversou alegremente com eles, e tocou ao
piano uma pea clssica, uma sonata, que fez a av cochilar um pouco. No fim
discutiram msica. Miranda disse coisas pertinentes acerca da msica moderna e
antiga; a av tinha a religio de Bellini e da Norma, e falou das toadas
do seu tempo, agradveis, saudosas e principalmente claras. A neta ia com as
opinies do Miranda; Maciel concordou polidamente com todos.

Ao p da cama, Maria Regina reconstrua agora tudo isso, a
visita, a conversao, a msica, o debate, os modos de ser de um e de outro, as
palavras do Miranda e os belos olhos do Maciel. Eram onze horas, a nica luz do
quarto era a lamparina, tudo convidava ao sonho e ao devaneio. Maria Regina, 
fora de recompor a noite, viu ali dois homens ao p dela, ouviu-os, e
conversou com eles durante uma poro de minutos, trinta ou quarenta, ao som da
mesma sonata tocada por ela: l, l, l...

CAPTULO II

ALLEGRO MA NON TROPPO

No dia seguinte a av e a neta foram visitar uma amiga na
Tijuca. Na volta a carruagem derrubou um menino que atravessava a rua,
correndo. Uma pessoa que viu isto, atirou-se aos cavalos e, com perigo de si
prpria, conseguiu det-los e salvar a criana, que apenas ficou ferida e
desmaiada. Gente, tumulto, a me do pequeno acudiu em lgrimas. Maria Regina
desceu do carro e acompanhou o ferido at  casa da me, que era ali ao p.

Quem conhece a tcnica do destino adivinha logo que a
pessoa que salvou o pequeno foi um dos dois homens da outra noite; foi o
Maciel. Feito o primeiro curativo, o Maciel acompanhou a moa at  carruagem e
aceitou o lugar que a av lhe ofereceu at a cidade. Estavam no Engenho Velho.
Na carruagem  que Maria Regina viu que o rapaz trazia a mo ensangentada. A
av inquiria a mido se o pequeno estava muito mal, se escaparia; Maciel
disse-lhe que os ferimentos eram leves. Depois contou o acidente: estava
parado, na calada, esperando que passasse um tlburi, quando viu o pequeno atravessar
a rua por diante dos cavalos; compreendeu o perigo, e tratou de conjur-lo, ou
diminu-lo.

 Mas est ferido, disse a velha.

 Coisa de nada.

 Est, est, acudiu a moa; podia ter-se curado tambm.

 No  nada, teimou ele; foi um arranho, enxugo isto com
o leno.

No teve tempo de tirar o leno; Maria Regina ofereceu-lhe
o seu. Maciel, comovido, pegou nele, mas hesitou em macul-lo. V, v,
dizia-lhe ela; e vendo-o acanhado, tirou-lho e enxugou-lhe, ela mesma, o sangue
da mo.

A mo era bonita, to bonita como o dono; mas parece que
ele estava menos preocupado com a ferida da mo que com o amarrotado dos
punhos. Conversando, olhava para eles disfaradamente e escondia-os. Maria
Regina no via nada, via-o a ele, via-lhe principalmente a ao que acabava de
praticar, e que lhe punha uma aurola. Compreendeu que a natureza generosa
saltara por cima dos hbitos pausados e elegantes do moo, para arrancar 
morte uma criana que ele nem conhecia. Falaram do assunto at a porta da casa
delas; Maciel recusou, agradecendo, a carruagem que elas lhe ofereciam, e
despediu-se at  noite.

 At a noite! repetiu Maria Regina.

 Esperou-o ansiosa. Ele chegou, por volta de oito horas,
trazendo uma fita preta enrolada na mo, e pediu desculpa de vir assim; mas
disseram-lhe que era bom pr alguma coisa e obedeceu.

 Mas est melhor!

 Estou bom, no foi nada.

 Venha, venha, disse-lhe a av, do outro lado da sala.
Sente-se aqui ao p de mim: o senhor  um heri.

Maciel ouvia sorrindo. Tinha passado o mpeto generoso,
comeava a receber os dividendos do sacrifcio. O maior deles era a admirao
de Maria Regina, to ingnua e tamanha, que esquecia a av e a sala. Maciel
sentara-se ao lado da velha, Maria Regina defronte de ambos. Enquanto a av,
restabelecida do susto, contava as comoes que padecera, a princpio sem saber
de nada, depois imaginando que a criana teria morrido, os dois olhavam um para
o outro, discretamente, e afinal esquecidamente. Maria Regina perguntava a si
mesma onde acharia melhor noivo. A av, que no era mope, achou a contemplao
excessiva, e falou de outra coisa; pediu ao Maciel algumas notcias de
sociedade.

CAPTULO III

ALLEGRO APPASSIONATO

Maciel era homem, como ele mesmo dizia em francs, trs
rpandu; sacou da algibeira uma poro de novidades midas e interessantes.
A maior de todas foi a de estar desfeito o casamento de certa viva.

 No me diga isso! exclamou a av. E ela?

 Parece que foi ela mesma que o desfez: o certo  que
esteve anteontem no baile, danou e conversou com muita animao. Oh! abaixo da
notcia, o que fez mais sensao em mim foi o colar que ela levava,
magnfico...

 Com uma cruz de brilhantes? perguntou a velha. Conheo;
 muito bonito.

 No, no  esse.

Maciel conhecia o da cruz, que ela levara  casa de um
Mascarenhas; no era esse. Este outro ainda h poucos dias estava na loja do
Resende, uma coisa linda. E descreveu-o todo, nmero, disposio e facetado das
pedras; concluiu dizendo que foi a jia da noite.

 Para tanto luxo era melhor casar, ponderou
maliciosamente a av.

 Concordo que a fortuna dela no d para isso. Ora,
espere! Vou amanh, ao Resende, por curiosidade, saber o preo por que o vendeu.
No foi barato, no podia ser barato.

 Mas por que  que se desfez o casamento?

 No pude saber; mas tenho de jantar sbado com o
Venancinho Correia, e ele conta-me tudo. Sabe que ainda  parente dela? Bom
rapaz; est inteiramente brigado com o baro...

A av no sabia da briga; Maciel contou-lha de princpio a
fim, com todas as suas causas e agravantes. A ltima gota no clice foi um dito
 mesa de jogo, uma aluso ao defeito do Venancinho, que era canhoto. Contaram-lhe
isto, e ele rompeu inteiramente as relaes com o baro. O bonito  que os
parceiros do baro acusaram-se uns aos outros de terem ido contar as palavras
deste. Maciel declarou que era regra sua no repetir o que ouvia  mesa do
jogo, porque  lugar em que h certa franqueza.

Depois fez a estatstica da Rua do Ouvidor, na vspera,
entre uma e quatro horas da tarde. Conhecia os nomes das fazendas e todas as
cores modernas. Citou as principais toilettes do dia. A primeira foi a
de Mme. Pena Maia, baiana distinta, trs pschutt. A segunda foi a
de Mlle. Pedrosa, filha de um desembargador de So Paulo, adorable.
E apontou mais trs, comparou depois as cinco, deduziu e concluiu. s vezes
esquecia-se e falava francs; pode mesmo ser que no fosse esquecimento, mas
propsito; conhecia bem a lngua, exprimia-se com facilidade e formulara um dia
este axioma etnolgico  que h parisienses em toda a parte. De caminho,
explicou um problema de voltarete.

 A senhora tem cinco trunfos de espadilha e manilha, tem
rei e dama de copas...

Maria Regina ia descambando da admirao no fastio:
agarrava-se aqui e ali, contemplava a figura moa do Maciel, recordava a bela
ao daquele dia, mas ia sempre escorregando; o fastio no tardava a
absorv-la. No havia remdio. Ento recorreu a um singular expediente. Tratou
de combinar os dois homens, o presente com o ausente, olhando para um, e
escutando o outro de memria; recurso violento e doloroso, mas to eficaz, que
ela pde contemplar por algum tempo uma criatura perfeita e nica.

Nisto apareceu o outro, o prprio Miranda. Os dois homens
cumprimentaram-se friamente; Maciel demorou-se ainda uns dez minutos e saiu.

Miranda ficou. Era alto e seco, fisionomia dura e gelada.
Tinha o rosto cansado, os cinqenta anos confessavam-se tais, nos cabelos
grisalhos, nas rugas e na pele. S os olhos continham alguma coisa menos
caduca. Eram pequenos, e escondiam-se por baixo da vasta arcada do sobrolho;
mas l, ao fundo, quando no estavam pensativos, centelhavam de mocidade. A av
perguntou-lhe, logo que Maciel saiu, se j tinha notcia do acidente do Engenho
Velho, e contou-lho com grandes encarecimentos, mas o outro ouvia tudo sem
admirao nem inveja.

 No acha sublime? perguntou ela, no fim.

 Acho que ele salvou talvez a vida a um desalmado que
algum dia, sem o conhecer, pode meter-lhe uma faca na barriga.

 Oh! protestou a av.

 Ou mesmo conhecendo, emendou ele.

 No seja mau, acudiu Maria Regina; o senhor era bem
capaz de fazer o mesmo, se ali estivesse.

Miranda sorriu de um modo sardnico. O riso acentuou-lhe a
dureza da fisionomia. Egosta e mau, este Miranda primava por um lado nico:
espiritualmente, era completo. Maria Regina achava nele o tradutor maravilhoso
e fiel de uma poro de idias que lutavam dentro dela, vagamente, sem forma ou
expresso. Era engenhoso e fino e at profundo, tudo sem pedantice, e sem
meter-se por matos cerrados, antes quase sempre na plancie das conversaes
ordinrias; to certo  que as coisas valem pelas idias que nos sugerem.
Tinham ambos os mesmos gostos artsticos; Miranda estudara direito para
obedecer ao pai; a sua vocao era a msica.

A av, prevendo a sonata, aparelhou a alma para alguns
cochilos. Demais, no podia admitir tal homem no corao; achava-o aborrecido e
antiptico. Calou-se no fim de alguns minutos. A sonata veio, no meio de uma
conversao que Maria Regina achou deleitosa, e no veio seno porque ele lhe
pediu que tocasse; ele ficaria de bom grado a ouvi-la.

 Vov, disse ela, agora h de ter pacincia...

Miranda aproximou-se do piano. Ao p das arandelas, a
cabea dele mostrava toda a fadiga dos anos, ao passo que a expresso da
fisionomia era muito mais de pedra e fel. Maria Regina notou a graduao, e
tocava sem olhar para ele; difcil coisa, porque, se ele falava, as palavras
entravam-lhe tanto pela alma, que a moa insensivelmente levantava os olhos, e
dava logo com um velho ruim. Ento  que se lembrava do Maciel, dos seus anos
em flor, da fisionomia franca, meiga e boa, e afinal da ao daquele dia.
Comparao to cruel para o Miranda, como fora para o Maciel o cotejo dos seus
espritos. E a moa recorreu ao mesmo expediente. Completou um pelo outro;
escutava a este com o pensamento naquele; e a msica ia ajudando a fico,
indecisa a princpio, mas logo viva e acabada. Assim Titnia, ouvindo namorada
a cantiga do tecelo, admirava-lhe as belas formas, sem advertir que a cabea
era de burro.

CAPTULO IV

MINUETTO

Dez, vinte, trinta dias passaram depois daquela noite, e
ainda mais vinte, e depois mais trinta. No h cronologia certa; melhor  ficar
no vago. A situao era a mesma. Era a mesma insuficincia individual dos dois
homens, e o mesmo complemento ideal por parte dela; da um terceiro homem, que
ela no conhecia.

Maciel e Miranda desconfiavam um do outro, detestavam-se a
mais e mais, e padeciam muito, Miranda principalmente, que era paixo da ltima
hora. Afinal acabaram aborrecendo a moa. Esta viu-os ir pouco a pouco. A
esperana ainda os fez relapsos, mas tudo morre, at a esperana, e eles saram
para nunca mais. As noites foram passando, passando... Maria Regina compreendeu
que estava acabado.

A noite em que se persuadiu bem disto foi uma das mais belas
daquele ano, clara, fresca, luminosa. No havia lua; mas nossa amiga aborrecia
a lua,  no se sabe bem por que,  ou porque brilha de emprstimo, ou porque
toda a gente a admira, e pode ser que por ambas as razes. Era uma das suas
esquisitices. Agora outra.

Tinha lido de manh, em uma notcia de jornal, que h
estrelas duplas, que nos parecem um s astro. Em vez de ir dormir, encostou-se
 janela do quarto, olhando para o cu, a ver se descobria alguma delas;
baldado esforo. No a descobrindo no cu, procurou-a em si mesma, fechou os
olhos para imaginar o fenmeno; astronomia fcil e barata, mas no sem risco. O
pior que ela tem  pr os astros ao alcance da mo; por modo que, se a pessoa
abre os olhos e eles continuam a fulgurar l em cima, grande  o desconsolo e
certa a blasfmia. Foi o que sucedeu aqui. Maria Regina viu dentro de si a
estrela dupla e nica. Separadas, valiam bastante; juntas, davam um astro
esplndido. E ela queria o astro esplndido. Quando abriu os olhos e viu que o
firmamento ficava to alto, concluiu que a criao era um livro falho e
incorreto, e desesperou.

No muro da chcara viu ento uma coisa parecida com dois
olhos de gato. A princpio teve medo, mas advertiu logo que no era mais que a
reproduo externa dos dois astros que ela vira em si mesma e que tinham ficado
impressos na retina. A retina desta moa fazia refletir c fora todas as suas
imaginaes. Refrescando o vento recolheu-se, fechou a janela e meteu-se na
cama.

No dormiu logo, por causa de duas rodelas de opala que
estavam incrustadas na parede; percebendo que era ainda uma iluso, fechou os
olhos e dormiu. Sonhou que morria, que a alma dela, levada aos ares, voava na
direo de uma bela estrela dupla. O astro desdobrou-se, e ela voou para uma
das duas pores; no achou ali a sensao primitiva e despenhou-se para outra;
igual resultado, igual regresso, e ei-la a andar de uma para outra das duas
estrelas separadas. Ento uma voz surgiu do abismo, com palavras que ela no
entendeu:

  a tua pena, alma curiosa de perfeio; a tua pena 
oscilar por toda a eternidade entre dois astros incompletos, ao som desta velha
sonata do absoluto: l, l, l...

ADO E EVA

Uma senhora de engenho, na Bahia, pelos anos de mil
setecentos e tantos, tendo algumas pessoas ntimas  mesa, anunciou a um dos
convivas, grande lambareiro, um certo doce particular. Ele quis logo saber o
que era; a dona da casa chamou-lhe curioso. No foi preciso mais; da a pouco
estavam todos discutindo a curiosidade, se era masculina ou feminina, e se a
responsabilidade da perda do paraso devia caber a Eva ou a Ado. As senhoras
diziam que a Ado, os homens que a Eva, menos o juiz-de-fora, que no dizia
nada, e Frei Bento, carmelita, que interrogado pela dona da casa, D. Leonor:

 Eu, senhora minha, toco viola, respondeu sorrindo; e no
mentia, porque era insigne na viola e na harpa, no menos que na teologia.

Consultado, o juiz-de-fora respondeu que no havia matria
para opinio; porque as coisas no paraso terrestre passaram-se de modo
diferente do que est contado no primeiro livro do Pentateuco, que  apcrifo.
Espanto geral, riso do carmelita que conhecia o juiz-de-fora como um dos mais
piedosos sujeitos da cidade, e sabia que era tambm jovial e inventivo, e at
amigo da pulha, uma vez que fosse curial e delicada; nas coisas graves, era
gravssimo.

 Frei Bento, disse-lhe D. Leonor, faa calar o Sr.
Veloso.

 No o fao calar, acudiu o frade, porque sei que de sua
boca h de sair tudo com boa significao.

 Mas a Escritura... ia dizendo o mestre-de-campo Joo
Barbosa.

 Deixemos em paz a Escritura, interrompeu o carmelita.
Naturalmente, o Sr. Veloso conhece outros livros...

 Conheo o autntico, insistiu o juiz-de-fora, recebendo
o prato de doce que D. Leonor lhe oferecia, e estou pronto a dizer o que sei,
se no mandam o contrrio.

 V l, diga.

 Aqui est como as coisas se passaram. Em primeiro lugar,
no foi Deus que criou o mundo, foi o Diabo...

 Cruz! exclamaram as senhoras.

 No diga esse nome, pediu D. Leonor.

 Sim, parece que... ia intervindo frei Bento.

 Seja o Tinhoso. Foi o Tinhoso que criou o mundo; mas
Deus, que lhe leu no pensamento, deixou-lhe as mos livres, cuidando somente de
corrigir ou atenuar a obra, a fim de que ao prprio mal no ficasse a
desesperana da salvao ou do benefcio. E a ao divina mostrou-se logo
porque, tendo o Tinhoso criado as trevas, Deus criou a luz, e assim se fez o
primeiro dia. No segundo dia, em que foram criadas as guas, nasceram as
tempestades e os furaces; mas as brisas da tarde baixaram do pensamento
divino. No terceiro dia foi feita a terra, e brotaram dela os vegetais, mas s
os vegetais sem fruto nem flor, os espinhosos, as ervas que matam como a
cicuta; Deus, porm, criou as rvores frutferas e os vegetais que nutrem ou
encantam. E tendo o Tinhoso cavado abismos e cavernas na terra, Deus fez o sol,
a lua e as estrelas; tal foi a obra do quarto dia. No quinto foram criados os
animais da terra, da gua e do ar. Chegamos ao sexto dia, e aqui peo que
redobrem de ateno.

No era preciso pedi-lo; toda a mesa olhava para ele,
curiosa.

Veloso continuou dizendo que no sexto dia foi criado o
homem, e logo depois a mulher; ambos belos, mas sem alma, que o Tinhoso no
podia dar, e s com ruins instintos. Deus infundiu-lhes a alma, com um sopro, e
com outro os sentimentos nobres, puros e grandes. Nem parou nisso a
misericrdia divina; fez brotar um jardim de delcias, e para ali os conduziu,
investindo-os na posse de tudo. Um e outro caram aos ps do Senhor, derramando
lgrimas de gratido. 'Vivereis aqui', disse-lhes o Senhor, 'e
comereis de todos os frutos, menos o desta rvore, que  a da cincia do Bem e
do Mal.

Ado e Eva ouviram submissos; e ficando ss, olharam um
para o outro, admirados; no pareciam os mesmos. Eva, antes que Deus lhe
infundisse os bons sentimentos, cogitava de armar um lao a Ado, e Ado tinha
mpetos de espanc-la. Agora, porm, embebiam-se na contemplao um do outro,
ou na vista da natureza, que era esplndida. Nunca at ento viram ares to
puros, nem guas to frescas, nem flores to lindas e cheirosas, nem o sol
tinha para nenhuma outra parte as mesmas torrentes de claridade. E dando as
mos percorreram tudo, a rir muito, nos primeiros dias, porque at ento no
sabiam rir. No tinham a sensao do tempo. No sentiam o peso da ociosidade;
viviam da contemplao. De tarde iam ver morrer o sol e nascer a lua, e contar
as estrelas, e raramente chegavam a mil, dava-lhes o sono e dormiam como dois
anjos.

Naturalmente, o Tinhoso ficou danado quando soube do caso.
No podia ir ao paraso, onde tudo lhe era avesso, nem chegaria a lutar com o
Senhor; mas ouvindo um rumor no cho entre folhas secas, olhou e viu que era a
serpente. Chamou-a alvoroado.

 Vem c, serpe, fel rasteiro, peonha das peonhas,
queres tu ser a embaixatriz de teu pai, para reaver as obras de teu pai?

A serpente fez com a cauda um gesto vago, que parecia
afirmativo; mas o Tinhoso deu-lhe a fala, e ela respondeu que sim, que iria
onde ele a mandasse,  s estrelas, se lhe desse as asas da guia  ao mar, se
lhe confiasse o segredo de respirar na gua  ao fundo da terra, se lhe
ensinasse o talento da formiga. E falava a maligna, falava  toa, sem parar,
contente e prdiga da lngua; mas o diabo interrompeu-a:

 Nada disso, nem ao ar, nem ao mar, nem  terra, mas
to-somente ao jardim de delcias, onde esto vivendo Ado e Eva.

 Ado e Eva?

 Sim, Ado e Eva.

 Duas belas criaturas que vimos andar h tempos, altas e
direitas como palmeiras?

 Justamente.

 Oh! detesto-os. Ado e Eva? No, no, manda-me a outro
lugar. Detesto-os! S a vista deles faz-me padecer muito. No hs de querer que
lhes faa mal...

  justamente para isso.

 Deveras? Ento vou; farei tudo o que quiseres, meu
senhor e pai. Anda, dize depressa o que queres que faa. Que morda o calcanhar
de Eva? Morderei...

 No, interrompeu o Tinhoso. Quero justamente o
contrrio. H no jardim uma rvore, que  a da cincia do Bem e do Mal; eles
no devem tocar nela, nem comer-lhe os frutos. Vai, entra, enrosca-te na
rvore, e quando um deles ali passar, chama-o de mansinho, tira uma fruta e
oferece-lhe, dizendo que  a mais saborosa fruta do mundo; se te responder que
no, tu insistirs, dizendo que  bastante com-la para conhecer o prprio
segredo da vida. Vai, vai...

 Vou; mas no falarei a Ado, falarei a Eva. Vou, vou.
Que  o prprio segredo da vida, no?

 Sim, o prprio segredo da vida. Vai, serpe das minhas
entranhas, flor do mal, e se te sares bem, juro que ters a melhor parte na
criao, que  a parte humana, porque ters muito calcanhar de Eva que morder,
muito sangue de Ado em que deitar o vrus do mal... Vai, vai, no te
esqueas...

Esquecer? J levava tudo de cor. Foi, penetrou no paraso,
rastejou at a rvore do Bem e do Mal, enroscou-se e esperou. Eva apareceu da
a pouco, caminhando sozinha, esbelta, com a segurana de uma rainha que sabe
que ningum lhe arrancar a coroa. A serpente, mordida de inveja, ia chamar a
peonha  lngua, mas advertiu que estava ali s ordens do Tinhoso, e, com a
voz de mel, chamou-a. Eva estremeceu.

 Quem me chama?

 Sou eu, estou comendo desta fruta...

 Desgraada,  a rvore do Bem e do Mal!

 Justamente. Conheo agora tudo, a origem das coisas e o
enigma da vida. Anda, come e ters um grande poder na terra.

 No, prfida!

 Nscia! Para que recusas o resplendor dos tempos?
Escuta-me, faze o que te digo, e sers legio, fundars cidades, e chamar-te-s
Clepatra, Dido, Semramis; dars heris do teu ventre, e sers Cornlia;
ouvirs a voz do cu, e sers Dbora; cantars e sers Safo. E um dia, se Deus
quiser descer  terra, escolher as tuas entranhas, e chamar-te-s Maria de
Nazar. Que mais queres tu? Realeza, poesia, divindade, tudo trocas por uma
estulta obedincia. Nem ser s isso. Toda a natureza te far bela e mais bela.
Cores das folhas verdes, cores do cu azul, vivas ou plidas, cores da noite,
ho de refletir nos teus olhos. A mesma noite, de porfia com o sol, vir
brincar nos teus cabelos. Os filhos do teu seio tecero para ti as melhores
vestiduras, comporo os mais finos aromas, e as aves te daro as suas plumas, e
a terra as suas flores, tudo, tudo, tudo...

Eva escutava impassvel; Ado chegou, ouviu-os e confirmou
a resposta de Eva; nada valia a perda do paraso, nem a cincia, nem o poder,
nenhuma outra iluso da terra. Dizendo isto, deram as mos um ao outro, e
deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso...

Deus, que ouvira tudo, disse a Gabriel:

 Vai, arcanjo meu, desce ao paraso terrestre, onde vivem
Ado e Eva, e traze-os para a eterna bem-aventurana, que mereceram pela
repulsa s instigaes do Tinhoso.

E logo o arcanjo, pondo na cabea o elmo de diamante, que
rutila como um milhar de sis, rasgou instantaneamente os ares, chegou a Ado e
Eva, e disse-lhes:

 Salve, Ado e Eva. Vinde comigo para o paraso, que
merecestes pela repulsa s instigaes do Tinhoso.

Um e outro, atnitos e confusos, curvaram o colo em sinal
de obedincia; ento Gabriel deu as mos a ambos, e os trs subiram at 
estncia eterna, onde mirades de anjos os esperavam, cantando:

 Entrai, entrai. A terra que deixastes, fica entregue s
obras do Tinhoso, aos animais ferozes e malficos, s plantas daninhas e
peonhentas, ao ar impuro,  vida dos pntanos. Reinar nela a serpente que
rasteja, babuja e morde, nenhuma criatura igual a vs por entre tanta
abominao a nota da esperana e da piedade.

E foi assim que Ado e Eva entraram no cu, ao som de
todas as ctaras, que uniam as suas notas em um hino aos dois egressos da
criao...

... Tendo acabado de falar, o juiz-de-fora estendeu o
prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas
olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicao, ouviam uma
narrao enigmtica, ou, pelo menos, sem sentido aparente. D. Leonor foi a
primeira que falou:

 Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente.
No foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, no , Frei Bento?

 L o saber o Sr. Juiz, respondeu o carmelita sorrindo.

E o juiz-de-fora, levando  boca uma colher de doce:

 Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas
tambm, D. Leonor, se tivesse acontecido, no estaramos aqui saboreando este
doce, que est, na verdade, uma coisa primorosa.  ainda aquela sua antiga
doceira de Itapagipe?

O
ENFERMEIRO

Parece-lhe ento que o que se deu comigo em 1860, pode
entrar numa pgina de livro? V que seja, com a condio nica de que no h de
divulgar nada antes da minha morte. No esperar muito, pode ser que oito dias,
se no for menos; estou desenganado.

Olhe, eu podia mesmo contar-lhe a minha vida inteira, em
que h outras coisas interessantes, mas para isso era preciso tempo, nimo e
papel, e eu s tenho papel; o nimo  frouxo, e o tempo assemelha-se 
lamparina de madrugada. No tarda o sol do outro dia, um sol dos diabos,
impenetrvel como a vida. Adeus, meu caro senhor, leia isto e queira-me bem;
perdoe-me o que lhe parecer mau, e no maltrate muito a arruda, se lhe no
cheira a rosas. Pediu-me um documento humano, ei-lo aqui. No me pea tambm o
imprio do Gro-Mogol, nem a fotografia dos Macabeus; pea, porm, os meus
sapatos de defunto e no os dou a ningum mais.

J sabe que foi em 1860. No ano anterior, ali pelo ms de
agosto, tendo eu quarenta e dois anos, fiz-me telogo  quero dizer, copiava os
estudos de teologia de um padre de Niteri, antigo companheiro de colgio, que
assim me dava, delicadamente, casa, cama e mesa. Naquele ms de agosto de 1859,
recebeu ele uma carta de um vigrio de certa vila do interior, perguntando se
conhecia pessoa entendida, discreta e paciente, que quisesse ir servir de
enfermeiro ao coronel Felisberto, mediante um bom ordenado. O padre falou-me,
aceitei com ambas as mos, estava j enfarado de copiar citaes latinas e
frmulas eclesisticas. Vim  Corte despedir-me de um irmo, e segui para a
vila.

Chegando  vila, tive ms notcias do coronel. Era homem
insuportvel, estrdio, exigente, ningum o aturava, nem os prprios amigos.
Gastava mais enfermeiros que remdios. A dois deles quebrou a cara. Respondi
que no tinha medo de gente s, menos ainda de doentes; e depois de entender-me
com o vigrio, que me confirmou as notcias recebidas, e me recomendou mansido
e caridade, segui para a residncia do coronel.

Achei-o na varanda da casa estirado numa cadeira, bufando
muito. No me recebeu mal. Comeou por no dizer nada; ps em mim dois olhos de
gato que observa; depois, uma espcie de riso maligno alumiou-lhe as feies,
que eram duras. Afinal, disse-me que nenhum dos enfermeiros que tivera,
prestava para nada, dormiam muito, eram respondes e andavam ao faro das
escravas; dois eram at gatunos!

 Voc  gatuno?

 No, senhor.

Em seguida, perguntou-me pelo nome: disse-lho e ele fez um
gesto de espanto. Colombo? No, senhor: Procpio Jos Gomes Valongo. Valongo?
achou que no era nome de gente, e props chamar-me to-somente Procpio, ao
que respondi que estaria pelo que fosse de seu agrado. Conto-lhe esta
particularidade, no s porque me parece pint-lo bem, como porque a minha
resposta deu de mim a melhor idia ao coronel. Ele mesmo o declarou ao vigrio,
acrescentando que eu era o mais simptico dos enfermeiros que tivera. A verdade
 que vivemos uma lua-de-mel de sete dias.

No oitavo dia, entrei na vida dos meus predecessores, uma
vida de co, no dormir, no pensar em mais nada, recolher injrias, e, s
vezes, rir delas, com um ar de resignao e conformidade; reparei que era um
modo de lhe fazer corte. Tudo impertinncias de molstia e do temperamento. A
molstia era um rosrio delas, padecia de aneurisma, de reumatismo e de trs ou
quatro afeces menores. Tinha perto de sessenta anos, e desde os cinco toda a
gente lhe fazia a vontade. Se fosse s rabugento, v; mas ele era tambm mau,
deleitava-se com a dor e a humilhao dos outros. No fim de trs meses estava
farto de o aturar; determinei vir embora; s esperei ocasio.

No tardou a ocasio. Um dia, como lhe no desse a tempo
uma fomentao, pegou da bengala e atirou-me dois ou trs golpes. No era
preciso mais; despedi-me imediatamente, e fui aprontar a mala. Ele foi ter
comigo, ao quarto, pediu-me que ficasse, que no valia a pena zangar por uma
rabugice de velho. Instou tanto que fiquei.

 Estou na dependura, Procpio, dizia-me ele  noite; no
posso viver muito tempo. Estou aqui, estou na cova. Voc h de ir ao meu
enterro, Procpio; no o dispenso por nada. H de ir, h de rezar ao p da
minha sepultura. Se no for, acrescentou rindo, eu voltarei de noite para lhe
puxar as pernas. Voc cr em almas de outro mundo, Procpio?

 Qual o qu!

 E por que  que no h de crer, seu burro? redargiu
vivamente, arregalando os olhos.

Eram assim as pazes; imagine a guerra. Coibiu-se das
bengaladas; mas as injrias ficaram as mesmas, se no piores. Eu, com o tempo,
fui calejando, e no dava mais por nada; era burro, camelo, pedao dasno,
idiota, moleiro, era tudo. Nem, ao menos, havia mais gente que recolhesse uma
parte desses nomes. No tinha parentes; tinha um sobrinho que morreu tsico, em
fins de maio ou princpios de julho, em Minas. Os amigos iam por l s vezes
aprov-lo, aplaudi-lo, e nada mais; cinco, dez minutos de visita. Restava eu;
era eu sozinho para um dicionrio inteiro. Mais de uma vez resolvi sair; mas,
instado pelo vigrio, ia ficando.

No s as relaes foram-se tornando melindrosas, mas eu
estava ansioso por tornar  Corte. Aos quarenta e dois anos no  que havia de
acostumar-me  recluso constante, ao p de um doente bravio, no interior. Para
avaliar o meu isolamento, basta saber que eu nem lia os jornais; salvo alguma
notcia mais importante que levavam ao coronel, eu nada sabia do resto do
mundo. Entendi, portanto, voltar para a Corte, na primeira ocasio, ainda que
tivesse de brigar com o vigrio. Bom  dizer (visto que fao uma confisso
geral) que, nada gastando e tendo guardado integralmente os ordenados, estava
ansioso por vir dissip-los aqui.

Era provvel que a ocasio aparecesse. O coronel estava
pior, fez testamento, descompondo o tabelio, quase tanto como a mim. O trato
era mais duro, os breves lapsos de sossego e brandura faziam-se raros. J por
esse tempo tinha eu perdido a escassa dose de piedade que me fazia esquecer os
excessos do doente; trazia dentro de mim um fermento de dio e averso. No
princpio de agosto resolvi definitivamente sair; o vigrio e o mdico,
aceitando as razes, pediram-me que ficasse algum tempo mais. Concedi-lhes um
ms; no fim de um ms viria embora, qualquer que fosse o estado do doente. O
vigrio tratou de procurar-me substituto.

Vai ver o que aconteceu. Na noite de vinte e quatro de
agosto, o coronel teve um acesso de raiva, atropelou-me, disse-me muito nome
cru, ameaou-me de um tiro, e acabou atirando-me um prato de mingau, que achou
frio; o prato foi cair na parede, onde se fez em pedaos.

 Hs de pag-lo, ladro! bradou ele.

Resmungou ainda muito tempo. s onze horas passou pelo
sono. Enquanto ele dormia, saquei um livro do bolso, um velho romance de
dArlincourt, traduzido, que l achei, e pus-me a l-lo, no mesmo quarto, 
pequena distncia da cama; tinha de acord-lo  meia-noite para lhe dar o
remdio. Ou fosse de cansao, ou do livro, antes de chegar ao fim da segunda
pgina adormeci tambm. Acordei aos gritos do coronel, e levantei-me estremunhado.
Ele, que parecia delirar, continuou nos mesmos gritos, e acabou por lanar mo
da moringa e arremess-la contra mim. No tive tempo de desviar-me; a moringa
bateu-me na face esquerda, e tal foi a dor que no vi mais nada; atirei-me ao
doente, pus-lhe as mos ao pescoo, lutamos, e esganei-o.

Quando percebi que o doente expirava, recuei aterrado, e
dei um grito; mas ningum me ouviu. Voltei  cama, agitei-o para cham-lo 
vida, era tarde; arrebentara o aneurisma, e o coronel morreu. Passei  sala
contgua, e durante duas horas no ousei voltar ao quarto. No posso mesmo
dizer tudo o que passei, durante esse tempo. Era um atordoamento, um delrio
vago e estpido. Parecia-me que as paredes tinham vultos; escutava umas vozes
surdas. Os gritos da vtima, antes da luta e durante a luta, continuavam a
repercutir dentro de mim, e o ar, para onde quer que me voltasse, aparecia
recortado de convulses. No creia que esteja fazendo imagens nem estilo;
digo-lhe que eu ouvia distintamente umas vozes que me bradavam: assassino!
assassino!

Tudo o mais estava calado. O mesmo som do relgio, lento,
igual e seco, sublinhava o silncio e a solido. Colava a orelha  porta do
quarto na esperana de ouvir um gemido, uma palavra, uma injria, qualquer
coisa que significasse a vida, e me restitusse a paz  conscincia. Estaria
pronto a apanhar das mos do coronel, dez, vinte, cem vezes. Mas nada, nada;
tudo calado. Voltava a andar  toa na sala, sentava-me, punha as mos na
cabea; arrependia-me de ter vindo.  'Maldita a hora em que aceitei
semelhante coisa!' exclamava. E descompunha o padre de Niteri, o mdico,
o vigrio, os que me arranjaram um lugar, e os que me pediram para ficar mais
algum tempo. Agarrava-me  cumplicidade dos outros homens.

Como o silncio acabasse por aterrar-me, abri uma das
janelas, para escutar o som do vento, se ventasse. No ventava. A noite ia
tranqila, as estrelas fulguravam, com a indiferena de pessoas que tiram o
chapu a um enterro que passa, e continuam a falar de outra coisa. Encostei-me
ali por algum tempo, fitando a noite, deixando-me ir a uma recapitulao da
vida, a ver se descansava da dor presente. S ento posso dizer que pensei
claramente no castigo. Achei-me com um crime s costas e vi a punio certa.
Aqui o temor complicou o remorso. Senti que os cabelos me ficavam de p.
Minutos depois, vi trs ou quatro vultos de pessoas, no terreiro espiando, com
um ar de emboscada; recuei, os vultos esvaram-se no ar; era uma alucinao.

Antes do alvorecer curei a contuso da face. S ento
ousei voltar ao quarto. Recuei duas vezes, mas era preciso e entrei; ainda
assim, no cheguei logo  cama. Tremiam-me as pernas, o corao batia-me;
cheguei a pensar na fuga; mas era confessar o crime, e, ao contrrio, urgia
fazer desaparecer os vestgios dele. Fui at a cama; vi o cadver, com os olhos
arregalados e a boca aberta, como deixando passar a eterna palavra dos sculos:
'Caim, que fizeste de teu irmo?' Vi no pescoo o sinal das minhas
unhas; abotoei alto a camisa e cheguei ao queixo a ponta do lenol. Em seguida,
chamei um escravo, disse-lhe que o coronel amanhecera morto; mandei recado ao
vigrio e ao mdico.

A primeira idia foi retirar-me logo cedo, a pretexto de
ter meu irmo doente, e, na verdade, recebera carta dele, alguns dias antes,
dizendo-me que se sentia mal. Mas adverti que a retirada imediata poderia fazer
despertar suspeitas, e fiquei. Eu mesmo amortalhei o cadver, com o auxlio de
um preto velho e mope. No sa da sala morturia; tinha medo de que
descobrissem alguma coisa. Queria ver no rosto dos outros se desconfiavam; mas
no ousava fitar ningum. Tudo me dava impacincias: os passos de ladro com
que entravam na sala, os cochichos, as cerimnias e as rezas do vigrio. Vindo
a hora, fechei o caixo, com as mos trmulas, to trmulas que uma pessoa, que
reparou nelas, disse  outra com piedade:

 Coitado do Procpio! apesar do que padeceu, est muito
sentido.

Pareceu-me ironia; estava ansioso por ver tudo acabado.
Samos  rua. A passagem da meia escurido da casa para a claridade da rua
deu-me grande abalo; receei que fosse ento impossvel ocultar o crime. Meti os
olhos no cho, e fui andando. Quando tudo acabou, respirei. Estava em paz com
os homens. No o estava com a conscincia, e as primeiras noites foram
naturalmente de desassossego e aflio. No  preciso dizer que vim logo para o
Rio de Janeiro, nem que vivi aqui aterrado, embora longe do crime; no ria,
falava pouco, mal comia, tinha alucinaes, pesadelos...

 Deixa l o outro que morreu, diziam-me. No  caso para
tanta melancolia.

E eu aproveitava a iluso, fazendo muitos elogios ao
morto, chamando-lhe boa criatura, impertinente,  verdade, mas um corao de ouro.
E, elogiando, convencia-me tambm, ao menos por alguns instantes. Outro
fenmeno interessante, e que talvez lhe possa aproveitar,  que, no sendo
religioso, mandei dizer uma missa pelo eterno descanso do coronel, na igreja do
Sacramento. No fiz convites, no disse nada a ningum; fui ouvi-la, sozinho, e
estive de joelhos todo o tempo, persignando-me a mido. Dobrei a esprtula do
padre, e distribu esmolas  porta, tudo por inteno do finado. No queria
embair os homens; a prova  que fui s. Para completar este ponto,
acrescentarei que nunca aludia ao coronel, que no dissesse: 'Deus lhe
fale nalma!' E contava dele algumas anedotas alegres, rompantes
engraados...

Sete dias depois de chegar ao Rio de Janeiro, recebi a
carta do vigrio, que lhe mostrei, dizendo-me que fora achado o testamento do
coronel, e que eu era o herdeiro universal. Imagine o meu pasmo. Pareceu-me que
lia mal, fui a meu irmo, fui aos amigos; todos leram a mesma coisa. Estava
escrito; era eu o herdeiro universal do coronel. Cheguei a supor que fosse uma
cilada; mas adverti logo que havia outros meios de capturar-me, se o crime
estivesse descoberto. Demais, eu conhecia a probidade do vigrio, que no se
prestaria a ser instrumento. Reli a carta, cinco, dez, muitas vezes; l estava
a notcia.

 Quanto tinha ele? perguntava-me meu irmo.

 No sei, mas era rico.

 Realmente, provou que era teu amigo.

 Era... Era...

Assim, por uma ironia da sorte, os bens do coronel vinham parar
s minhas mos. Cogitei em recusar a herana. Parecia-me odioso receber um
vintm do tal esplio; era pior do que fazer-me esbirro alugado. Pensei nisso
trs dias, e esbarrava sempre na considerao de que a recusa podia fazer
desconfiar alguma coisa. No fim dos trs dias, assentei num meio-termo;
receberia a herana e d-la-ia toda, aos bocados e s escondidas. No era s
escrpulo; era tambm o modo de resgatar o crime por um ato de virtude;
pareceu-me que ficava assim de contas saldas.

Preparei-me e segui para a vila. Em caminho,  proporo
que me ia aproximando, recordava o triste sucesso; as cercanias da vila tinham
um aspecto de tragdia, e a sombra do coronel parecia-me surgir de cada lado. A
imaginao ia reproduzindo as palavras, os gestos, toda a noite horrenda do
crime...

Crime ou luta? Realmente, foi uma luta, em que eu,
atacado, defendi-me, e na defesa... Foi uma luta desgraada, uma fatalidade.
Fixei-me nessa idia. E balanceava os agravos, punha no ativo as pancadas, as
injrias... No era culpa do coronel, bem o sabia, era da molstia, que o
tornava assim rabugento e at mau... Mas eu perdoava tudo, tudo... O pior foi a
fatalidade daquela noite... Considerei tambm que o coronel no podia viver
muito mais; estava por pouco; ele mesmo o sentia e dizia. Viveria quanto? Duas
semanas, ou uma; pode ser at que menos. J no era vida, era um molambo de
vida, se isto mesmo se podia chamar ao padecer contnuo do pobre homem... E
quem sabe mesmo se a luta e a morte no foram apenas coincidentes? Podia ser,
era at o mais provvel; no foi outra coisa. Fixei-me tambm nessa idia...

Perto da vila apertou-se-me o corao, e quis recuar; mas
dominei-me e fui. Receberam-me com parabns. O vigrio disse-me as disposies
do testamento, os legados pios, e de caminho ia louvando a mansido crist e o
zelo com que eu servira ao coronel, que, apesar de spero e duro, soube ser
grato.

 Sem dvida, dizia eu olhando para outra parte.

Estava atordoado. Toda a gente me elogiava a dedicao e a
pacincia. As primeiras necessidades do inventrio detiveram-me algum tempo na
vila. Constitu advogado; as coisas correram placidamente. Durante esse tempo,
falava muita vez do coronel. Vinham contar-me coisas dele, mas sem a moderao
do padre; eu defendia-o, apontava algumas virtudes, era austero...

 Qual austero! J morreu, acabou; mas era o diabo.

E referiam-me casos duros, aes perversas, algumas
extraordinrias. Quer que lhe diga? Eu, a princpio, ia ouvindo cheio de
curiosidade; depois, entrou-me no corao um singular prazer, que eu
sinceramente buscava expelir. E defendia o coronel, explicava-o, atribua
alguma coisa s rivalidades locais; confessava, sim, que era um pouco
violento... Um pouco? Era uma cobra assanhada, interrompia-me o barbeiro; e todos,
o coletor, o boticrio, o escrivo, todos diziam a mesma coisa; e vinham outras
anedotas, vinha toda a vida do defunto. Os velhos lembravam-se das crueldades
dele, em menino. E o prazer ntimo, calado, insidioso, crescia dentro de mim,
espcie de tnia moral, que por mais que a arrancasse aos pedaos recompunha-se
logo e ia ficando.

As obrigaes do inventrio distraram-me; e por outro
lado a opinio da vila era to contrria ao coronel, que a vista dos lugares foi
perdendo para mim a feio tenebrosa que a princpio achei neles. Entrando na
posse da herana, converti-a em ttulos e dinheiro. Eram ento passados muitos
meses, e a idia de distribu-la toda em esmolas e donativos pios no me
dominou como da primeira vez; achei mesmo que era afetao. Restringi o plano
primitivo; distribu alguma coisa aos pobres, dei  matriz da vila uns
paramentos novos, fiz uma esmola  Santa Casa da Misericrdia, etc.: ao todo
trinta e dois contos. Mandei tambm levantar um tmulo ao coronel, todo de
mrmore, obra de um napolitano, que aqui esteve at 1866, e foi morrer, creio
eu, no Paraguai.

Os anos foram andando, a memria tornou-se cinzenta e
desmaiada. Penso s vezes no coronel, mas sem os terrores dos primeiros dias.
Todos os mdicos a quem contei as molstias dele, foram acordes em que a morte
era certa, e s se admiravam de ter resistido tanto tempo. Pode ser que eu,
involuntariamente, exagerasse a descrio que ento lhes fiz; mas a verdade 
que ele devia morrer, ainda que no fosse aquela fatalidade...

Adeus, meu caro senhor. Se achar que esses apontamentos
valem alguma coisa, pague-me tambm com um tmulo de mrmore, ao qual dar por
epitfio esta emenda que fao aqui ao divino sermo da montanha:
'Bem-aventurados os que possuem, porque eles sero consolados.

O DIPLOMTICO

A preta entrou na sala de jantar, chegou-se  mesa rodeada
de gente, e falou baixinho  senhora. Parece que lhe pedia alguma coisa
urgente, porque a senhora levantou-se logo.

 Ficamos esperando, D. Adelaide?

 No espere, no, Sr. Rangel; v continuando, eu entro
depois.

Rangel era o leitor do livro de sortes. Voltou a pgina, e
recitou um ttulo: 'Se algum lhe ama em segredo.' Movimento
geral; moas e rapazes sorriram uns para os outros. Estamos na noite de So
Joo de 1854, e a casa  na Rua das Mangueiras. Chama-se Joo o dono da casa,
Joo Viegas, e tem uma filha, Joaninha. Usa-se todos os anos a mesma reunio de
parentes e amigos, arde uma fogueira no quintal, assam-se as batatas do
costume, e tiram-se sortes. Tambm h ceia, s vezes dana, e algum jogo de
prendas, tudo familiar. Joo Viegas  escrivo de uma vara cvel da Corte.

 Vamos. Quem comea agora? disse ele. H de ser D.
Felismina. Vamos ver se algum lhe ama em segredo.

D. Felismina sorriu amarelo. Era uma boa quarentona, sem
prendas nem rendas, que vivia espiando um marido por baixo das plpebras
devotas. Em verdade, o gracejo era duro, mas natural. D. Felismina era o modelo
acabado daquelas criaturas indulgentes e mansas, que parecem ter nascido para
divertir os outros. Pegou e lanou os dados com um ar de complacncia
incrdula. Nmero dez, bradaram duas vozes. Rangel desceu os olhos ao baixo da
pgina, viu a quadra correspondente ao nmero, e leu-a: dizia que sim, que
havia uma pessoa, que ela devia procurar domingo, na igreja, quando fosse 
missa. Toda a mesa deu parabns a D. Felismina, que sorriu com desdm, mas
interiormente esperanada.

Outros pegaram nos dados, e Rangel continuou a ler a sorte
de cada um. Lia espevitadamente. De quando em quando, tirava os culos e
limpava-os com muito vagar na ponta do leno de cambraia,  ou por ser
cambraia,  ou por exalar um fino cheiro de bogari. Presumia de grande maneira,
e ali chamavam-lhe 'o diplomtico'.

 Ande, seu diplomtico, continue.

Rangel estremeceu; esquecera-se de ler uma sorte, embebido
em percorrer a fila de moas que ficava do outro lado da mesa. Namorava alguma?
Vamos por partes.

Era solteiro, por obra das circunstncias, no de vocao.
Em rapaz teve alguns namoricos de esquina, mas com o tempo apareceu-lhe a
comicho das grandezas, e foi isto que lhe prolongou o celibato at os quarenta
e um anos, em que o vemos. Cobiava alguma noiva superior a ele e  roda em que
vivia, e gastou o tempo em esper-la. Chegou a freqentar os bailes de um
advogado clebre e rico, para quem copiava papis, e que o protegia muito.
Tinha nos bailes a mesma posio subalterna do escritrio; passava a noite
vagando pelos corredores, espiando o salo, vendo passar as senhoras, devorando
com os olhos uma multido de espduas magnficas e talhes graciosos. Invejava
os homens, e copiava-os. Saa dali excitado e resoluto. Em falta de bailes, ia
s festas de igreja, onde poderia ver algumas das primeiras moas da cidade.
Tambm era certo no saguo do pao imperial, em dia de cortejo, para ver entrar
as grandes damas e as pessoas da corte, ministros, generais, diplomatas,
desembargadores, e conhecia tudo e todos, pessoas e carruagens. Voltava da
festa e do cortejo, como voltava do baile, impetuoso, ardente, capaz de
arrebatar de um lance a palma da fortuna.

O pior  que entre a espiga e a mo h o tal muro do
poeta, e o Rangel no era homem de saltar muros. De imaginao fazia tudo,
raptava mulheres e destrua cidades. Mais de uma vez foi, consigo mesmo,
ministro de Estado, e fartou-se de cortesias e decretos. Chegou ao extremo de
aclamar-se imperador, um dia, 2 de dezembro, ao voltar da parada no largo do
Pao; imaginou para isso uma revoluo, em que derramou algum sangue, pouco, e
uma ditadura benfica, em que apenas vingou alguns pequenos desgostos de
escrevente. C fora, porm, todas as suas proezas eram fbulas. Na realidade,
era pacato e discreto.

Aos quarenta anos desenganou-se das ambies; mas a ndole
ficou a mesma, e, no obstante a vocao conjugal, no achou noiva. Mais de uma
o aceitaria com muito prazer; ele perdia-as todas  fora de circunspeco. Um
dia, reparou em Joaninha, que chegava aos dezenove anos e possua um par de
olhos lindos e sossegados,  virgens de toda a conversao masculina. Rangel
conhecia-a desde criana, andara com ela ao colo, no Passeio Pblico, ou nas
noites de fogo da Lapa; como falar-lhe de amor? Mas, por outro lado, as
relaes dele na casa eram tais, que podiam facilitar-lhe o casamento; e, ou
este ou nenhum outro.

Desta vez, o muro no era alto, e a espiga era baixinha;
bastava esticar o brao com algum esforo, para arranc-la do p. Rangel andava
neste trabalho desde alguns meses. No esticava o brao, sem espiar primeiro
para todos os lados, a ver se vinha algum, e, se vinha algum, disfarava e
ia-se embora. Quando chegava a estic-lo, acontecia que uma lufada de vento
meneava a espiga ou algum passarinho andava ali nas folhas secas, e no era
preciso mais para que ele recolhesse a mo. Ia-se assim o tempo, e a paixo
entranhava-se-lhe, causa de muitas horas de angstia, a que seguiam sempre
melhores esperanas. Agora mesmo traz ele a primeira carta de amor, disposto a
entreg-la. J teve duas ou trs ocasies boas, mas vai sempre espaando; a
noite  to comprida! Entretanto, continua a ler as sortes, com a solenidade de
um ugure.

Tudo, em volta,  alegre. Cochicham ou riem, ou falam ao
mesmo tempo. O tio Rufino, que  o gaiato da famlia, anda  roda da mesa com
uma pena, fazendo ccegas nas orelhas das moas. Joo Viegas est ansioso por
um amigo, que se demora, o Calisto. Onde se meteria o Calisto?

 Rua, rua, preciso da mesa; vamos para a sala de visitas.

Era D. Adelaide que tornava; ia pr-se a mesa para a ceia.
Toda a gente emigrou, e andando  que se podia ver bem como era graciosa a
filha do escrivo. Rangel acompanhou-a com grandes olhos namorados. Ela foi 
janela, por alguns instantes, enquanto se preparava um jogo de prendas, e ele
foi tambm; era a ocasio de entregar-lhe a carta.

Defronte, numa casa grande, havia um baile, e danava-se.
Ela olhava, ele olhou tambm. Pelas janelas viam passar os pares, cadenciados,
as senhoras com as suas sedas e rendas, os cavalheiros finos e elegantes,
alguns condecorados. De quando em quando, uma fasca de diamantes, rpida,
fugitiva, no giro da dana. Pares que conversavam, dragonas que reluziam,
bustos de homem inclinados, gestos de leques, tudo isso em pedaos, atravs das
janelas, que no podiam mostrar todo o salo, mas adivinhava-se o resto. Ele ao
menos conhecia tudo, e dizia tudo  filha do escrivo. O demnio das grandezas,
que parecia dormir, entrou a fazer as suas arlequinadas no corao do nosso
homem, e ei-lo que tenta seduzir tambm o corao da outra.

 Conheo uma pessoa que estaria ali muito bem, murmurou o
Rangel.

E Joaninha, com ingenuidade:

 Era o senhor.

Rangel sorriu lisonjeado, e no achou que dizer. Olhou
para os lacaios e cocheiros, de libr, na rua, conversando em grupos ou
reclinados no tejadilho dos carros. Comeou a designar carros: este  do
Olinda, aquele  do Maranguape; mas a vem outro, rodando, do lado da Rua da
Lapa, e entra na Rua das Mangueiras. Parou defronte: salta o lacaio, abre a
portinhola, tira o chapu e perfila-se. Sai de dentro uma calva, uma cabea, um
homem, duas comendas, depois uma senhora ricamente vestida; entram no saguo, e
sobem a escadaria, forrada de tapete e ornada embaixo com dois grandes vasos.

 Joaninha, Sr. Rangel...

Maldito jogo de prendas! Justamente quando ele formulava,
na cabea, uma insinuao a propsito do casal que subia, e ia assim passar
naturalmente  entrega da carta... Rangel obedeceu, e sentou-se defronte da
moa. D. Adelaide, que dirigia o jogo de prendas, recolhia os nomes; cada
pessoa devia ser uma flor. Est claro que o tio Rufino, sempre gaiato, escolheu
para si a flor da abbora. Quanto ao Rangel, querendo fugir ao trivial,
comparou mentalmente as flores, e quando a dona da casa lhe perguntou pela dele,
respondeu com doura e pausa:

 Maravilha, minha senhora.

 O pior  no estar c o Calisto! suspirou o escrivo.

 Ele disse mesmo que vinha?

 Disse; ainda ontem foi ao cartrio, de propsito,
avisar-me de que viria tarde, mas que contasse com ele; tinha de ir a uma
brincadeira na Rua da Carioca...

 Licena para dois! bradou uma voz no corredor.

 Ora graas! est a o homem!

Joo Viegas foi abrir a porta; era o Calisto, acompanhado de
um rapaz estranho, que ele apresentou a todos em geral:  'Queirs,
empregado na Santa Casa; no  meu parente, apesar de se parecer muito comigo;
quem v um, v outro...' Toda a gente riu; era uma pilhria do Calisto,
feio como o diabo,  ao passo que o Queirs era um bonito rapaz de vinte e seis
a vinte e sete anos, cabelo negro, olhos negros e singularmente esbelto. As
moas retraram-se um pouco; D. Felismina abriu todas as velas.

 Estvamos jogando prendas, os senhores podem entrar
tambm, disse a dona da casa. Joga, Sr. Queirs?

Queirs respondeu afirmativamente e passou a examinar as
outras pessoas. Conhecia algumas, e trocou duas ou trs palavras com elas. Ao
Joo Viegas disse que desde muito tempo desejava conhec-lo, por causa de um
favor que o pai lhe deveu outrora, negcio de foro. Joo Viegas no se lembrava
de nada, nem ainda depois que ele lhe disse o que era; mas gostou de ouvir a
notcia, em pblico, olhou para todos, e durante alguns minutos regalou-se
calado.

Queirs entrou em cheio no jogo. No fim de meia hora,
estava familiar da casa. Todo ele era ao, falava com desembarao, tinha os
gestos naturais e espontneos. Possua um vasto repertrio de castigos para
jogo de prendas, coisa que encantou a toda a sociedade, e ningum os dirigia
melhor, com tanto movimento e animao, indo de um lado para outro, concertando
os grupos, puxando cadeiras, falando s moas, como se houvesse brincado com
elas em criana.

 D. Joaninha aqui, nesta cadeira; D. Cesria, deste lado,
em p, e o Sr. Camilo entra por aquela porta... Assim, no: olhe, assim de
maneira que...

Teso na cadeira, o Rangel estava atnito. Donde vinha esse
furaco? E o furaco ia soprando, levando os chapus dos homens, e despenteando
as moas, que riam de contentes: Queirs daqui, Queirs dali, Queirs de todos
os lados. Rangel passou da estupefao  mortificao. Era o cetro que lhe caa
das mos. No olhava para o outro, no se ria do que ele dizia, e respondia-lhe
seco. Interiormente, mordia-se e mandava-o ao diabo, chamava-o bobo alegre, que
fazia rir e agradava, porque nas noites de festa tudo  festa. Mas, repetindo
essas e piores coisas, no chegava a reaver a liberdade de esprito. Padecia
deveras, no mais ntimo do amor-prprio; e o pior  que o outro percebeu toda
essa agitao, e o pssimo  que ele percebeu que era percebido.

Rangel, assim como sonhava os bens, assim tambm as
vinganas. De cabea, espatifou o Queirs; depois cogitou a possibilidade de um
desastre qualquer, uma dor bastava, mas coisa forte, que levasse dali aquele
intruso. Nenhuma dor, nada; o diabo parecia cada vez mais lpido, e toda a sala
fascinada por ele. A prpria Joaninha, to acanhada, vibrava nas mos de
Queirs, como as outras moas; e todos, homens e mulheres, pareciam empenhados
em servi-lo. Tendo ele falado em danar, as moas foram ter com o tio Rufino, e
pediram-lhe que tocasse uma quadrilha na flauta, uma s, no se lhe pedia mais.

 No posso, di-me um calo.

 Flauta? bradou o Calisto. Peam ao Queirs que nos toque
alguma coisa, e vero o que  flauta... Vai buscar a flauta, Rufino. Ouam o
Queirs. No imaginam como ele  saudoso na flauta!

Queirs tocou a Casta Diva. Que coisa ridcula!
dizia consigo o Rangel;  uma msica que at os moleques assobiam na rua.
Olhava para ele, de revs, para considerar se aquilo era posio de homem
srio; e conclua que a flauta era um instrumento grotesco. Olhou tambm para
Joaninha, e viu que, como todas as outras pessoas, tinha a ateno no Queirs,
embebida, namorada dos sons da msica, e estremeceu, sem saber por qu. Os
demais semblantes mostravam a mesma expresso dela, e, contudo, sentiu alguma
coisa que lhe complicou a averso ao intruso. Quando a flauta acabou, Joaninha
aplaudiu menos que os outros, e Rangel entrou em dvida se era o habitual
acanhamento, se alguma especial comoo... Urgia entregar-lhe a carta.

Chegou a ceia. Toda a gente entrou confusamente na sala, e
felizmente para o Rangel, coube-lhe ficar defronte de Joaninha, cujos olhos
estavam mais belos que nunca e to derramados, que no pareciam os do costume.
Rangel saboreou-os caladamente, e reconstruiu todo o seu sonho que o diabo do
Queirs abalara com um piparote. Foi assim que tornou a ver-se, ao lado dela,
na casa que ia alugar, bero de noivos, que ele enfeitou com os ouros da
imaginao. Chegou a tirar um prmio na loteria e a empreg-lo todo em sedas e
jias para a mulher, a linda Joaninha,  Joaninha Rangel,  D. Joaninha Rangel,
 D. Joana Viegas Rangel,  ou D. Joana Cndida Viegas Rangel... No podia
tirar o Cndida...

 Vamos, uma sade, seu diplomtico... faa uma
sade daquelas...

Rangel acordou; a mesa inteira repetia a lembrana do tio
Rufino; a prpria Joaninha pedia-lhe uma sade, como a do ano passado. Rangel
respondeu que ia obedecer; era s acabar aquela asa de galinha. Movimento,
cochichos de louvor; D. Adelaide, dizendo-lhe uma moa que nunca ouvira falar o
Rangel:

 No? perguntou com pasmo. No imagina; fala muito bem,
muito explicado, palavras escolhidas, e uns bonitos modos...

Comendo, ia ele dando rebate a algumas reminiscncias,
frangalhos de idias, que lhe serviam para o arranjo das frases e metforas.
Acabou e ps-se de p. Tinha o ar satisfeito e cheio de si. Afinal, vinham
bater-lhe  porta. Cessara a farandolagem das anedotas, das pilhrias sem alma,
e vinham ter com ele para ouvir alguma coisa correta e grave. Olhou em
derredor, viu todos os olhos levantados, esperando. Todos no; os de Joaninha
enviesavam-se na direo do Queirs, e os deste vinham esper-los a meio
caminho, numa cavalgada de promessas. Rangel empalideceu. A palavra morreu-lhe
na garganta; mas era preciso falar, esperavam por ele, com simpatia, em
silncio.

Obedeceu mal. Era justamente um brinde ao dono da casa e 
filha. Chamava a esta um pensamento de Deus, transportado da imortalidade 
realidade, frase que empregara trs anos antes, e devia estar esquecida. Falava
tambm do santurio da famlia, do altar da amizade, e da gratido, que  a
flor dos coraes puros. Onde no havia sentido, a frase era mais especiosa ou
retumbante. Ao todo, um brinde de dez minutos bem puxados, que ele despachou em
cinco, e sentou-se.

No era tudo. Queirs levantou-se logo, dois ou trs
minutos depois para outro brinde, e o silncio foi ainda mais pronto e
completo. Joaninha meteu os olhos no regao, vexada do que ele iria dizer;
Rangel teve um arrepio.

 O ilustre amigo desta casa, o Sr. Rangel  disse
Queirs,  bebeu s duas pessoas cujo nome  o do santo de hoje; eu bebo quela
que  a santa de todos os dias, a D. Adelaide.

Grandes aplausos aclamaram esta lembrana, e D. Adelaide,
lisonjeada, recebeu os cumprimentos de cada conviva. A filha no ficou em
cumprimentos.  Mame! mame! exclamou, levantando-se; e foi abra-la e beij-la
trs e quatro vezes;  espcie de carta para ser lida por duas pessoas.

Rangel passou da clera ao desnimo, e, acabada a ceia,
pensou em retirar-se. Mas a esperana, demnio de olhos verdes, pediu-lhe que ficasse,
e ficou. Quem sabe? Era tudo passageiro, coisas de uma noite, namoro de So
Joo; afinal, ele era amigo da casa, e tinha a estima da famlia; bastava que
pedisse a moa, para obt-la. E depois esse Queirs podia no ter meios de
casar. Que emprego era o dele na Santa Casa? Talvez alguma coisa reles...
Nisto, olhou obliquamente para a roupa de Queirs, enfiou-se-lhe pelas
costuras, escrutou o bordadinho da camisa, apalpou os joelhos das calas, a
ver-lhe o uso, e os sapatos, e concluiu que era um rapaz caprichoso, mas
provavelmente gastava tudo consigo, e casar era negcio srio. Podia ser tambm
que tivesse me viva, irms solteiras... Rangel era s.

 Tio Rufino, toque uma quadrilha.

 No posso; flauta depois de comer faz indigesto. Vamos
a um vspora.

Rangel declarou que no podia jogar, estava com dor de
cabea; mas Joaninha veio a ele e pediu-lhe que jogasse com ela, de sociedade.
 'Meia coleo para o senhor, e meia para mim', disse ela, sorrindo;
ele sorriu tambm e aceitou. Sentaram-se ao p um do outro. Joaninha
falava-lhe, ria, levantava para ele os belos olhos, inquieta, mexendo muito a
cabea para todos os lados. Rangel sentiu-se melhor, e no tardou que se
sentisse inteiramente bem. Ia marcando  toa, esquecendo alguns nmeros, que
ela lhe apontava com o dedo,  um dedo de ninfa, dizia ele consigo; e os
descuidos passaram a ser de propsito, para ver o dedo da moa, e ouvi-la
ralhar: 'O senhor  muito esquecido; olhe que assim perdemos o nosso
dinheiro...'

Rangel pensou em entregar-lhe a carta por baixo da mesa;
mas no estando declarados, era natural que ela a recebesse com espanto e
estragasse tudo; cumpria avis-la. Olhou em volta da mesa: todos os rostos
estavam inclinados sobre os cartes, seguindo atentamente os nmeros. Ento,
ele inclinou-se  direita, e baixou os olhos aos cartes de Joaninha, como para
verificar alguma coisa.

 J tem duas quadras, cochichou ele.

 Duas, no; tenho trs.

 Trs,  verdade, trs. Escute...

 E o senhor?

 Eu duas.

 Que duas o qu? So quatro.

Eram quatro; ela mostrou-lhas inclinada, roando quase a
orelha pelos lbios dele; depois, fitou-o rindo e abanando a cabea: 'O
senhor! o senhor!' Rangel ouviu isto com singular deleite; a voz era to
doce, e a expresso to amiga, que ele esqueceu tudo, agarrou-a pela cintura, e
lanou-se com ela na eterna valsa das quimeras. Casa, mesa, convivas, tudo
desapareceu, como obra v da imaginao, para s ficar a realidade nica, ele e
ela, girando no espao, debaixo de um milho de estrelas, acesas de propsito
para alumi-los.

Nem carta, nem nada. Perto da manh foram todos para a
janela ver sair os convidados do baile fronteiro. Rangel recuou espantado. Viu
um aperto de dedos entre o Queirs e a bela Joaninha. Quis explic-lo, eram
aparncias, mas to depressa destrua uma como vinham outras e outras, 
maneira das ondas que no acabam mais. Custava-lhe entender que uma s noite,
algumas horas bastassem a ligar assim duas criaturas; mas era a verdade clara e
viva dos modos de ambos, dos olhos, das palavras, dos risos, e at da saudade
com que se despediram de manh.

Saiu tonto. Uma s noite, algumas horas apenas! Em casa,
aonde chegou tarde, deitou-se na cama, no para dormir, mas para romper em soluos.
S consigo, foi-se-lhe o aparelho da afetao, e j no era o diplomtico, era
o energmeno, que rolava na cama, bradando, chorando como uma criana, infeliz
deveras, por esse triste amor do outono. O pobre-diabo, feito de devaneio,
indolncia e afetao, era, em substncia, to desgraado como Otelo, e teve um
desfecho mais cruel.

Otelo mata Desdmona; o nosso namorado, em quem ningum
pressentira nunca a paixo encoberta, serviu de testemunha ao Queirs, quando
este se casou com Joaninha, seis meses depois.

Nem os acontecimentos, nem os anos lhe mudaram a ndole.
Quando rompeu a guerra do Paraguai, teve idia muitas vezes de alistar-se como
oficial de voluntrios; no o fez nunca; mas  certo que ganhou algumas
batalhas e acabou brigadeiro.

MARIANA

NDICE

Captulo Primeiro

Captulo II

Captulo iii

CAPTULO PRIMEIRO

'Que ser feito de Mariana?' perguntou Evaristo
a si mesmo, no largo da Carioca, ao despedir-se de um velho amigo, que lhe fez
lembrar aquela velha amiga.

Era em 1890. Evaristo voltara da Europa, dias antes, aps
dezoito anos de ausncia. Tinha sado do Rio de Janeiro em 1872, e contava
demorar-se at 1874 ou 1875, depois de ver algumas cidades clebres ou
curiosas; mas o viajante pe e Paris dispe. Uma vez entrando naquele mundo, em
1873, Evaristo deixou-se ir ficando, alm do prazo determinado; adiou a viagem
um ano, outro ano, e afinal no pensou mais na volta. Desinteressara-se das
nossas coisas; ultimamente nem lia os jornais daqui; era um estudante pobre da
Bahia, que os ia buscar emprestados, e lhe referia depois uma ou outra notcia
de vulto. Seno quando, em novembro de 1889, entra-lhe em casa um reprter
parisiense, que lhe fala de revoluo no Rio de Janeiro, pede informaes
polticas, sociais, biogrficas. Evaristo refletiu.

 Meu caro senhor, disse ao reprter, acho melhor ir eu
mesmo busc-las.

No tendo partido, nem opinies, nem parentes prximos,
nem interesses (todos os seus haveres estavam na Europa), mal se explica a
resoluo sbita de Evaristo pela simples curiosidade, e contudo no houve
outro motivo. Quis ver o novo aspecto das coisas. Indagou da data de uma
primeira representao no Odon, comdia de um amigo, calculou que,
saindo no primeiro paquete e voltando trs paquetes depois, chegaria a tempo de
comprar bilhete e entrar no teatro; fez as malas, correu a Bordus, e embarcou.

'Que ser feito de Mariana? repetia agora, descendo a
Rua da Assemblia. Talvez morta... Se ainda viver, deve estar outra; h de
andar pelos seus quarenta e cinco... Upa! quarenta e oito; era mais moa que eu
uns cinco anos. Quarenta e oito... Bela mulher; grande mulher! belos e grandes
amores!'

Teve desejo de v-la. Indagou discretamente, soube que
vivia e morava na mesma casa em que a deixou, Rua do Engenho Velho; mas no
aparecia desde alguns meses, por causa do marido, que estava mal, parece que 
morte.

 Ela tambm deve estar escangalhada, disse Evaristo ao
conhecido que lhe dava aquelas informaes.

 Homem, no. A ltima vez que a vi, achei-a frescalhona.
No se lhe d mais de quarenta anos. Voc quer saber uma coisa? H por a
roseiras magnficas, mas os nossos cedros de 1860 a 1865 parece que no nascem
mais.

 Nascem; voc no os v, porque j no sobe ao Lbano,
retorquiu Evaristo.

Crescera-lhe o desejo de ver Mariana. Que olhos teriam um para
o outro? Que vises antigas viriam transformar a realidade presente? A viagem
de Evaristo, cumpre sab-lo, no foi de recreio, seno de cura. Agora que a lei
do tempo fizera sua obra, que efeito produziria neles, quando se encontrassem,
o espectro de 1872, aquele triste ano da separao que quase o ps doido, e
quase a deixou morta?

CAPTULO II

Dias depois apeava-se ele de um tlburi  porta de
Mariana, e dava um carto ao criado, que lhe abriu a sala.

Enquanto esperava circulou os olhos e ficou impressionado.
Os mveis eram os mesmos de dezoito anos antes. A memria, incapaz de os
recompor na ausncia, reconheceu-os a todos, assim como a disposio deles, que
no mudara. Tinham o aspecto vetusto. As prprias flores artificiais de uma
grande jarra, que estava sobre um aparador, haviam desbotado com o tempo. Tudo
ossos dispersos, que a imaginao podia enfaixar para restaurar uma figura, a
que s faltasse a alma.

Mas no faltava a alma. Pendente da parede, por cima do
canap, estava o retrato de Mariana. Tinha sido pintado quando ela contava
vinte e cinco anos; a moldura, dourada uma s vez, descascando em alguns
lugares, contrastava com a figura ridente e fresca. O tempo no descolara a
formosura. Mariana estava ali, trajada  moda de 1865, com os seus lindos olhos
redondos e namorados. Era o nico alento vivo da sala; mas s ele bastava a dar
 decrepitude ambiente a fugidia mocidade. Grande foi a comoo de Evaristo.
Havia uma cadeira defronte do retrato, ele sentou-se nela, e ficou a mirar a
moa de outro tempo. Os olhos pintados fitavam tambm os naturais, porventura
admirados do encontro e da mudana, porque os naturais no tinham o calor e a
graa da pintura. Mas pouco durou a diferena; a vida anterior do homem
restituiu-lhe a verdura exterior, e os olhos embeberam-se uns nos outros, e
todos nos seus velhos pecados.

Depois, vagarosamente, Mariana desceu da tela e da
moldura, e veio sentar-se defronte de Evaristo, inclinou-se, estendeu os braos
sobre os joelhos e abriu as mos. Evaristo entregou-lhes as suas, e as quatro
apertaram-se cordialmente. Nenhum perguntou nada que se referisse ao passado,
porque ainda no havia passado; ambos estavam no presente, as horas tinham
parado, to instantneas e to fixas, que pareciam haver sido ensaiadas na
vspera para esta representao nica e interminvel. Todos os relgios da
cidade e do mundo quebraram discretamente as cordas, e todos os relojoeiros
trocaram de ofcio. Adeus, velho lago de Lamartine! Evaristo e Mariana
tinham ancorado no oceano dos tempos. E a vieram as palavras mais doces que
jamais disseram lbios de homem nem de mulher, e as mais ardentes tambm, e as
mudas, e as tresloucadas, e as expirantes, e as de cime, e as de perdo.

 Ests bom?

 Bom; e tu?

 Morria por ti. H uma hora que te espero, ansiosa, quase
chorando; mas bem vs que estou risonha e alegre, tudo porque o melhor dos
homens entrou nesta sala. Por que te demoraste tanto?

 Tive duas interrupes em caminho; e a segunda muito
maior que a primeira.

 Se tu me amasses deveras, gastarias dois minutos com as
duas, e estarias aqui h trs quartos de hora. Que riso  esse?

 A segunda interrupo foi teu marido.

Mariana estremeceu.

 Foi aqui perto, continuou Evaristo; falamos de ti, ele
primeiro, a propsito no sei de qu, e falou com bondade, quase que com
ternura. Cheguei a crer que era um lao, um modo de captar a minha confiana.
Afinal despedimo-nos; mas eu ainda fiquei espiando, a ver se ele voltava; no
vi ningum. A est a causa da minha demora; a tens tambm a causa dos meus
tormentos.

 No venhas outra vez com essa eterna desconfiana,
atalhou Mariana sorrindo, como na tela, h pouco. Que quer voc que eu faa?
Xavier  meu marido; no hei de mand-lo embora, nem castig-lo, nem mat-lo,
s porque eu e voc nos amamos.

 No digo que o mates; mas tu o amas, Mariana.

 Amo-te e a ningum mais, respondeu ela, evitando assim a
resposta negativa, que lhe pareceu demasiado crua.

Foi o que pensou Evaristo; mas no aceitou a delicadeza da
forma indireta. S a negativa rude e simples poderia content-lo.

 Tu o amas, insistiu ele.

Mariana refletiu um instante.

 Para que hs de revolver a minha alma e o meu passado? disse
ela. Para ns, o mundo comeou h quatro meses, e no acabar mais  ou acabar
quando voc se aborrecer de mim, porque eu no mudarei nunca...

Evaristo ajoelhou-se, puxou-lhe os braos, beijou-lhe as
mos, e fechou nelas o rosto; finalmente, deixou cair a cabea nos joelhos de
Mariana. Ficaram assim alguns instantes, at que ela sentiu os dedos midos,
ergueu-lhe a cabea e viu-lhe os olhos rasos de gua. Que era?

 Nada, disse ele; adeus.

 Mas que foi?!

 Tu o amas, tornou Evaristo, e esta idia apavora-me, ao
mesmo tempo que me aflige, porque eu sou capaz de mat-lo, se tiver certeza de
que ainda o amas.

 Voc  um homem singular, retorquiu Mariana, depois de
enxugar os olhos de Evaristo com os cabelos, que despenteara s pressas, para
servi-lo com o melhor leno do mundo. Que o amo? No, j no o amo, a tens a
resposta. Mas j agora hs de consentir que te diga tudo, porque a minha ndole
no admite meias confidncias.

Desta vez foi Evaristo que estremeceu; mas a curiosidade
mordia-lhe a ele o corao, em tal maneira, que no houve mais temer, seno
aguardar e escutar. Apoiado nos joelhos dela, ouviu a narrao, que foi curta.
Mariana referiu o casamento, a resistncia do pai, a dor da me, e a perseverana
dela e de Xavier. Esperaram dez meses, firmes, ela j menos paciente que ele,
porque a paixo que a tomou tinha toda a fora necessria para as decises
violentas. Que de lgrimas verteu por ele! Que de maldies lhe saram do
corao contra os pais, e foram sufocadas por ela, que temia a Deus, e no
quisera que essas palavras, como armas de parricdio, a condenassem, pior que
ao inferno,  eterna separao do homem a quem amava. Venceu a constncia, o
tempo desarmou os velhos, e o casamento se fez, l se iam sete anos. A paixo
dos noivos prolongou-se na vida conjugal. Quando o tempo trouxe o sossego,
trouxe tambm a estima. Os coraes eram harmnicos, as recordaes da luta
pungentes e doces. A felicidade serena veio sentar-se  porta deles, como uma
sentinela. Mas bem depressa se foi a sentinela; no deixou a desgraa, nem
ainda o tdio, mas a apatia, uma figura plida, sem movimento, que mal sorria e
no lembrava nada. Foi por esse tempo que Evaristo apareceu aos seus olhos e a
arrebatou. No a arrebatou ao amor de ningum; mas por isso mesmo nada tinha
que ver com o passado, que era um mistrio, e podia trazer remorsos...

 Remorsos? interrompeu ele.

 Podias supor que eu os tinha; mas no os tenho, nem os
terei jamais.

 Obrigado! disse Evaristo aps alguns momentos;
agradeo-te a confisso. No falarei mais de tal assunto. No o amas,  o
essencial. Que linda s tu quando juras assim, e me falas do nosso futuro! Sim,
acabou; agora aqui estou, ama-me!

 S a ti, querido.

 S a mim? Ainda uma vez, jura!

 Por estes olhos, respondeu ela, beijando-lhe os olhos;
por estes lbios, continuou, impondo-lhe um beijo nos lbios. Pela minha vida e
pela tua!

Evaristo repetiu as mesmas frmulas, com iguais
cerimnias. Depois, sentou-se defronte de Mariana como estava a princpio. Ela
ergueu-se ento, por sua vez, e foi ajoelhar-se-lhe aos ps, com os braos nos
joelhos dele. Os cabelos cados enquadravam to bem o rosto, que ele sentiu no
ser um gnio para copi-la e leg-la ao mundo. Disse-lhe isso, mas a moa no
respondeu palavra; tinha os olhos fitos nele, suplicantes. Evaristo
inclinou-se, cravando nela os seus, e assim ficaram, rosto a rosto, uma, duas,
trs horas, at que algum veio acord-los:

 Faz favor de entrar.

CAPTULO III

Evaristo teve um sobressalto. Deu com um homem, o mesmo
criado que recebera o seu carto de visita. Levantou-se depressa; Mariana
recolheu-se  tela, que pendia da parede, onde ele a viu outra vez, trajada 
moda de 1865, penteada e tranqila. Como nos sonhos, os pensamentos, gestos e
atos mediram-se por outro tempo, que no o tempo; fez-se tudo em cinco ou seis
minutos, que tantos foram os que o criado despendeu em levar o carto e trazer
o convite. Entretanto,  certo que Evaristo sentia ainda a impresso das
carcias da moa, vivera realmente entre 1869 e 1872, porque as trs horas da
viso foram ainda uma concesso ao tempo. Toda a histria ressurgira com os
cimes que ele tinha de Xavier, os seus perdes e as ternuras recprocas. S
faltou a crise final, quando a me de Mariana, sabendo de tudo, corajosamente
se interps e os separou. Mariana resolveu morrer, chegou a ingerir veneno, e
foi preciso o desespero da me para restitu-la  vida. Xavier que ento estava
na provncia do Rio, nada soube daquela tragdia, seno que a mulher escapara
da morte, por causa de uma troca de medicamentos. Evaristo quis ainda v-la
antes de embarcar, mas foi impossvel.

 Vamos, disse ele agora ao criado que o esperava.

Xavier estava no gabinete prximo, estirado em um canap,
com a mulher ao lado e algumas visitas. Evaristo penetrou ali cheio de comoo.
A luz era pouca, o silncio grande; Mariana tinha presa uma das mos do
enfermo, a observ-lo, a temer a morte ou uma crise. Mal pde levantar os olhos
para Evaristo e estender-lhe a mo; voltou a fitar o marido, em cujo rosto
havia a marca do longo padecimento, e cujo respirar parecia o preldio da
grande pera infinita. Evaristo, que apenas vira o rosto de Mariana, retirou-se
a um canto, sem ousar mirar-lhe a figura, nem acompanhar-lhe os movimentos.
Chegou o mdico, examinou o enfermo, recomendou as prescries dadas, e
retirou-se para voltar de noite. Mariana foi com ele at  porta, interrogando
baixo e procurando ler no rosto a verdade que a boca no queria dizer. Foi
ento que Evaristo a viu bem; a dor parecia alquebr-la mais que os anos.
Conheceu-lhe o jeito particular do corpo. No descia da tela, como a outra, mas
do tempo. Antes que ela tornasse ao leito do marido, Evaristo entendeu
retirar-se tambm, e foi at a porta.

 Peo-lhe licena... Sinto no poder falar agora a seu
marido.

 Agora no pode ser; o mdico recomenda repouso e
silncio. Ser noutra ocasio...

 No vim h mais tempo v-lo porque s h pouco  que
soube... E no cheguei h muito.

 Obrigada.

Evaristo estendeu-lhe a mo e saiu a passo abafado,
enquanto ela voltava a sentar-se ao p do doente. Nem os olhos nem a mo de
Mariana revelaram em relao a ele uma impresso qualquer, e a despedida fez-se
como entre pessoas indiferentes. Certo, o amor acabara, a data era remota, o
corao envelhecera com o tempo, e o marido estava a expirar; mas, refletia
ele, como explicar que, ao cabo de dezoito anos de separao, Mariana visse
diante de si um homem que tanta parte tivera em sua vida, sem o menor abalo,
espanto, constrangimento que fosse? Eis a um mistrio. Chamava-lhe mistrio.
Ainda agora,  despedida, sentira ele um aperto, uma coisa, que lhe fez a
palavra trpega, que lhe tirou as idias e at as simples frmulas banais de
pesar e de esperana. Ela, entretanto, no recebeu dele a menor comoo. E
lembrando-se do retrato da sala, Evaristo concluiu que a arte era superior 
natureza; a tela guardara o corpo e a alma... Tudo isso borrifado de um
despeitozinho acre.

Xavier durou ainda uma semana. Indo fazer-lhe segunda
visita, Evaristo assistiu  morte do enfermo, e no pde furtar-se  comoo
natural do momento, do lugar e das circunstncias. Mariana, desgrenhada ao p
do leito, tinha os olhos mortos de viglia e de lgrimas. Quando Xavier, depois
de longa agonia, expirou, mal se ouviu o choro de alguns parentes e amigos; um
grito agudssimo de Mariana chamou a ateno de todos; depois o desmaio e a
queda da viva. Durou alguns minutos a perda dos sentidos; tornada a si,
Mariana correu ao cadver, abraou-se a ele, soluando desesperadamente,
dizendo-lhe os nomes mais queridos e ternos. Tinham esquecido de fechar os
olhos ao cadver; da um lance pavoroso e melanclico, porque ela, depois de os
beijar muito, foi tomada de alucinao e bradou que ele ainda vivia, que estava
salvo; e, por mais que quisessem arranc-la dali, no cedia, empurrava a todos,
clamava que queriam tirar-lhe o marido. Nova crise a prostrou; foi levada s
carreiras para outro quarto.

Quando o enterro saiu no dia seguinte, Mariana no estava
presente, por mais que insistisse em despedir-se; j no tinha foras para
acudir  vontade. Evaristo acompanhou o enterro. Seguindo o carro fnebre, mal
chegava a crer onde estava e o que fazia. No cemitrio, falou a um dos parentes
de Xavier, confiando-lhe a pena que tivera de Mariana.

 V-se que se amavam muito, concluiu.

 Ah! muito, disse o parente. Casaram-se por paixo; no
assisti ao casamento, porque s cheguei ao Rio de Janeiro muitos anos depois, em
1874; achei-os, porm, to unidos como se fossem noivos, e assisti at agora 
vida de ambos. Viviam um para o outro; no sei se ela ficar muito tempo neste
mundo.

'1874', pensou Evaristo; 'dois anos
depois'.

Mariana no assistiu  missa do stimo dia; um parente, 
o mesmo do cemitrio,  representava-a naquela triste ocasio. Evaristo soube
por ele que o estado da viva no lhe permitia arriscar-se  comemorao da
catstrofe. Deixou passar alguns dias, e foi fazer a sua visita de psames;
mas, tendo dado o carto, ouviu que ela no recebia ningum. Foi ento a So
Paulo, voltou cinco ou seis semanas depois, preparou-se para embarcar; antes de
partir, pensou ainda em visitar Mariana,  no tanto por simples cortesia, como
para levar consigo a imagem,  deteriorada embora,  daquela paixo de quatro
anos.

No a encontrou em casa. Voltava zangado, mal consigo,
achava-se impertinente e de mau gosto. A pouca distncia viu sair da igreja do
Esprito Santo uma senhora de luto, que lhe pareceu Mariana. Era Mariana; vinha
a p; ao passar pela carruagem olhou para ele, fez que o no conhecia, e foi
andando, de modo que o cumprimento de Evaristo ficou sem resposta. Este ainda
quis mandar parar o carro e despedir-se dela, ali mesmo, na rua, um minuto,
trs palavras; como, porm, hesitasse na resoluo, s parou quando j havia
passado a igreja, e Mariana ia um grande pedao adiante. Apeou-se, no
obstante, e desandou o caminho; mas, fosse respeito ou despeito, trocou de
resoluo, meteu-se no carro e partiu.

 Trs vezes sincera, concluiu, passados alguns minutos de
reflexo.

Antes de um ms estava em Paris. No esquecera a comdia
do amigo, a cuja primeira representao no Odon ficara de assistir.
Correu a saber dela; tinha cado redondamente.

 Coisas de teatro, disse Evaristo ao autor, para
consol-lo. H peas que caem. H outras que ficam no repertrio.

CONTO DE ESCOLA

A escola era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de
pau. O ano era de 1840. Naquele dia  uma segunda-feira, do ms de maio 
deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria brincar a
manh. Hesitava entre o morro de S. Diogo e o Campo de SantAna, que no era
ento esse parque atual, construo de gentleman, mas um espao rstico,
mais ou menos infinito, alastrado de lavadeiras, capim e burros soltos. Morro
ou campo? Tal era o problema. De repente disse comigo que o melhor era a
escola. E guiei para a escola. Aqui vai a razo.

Na semana anterior tinha feito dois suetos, e, descoberto
o caso, recebi o pagamento das mos de meu pai, que me deu uma sova de vara de
marmeleiro. As sovas de meu pai doam por muito tempo. Era um velho empregado
do Arsenal de Guerra, rspido e intolerante. Sonhava para mim uma grande
posio comercial, e tinha nsia de me ver com os elementos mercantis, ler,
escrever e contar, para me meter de caixeiro. Citava-me nomes de capitalistas
que tinham comeado ao balco. Ora, foi a lembrana do ltimo castigo que me
levou naquela manh para o colgio. No era um menino de virtudes.

Subi a escada com cautela, para no ser ouvido do mestre,
e cheguei a tempo; ele entrou na sala trs ou quatro minutos depois. Entrou com
o andar manso do costume, em chinelas de cordovo, com a jaqueta de brim lavada
e desbotada, cala branca e tesa e grande colarinho cado. Chamava-se Policarpo
e tinha perto de cinqenta anos ou mais. Uma vez sentado, extraiu da jaqueta a
boceta de rap e o leno vermelho, p-los na gaveta; depois relanceou os olhos
pela sala. Os meninos, que se conservaram de p durante a entrada dele,
tornaram a sentar-se. Tudo estava em ordem; comearam os trabalhos.

 Seu Pilar, eu preciso falar com voc, disse-me
baixinho o filho do mestre.

Chamava-se Raimundo este pequeno, e era mole, aplicado, inteligncia
tarda. Raimundo gastava duas horas em reter aquilo que a outros levava apenas
trinta ou cinqenta minutos; vencia com o tempo o que no podia fazer logo com
o crebro. Reunia a isso um grande medo ao pai. Era uma criana fina, plida,
cara doente; raramente estava alegre. Entrava na escola depois do pai e
retirava-se antes. O mestre era mais severo com ele do que conosco.

 O que  que voc quer?

 Logo, respondeu ele com voz trmula.

Comeou a lio de escrita. Custa-me dizer que eu era dos
mais adiantados da escola; mas era. No digo tambm que era dos mais
inteligentes, por um escrpulo fcil de entender e de excelente efeito no
estilo, mas no tenho outra convico. Note-se que no era plido nem mofino:
tinha boas cores e msculos de ferro. Na lio de escrita, por exemplo, acabava
sempre antes de todos, mas deixava-me estar a recortar narizes no papel ou na
tbua, ocupao sem nobreza nem espiritualidade, mas em todo caso ingnua. Naquele
dia foi a mesma coisa; to depressa acabei, como entrei a reproduzir o nariz do
mestre, dando-lhe cinco ou seis atitudes diferentes, das quais recordo a
interrogativa, a admirativa, a dubitativa e a cogitativa. No lhes punha esses
nomes, pobre estudante de primeiras letras que era; mas, instintivamente,
dava-lhes essas expresses. Os outros foram acabando; no tive remdio seno
acabar tambm, entregar a escrita, e voltar para o meu lugar.

Com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que
ficava preso, ardia por andar l fora, e recapitulava o campo e o morro,
pensava nos outros meninos vadios, o Chico Telha, o Amrico, o Carlos das
Escadinhas, a fina flor do bairro e do gnero humano. Para cmulo de desespero,
vi atravs das vidraas da escola, no claro azul do cu, por cima do Morro do
Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que
bojava no ar, uma coisa soberba. E eu na escola, sentado, pernas unidas, com o
livro de leitura e a gramtica nos joelhos.

 Fui um bobo em vir, disse eu ao Raimundo.

 No diga isso, murmurou ele.

Olhei para ele; estava mais plido. Ento lembrou-me outra
vez que queria pedir-me alguma coisa, e perguntei-lhe o que era. Raimundo
estremeceu de novo, e, rpido, disse-me que esperasse um pouco; era uma coisa
particular.

 Seu Pilar... murmurou ele da a alguns minutos.

 Que ?

 Voc...

 Voc qu?

Ele deitou os olhos ao pai, e depois a alguns outros
meninos. Um destes, o Curvelo, olhava para ele, desconfiado, e o Raimundo,
notando-me essa circunstncia, pediu alguns minutos mais de espera. Confesso
que comeava a arder de curiosidade. Olhei para o Curvelo, e vi que parecia
atento; podia ser uma simples curiosidade vaga, natural indiscrio; mas podia
ser tambm alguma coisa entre eles. Esse Curvelo era um pouco levado do diabo.
Tinha onze anos, era mais velho que ns.

Que me quereria o Raimundo? Continuei inquieto,
remexendo-me muito, falando-lhe baixo, com instncia, que me dissesse o que era,
que ningum cuidava dele nem de mim. Ou ento, de tarde...

 De tarde, no, interrompeu-me ele; no pode ser de
tarde.

 Ento agora...

 Papai est olhando.

Na verdade, o mestre fitava-nos. Como era mais severo para
o filho, buscava-o muitas vezes com os olhos, para traz-lo mais aperreado. Mas
ns tambm ramos finos; metemos o nariz no livro, e continuamos a ler. Afinal
cansou e tomou as folhas do dia, trs ou quatro, que ele lia devagar,
mastigando as idias e as paixes. No esqueam que estvamos ento no fim da
Regncia, e que era grande a agitao pblica. Policarpo tinha decerto algum
partido, mas nunca pude averiguar esse ponto. O pior que ele podia ter, para
ns, era a palmatria. E essa l estava, pendurada do portal da janela,  direita,
com os seus cinco olhos do diabo. Era s levantar a mo, despendur-la e
brandi-la, com a fora do costume, que no era pouca. E da, pode ser que
alguma vez as paixes polticas dominassem nele a ponto de poupar-nos uma ou
outra correo. Naquele dia, ao menos, pareceu-me que lia as folhas com muito
interesse; levantava os olhos de quando em quando, ou tomava uma pitada, mas
tornava logo aos jornais, e lia a valer.

No fim de algum tempo  dez ou doze minutos  Raimundo
meteu a mo no bolso das calas e olhou para mim.

 Sabe o que tenho aqui?

 No.

 Uma pratinha que mame me deu.

 Hoje?

 No, no outro dia, quando fiz anos...

 Pratinha de verdade?

 De verdade.

Tirou-a vagarosamente, e mostrou-me de longe. Era uma moeda
do tempo do rei, cuido que doze vintns ou dois tostes, no me lembro; mas era
uma moeda, e tal moeda que me fez pular o sangue no corao. Raimundo revolveu
em mim o olhar plido; depois perguntou-me se a queria para mim. Respondi-lhe
que estava caoando, mas ele jurou que no.

 Mas ento voc fica sem ela?

 Mame depois me arranja outra. Ela tem muitas que vov
lhe deixou, numa caixinha; algumas so de ouro. Voc quer esta?

Minha resposta foi estender-lhe a mo disfaradamente,
depois de olhar para a mesa do mestre. Raimundo recuou a mo dele e deu  boca
um gesto amarelo, que queria sorrir. Em seguida props-me um negcio, uma troca
de servios; ele me daria a moeda, eu lhe explicaria um ponto da lio de
sintaxe. No conseguira reter nada do livro, e estava com medo do pai. E
conclua a proposta esfregando a pratinha nos joelhos...

Tive uma sensao esquisita. No  que eu possusse da
virtude uma idia antes prpria de homem; no  tambm que no fosse fcil em
empregar uma ou outra mentira de criana. Sabamos ambos enganar ao mestre. A
novidade estava nos termos da proposta, na troca de lio e dinheiro, compra
franca, positiva, toma l, d c; tal foi a causa da sensao. Fiquei a olhar
para ele,  toa, sem poder dizer nada.

Compreende-se que o ponto da lio era difcil, e que o
Raimundo, no o tendo aprendido, recorria a um meio que lhe pareceu til para
escapar ao castigo do pai. Se me tem pedido a coisa por favor, alcan-la-ia do
mesmo modo, como de outras vezes; mas parece que era a lembrana das outras
vezes, o medo de achar a minha vontade frouxa ou cansada, e no aprender como
queria,  e pode ser mesmo que em alguma ocasio lhe tivesse ensinado mal, 
parece que tal foi a causa da proposta. O pobre-diabo contava com o favor, 
mas queria assegurar-lhe a eficcia, e da recorreu  moeda que a me lhe dera
e que ele guardava como relquia ou brinquedo; pegou dela e veio esfreg-la nos
joelhos,  minha vista, como uma tentao... Realmente, era bonita, fina,
branca, muito branca; e para mim, que s trazia cobre no bolso, quando trazia
alguma coisa, um cobre feio, grosso, azinhavrado...

No queria receb-la, e custava-me recus-la. Olhei para o
mestre, que continuava a ler, com tal interesse, que lhe pingava o rap do
nariz.  Ande, tome, dizia-me baixinho o filho. E a pratinha fuzilava-lhe entre
os dedos, como se fora diamante... Em verdade, se o mestre no visse nada, que
mal havia? E ele no podia ver nada, estava agarrado aos jornais lendo com
fogo, com indignao...

 Tome, tome...

Relancei os olhos pela sala, e dei com os do Curvelo em
ns; disse ao Raimundo que esperasse. Pareceu-me que o outro nos observava,
ento dissimulei; mas da a pouco deitei-lhe outra vez o olho, e  tanto se
ilude a vontade!  no lhe vi mais nada. Ento cobrei nimo.

 D c...

Raimundo deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu meti-a na
algibeira das calas, com um alvoroo que no posso definir. C estava ela
comigo, pegadinha  perna. Restava prestar o servio, ensinar a lio e no me
demorei em faz-lo, nem o fiz mal, ao menos conscientemente; passava-lhe a
explicao em um retalho de papel que ele recebeu com cautela e cheio de
ateno. Sentia-se que despendia um esforo cinco ou seis vezes maior para
aprender um nada; mas contanto que ele escapasse ao castigo, tudo iria bem.

De repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha os
olhos em ns, com um riso que me pareceu mau. Disfarcei; mas da a pouco,
voltando-me outra vez para ele, achei-o do mesmo modo, com o mesmo ar,
acrescendo que entrava a remexer-se no banco, impaciente. Sorri para ele e ele
no sorriu; ao contrrio, franziu a testa, o que lhe deu um aspecto ameaador.
O corao bateu-me muito.

 Precisamos muito cuidado, disse eu ao Raimundo.

 Diga-me isto s, murmurou ele.

Fiz-lhe sinal que se calasse; mas ele instava, e a moeda,
c no bolso, lembrava-me o contrato feito. Ensinei-lhe o que era, disfarando
muito; depois, tornei a olhar para o Curvelo, que me pareceu ainda mais
inquieto, e o riso, dantes mau, estava agora pior. No  preciso dizer que
tambm eu ficara em brasas, ansioso que a aula acabasse; mas nem o relgio
andava como das outras vezes, nem o mestre fazia caso da escola; este lia os
jornais, artigo por artigo, pontuando-os com exclamaes, com gestos de ombros,
com uma ou duas pancadinhas na mesa. E l fora, no cu azul, por cima do morro,
o mesmo eterno papagaio, guinando a um lado e outro, como se me chamasse a ir
ter com ele. Imaginei-me ali com os livros e a pedra embaixo da mangueira, e a
pratinha no bolso das calas, que eu no daria a ningum, nem que me serrassem;
guard-la-ia em casa, dizendo a mame que a tinha achado na rua. Para que me
no fugisse, ia-a apalpando, roando-lhe os dedos pelo cunho, quase lendo pelo
tato a inscrio, com uma grande vontade de espi-la.

 Oh! seu Pilar! bradou o mestre com voz de trovo.

Estremeci como se acordasse de um sonho, e levantei-me s
pressas. Dei com o mestre, olhando para mim, cara fechada, jornais dispersos, e
ao p da mesa, em p, o Curvelo. Pareceu-me adivinhar tudo.

 Venha c! bradou o mestre.

Fui e parei diante dele. Ele enterrou-me pela conscincia
dentro um par de olhos pontudos; depois chamou o filho. Toda a escola tinha
parado; ningum mais lia, ningum fazia um s movimento. Eu, conquanto no
tirasse os olhos do mestre, sentia no ar a curiosidade e o pavor de todos.

 Ento o senhor recebe dinheiro para ensinar as lies
aos outros? disse-me o Policarpo.

 Eu...

 D c a moeda que este seu colega lhe deu! clamou.

No obedeci logo, mas no pude negar nada. Continuei a
tremer muito. Policarpo bradou de novo que lhe desse a moeda, e eu no resisti
mais, meti a mo no bolso, vagarosamente, saquei-a e entreguei-lha. Ele
examinou-a de um e outro lado, bufando de raiva; depois estendeu o brao e
atirou-a  rua. E ento disse-nos uma poro de coisas duras, que tanto o filho
como eu acabvamos de praticar uma ao feia, indigna, baixa, uma vilania, e
para emenda e exemplo amos ser castigados. Aqui pegou da palmatria.

 Perdo, seu mestre... solucei eu.

 No h perdo! D c a mo! d c! vamos! sem-vergonha!
d c a mo!

 Mas, seu mestre...

 Olhe que  pior!

Estendi-lhe a mo direita, depois a esquerda, e fui recebendo
os bolos uns por cima dos outros, at completar doze, que me deixaram as palmas
vermelhas e inchadas. Chegou a vez do filho, e foi a mesma coisa; no lhe
poupou nada, dois, quatro, oito, doze bolos. Acabou, pregou-nos outro sermo.
Chamou-nos sem-vergonhas, desaforados, e jurou que se repetssemos o negcio,
apanharamos tal castigo que nos havia de lembrar para todo o sempre. E
exclamava: Porcalhes! tratantes! faltos de brio!

Eu, por mim, tinha a cara no cho. No ousava fitar
ningum, sentia todos os olhos em ns. Recolhi-me ao banco, soluando,
fustigado pelos improprios do mestre. Na sala arquejava o terror;  posso
dizer que naquele dia ningum faria igual negcio. Creio que o prprio Curvelo
enfiara de medo. No olhei logo para ele, c dentro de mim jurava quebrar-lhe a
cara, na rua, logo que sassemos, to certo como trs e dois serem cinco.

Da a algum tempo olhei para ele; ele tambm olhava para
mim, mas desviou a cara, e penso que empalideceu. Comps-se e entrou a ler em
voz alta; estava com medo. Comeou a variar de atitude, agitando-se  toa,
coando os joelhos, o nariz. Pode ser at que se arrependesse de nos ter
denunciado; e na verdade, por que denunciar-nos? Em que  que lhe tirvamos
alguma coisa?

'Tu me pagas! to duro como osso!' dizia eu
comigo.

Veio a hora de sair, e samos; ele foi adiante, apressado,
e eu no queria brigar ali mesmo, na Rua do Costa, perto do colgio; havia de
ser na Rua Larga de S. Joaquim. Quando, porm, cheguei  esquina, j o no vi;
provavelmente escondera-se em algum corredor ou loja; entrei numa botica,
espiei em outras casas, perguntei por ele a algumas pessoas, ningum me deu
notcia. De tarde faltou  escola.

Em casa no contei nada,  claro; mas para explicar as
mos inchadas, menti a minha me, disse-lhe que no tinha sabido a lio. Dormi
nessa noite, mandando ao diabo os dois meninos, tanto o da denncia como o da
moeda. E sonhei com a moeda; sonhei que, ao tornar  escola, no dia seguinte,
dera com ela na rua, e a apanhara, sem medo nem escrpulos...

De manh, acordei cedo. A idia de ir procurar a moeda
fez-me vestir depressa. O dia estava esplndido, um dia de maio, sol magnfico,
ar brando, sem contar as calas novas que minha me me deu, por sinal que eram
amarelas. Tudo isso, e a pratinha... Sa de casa, como se fosse trepar ao trono
de Jerusalm. Piquei o passo para que ningum chegasse antes de mim  escola;
ainda assim no andei to depressa que amarrotasse as calas. No, que elas
eram bonitas! Mirava-as, fugia aos encontros, ao lixo da rua...

Na rua encontrei uma companhia do batalho de fuzileiros,
tambor  frente, rufando. No podia ouvir isto quieto. Os soldados vinham
batendo o p rpido, igual, direita, esquerda, ao som do rufo; vinham, passaram
por mim, e foram andando. Eu senti uma comicho nos ps, e tive mpeto de ir
atrs deles. J lhes disse: o dia estava lindo, e depois o tambor... Olhei para
um e outro lado; afinal, no sei como foi, entrei a marchar tambm ao som do
rufo, creio que cantarolando alguma coisa: Rato na casaca... No fui 
escola, acompanhei os fuzileiros, depois enfiei pela Sade, e acabei a manh na
Praia da Gamboa. Voltei para casa com as calas enxovalhadas, sem pratinha no
bolso nem ressentimento na alma. E contudo a pratinha era bonita e foram eles,
Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupo,
outro da delao; mas o diabo do tambor...

UM
APLOGO

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

 Por que est voc com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada,
para fingir que vale alguma coisa neste mundo?

 Deixe-me, senhora.

 Que a deixe? Que a deixe, por qu? Porque lhe digo que
est com um ar insuportvel? Repito que sim, e falarei sempre que me der na
cabea.

 Que cabea, senhora? A senhora no  alfinete,  agulha.
Agulha no tem cabea. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus
lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

 Mas voc  orgulhosa.

 Decerto que sou.

 Mas por qu?

  boa! Porque coso. Ento os vestidos e enfeites de
nossa ama, quem  que os cose, seno eu?

 Voc? Esta agora  melhor. Voc  que os cose? Voc
ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

 Voc fura o pano, nada mais; eu  que coso, prendo um pedao
ao outro, dou feio aos babados...

 Sim, mas que vale isso? Eu  que furo o pano, vou
adiante, puxando por voc, que vem atrs, obedecendo ao que eu fao e mando...

 Tambm os batedores vo adiante do imperador.

 Voc  imperador?

 No digo isso. Mas a verdade  que voc faz um papel
subalterno, indo adiante; vai s mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho
obscuro e nfimo. Eu  que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou  casa da
baronesa. No sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que
tinha a modista ao p de si, para no andar atrs dela. Chegou a costureira,
pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e
entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era
a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, geis como os galgos de Diana
 para dar a isto uma cor potica. E dizia a agulha:

 Ento, senhora linha, ainda teima no que dizia h pouco?
No repara que esta distinta costureira s se importa comigo; eu  que vou aqui
entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha no respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela
agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz,
e no est para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela no lhe dava
resposta, calou-se tambm, e foi andando. E era tudo silncio na saleta de
costura; no se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano.
Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou
ainda nesse e no outro, at que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o
baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A
costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho,
para dar algum ponto necessrio. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e
puxava a um lado ou outro, arregaava daqui ou dali, alisando, abotoando,
acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

 Ora agora, diga-me, quem  que vai ao baile, no corpo da
baronesa, fazendo parte do vestido e da elegncia? Quem  que vai danar com
ministros e diplomatas, enquanto voc volta para a caixinha da costureira,
antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga l.

Parece que a agulha no disse nada; mas um alfinete, de
cabea grande e no menor experincia, murmurou  pobre agulha:  Anda,
aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela  que vai gozar da
vida, enquanto a ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que no abro
caminho para ningum. Onde me espetam, fico.

Contei esta histria a um professor de melancolia, que me
disse, abanando a cabea:  Tambm eu tenho servido de agulha a muita linha
ordinria!

D.
PAULA

No era possvel chegar mais a ponto. D. Paula entrou na
sala exatamente quando a sobrinha enxugava os olhos cansados de chorar.
Compreende-se o assombro da tia. Entender-se- tambm o da sobrinha, em se
sabendo que D. Paula vive no alto da Tijuca, donde raras vezes desce; a ltima
foi pelo Natal passado, e estamos em maio de 1882. Desceu ontem,  tarde, e foi
para casa da irm, Rua do Lavradio. Hoje, to depressa almoou, vestiu-se e
correu a visitar a sobrinha. A primeira escrava que a viu, quis ir avisar a
senhora, mas D. Paula ordenou-lhe que no, e foi p ante p, muito devagar,
para impedir o rumor das saias, abriu a porta da sala de visitas, e entrou.

 Que  isto? exclamou.

Venancinha atirou-se-lhe aos braos, as lgrimas
vieram-lhe de novo. A tia beijou-a muito, abraou-a, disse-lhe palavras de
conforto, e pediu, e quis que lhe contasse o que era, se alguma doena, ou...

 Antes fosse uma doena! antes fosse a morte! interrompeu
a moa.

 No digas tolices; mas que foi? anda, que foi?

Venancinha enxugou os olhos e comeou a falar. No pde ir
alm de cinco ou seis palavras; as lgrimas tornaram, to abundantes e
impetuosas, que D. Paula achou de bom aviso deix-las correr primeiro.
Entretanto, foi tirando a capa de rendas pretas que a envolvia, e descalando
as luvas. Era uma bonita velha, elegante, dona de um par de olhos grandes, que
deviam ter sido infinitos. Enquanto a sobrinha chorava, ela foi cerrar
cautelosamente a porta da sala, e voltou ao canap. No fim de alguns minutos,
Venancinha cessou de chorar, e confiou  tia o que era.

Era nada menos que uma briga com o marido, to violenta,
que chegaram a falar de separao. A causa eram cimes. Desde muito que o
marido embirrava com um sujeito; mas na vspera  noite, em casa do C...,
vendo-a danar com ele duas vezes e conversar alguns minutos, concluiu que eram
namorados. Voltou amuado para casa; de manh, acabado o almoo, a clera
estourou, e ele disse-lhe coisas duras e amargas, que ela repeliu com outras.

 Onde est teu marido? perguntou a tia.

 Saiu; parece que foi para o escritrio.

D. Paula perguntou-lhe se o escritrio era ainda o mesmo,
e disse-lhe que descansasse, que no era nada; dali a duas horas tudo estaria
acabado. Calava as luvas rapidamente.

 Titia vai l?

 Vou... Pois ento? Vou. Teu marido  bom, so arrufos.
104? Vou l; espera por mim, que as escravas no te vejam.

Tudo isso era dito com volubilidade, confiana e doura.
Caladas as luvas, ps o mantelete, e a sobrinha ajudou-a, falando tambm, jurando
que, apesar de tudo, adorava o Conrado. Conrado era o marido, advogado desde
1874. D. Paula saiu, levando muitos beijos da moa. Na verdade, no podia
chegar mais a ponto. De caminho, parece que ela encarou o incidente, no digo
desconfiada, mas curiosa, um pouco inquieta da realidade positiva; em todo caso
ia resoluta a reconstruir a paz domstica.

Chegou, no achou o sobrinho no escritrio, mas ele veio
logo, e, passado o primeiro espanto, no foi preciso que D. Paula lhe dissesse
o objeto da visita; Conrado adivinhou tudo. Confessou que fora excessivo em
algumas coisas, e, por outro lado, no atribua  mulher nenhuma ndole
perversa ou viciosa. S isso; no mais, era uma cabea de vento, muito amiga de
cortesias, de olhos ternos, de palavrinhas doces, e a leviandade tambm  uma
das portas do vcio. Em relao  pessoa de quem se tratava, no tinha dvida
de que eram namorados. Venancinha contara s o fato da vspera; no referiu
outros, quatro ou cinco, o penltimo no teatro, onde chegou a haver tal ou qual
escndalo. No estava disposto a cobrir com a sua responsabilidade os desazos
da mulher. Que namorasse, mas por conta prpria.

D. Paula ouviu tudo, calada; depois falou tambm.
Concordava que a sobrinha fosse leviana; era prprio da idade. Moa bonita no
sai  rua sem atrair os olhos, e  natural que a admirao dos outros a
lisonjeie. Tambm  natural que o que ela fizer de lisonjeada parea aos outros
e ao marido um princpio de namoro: a fatuidade de uns e o cime do outro
explicam tudo. Pela parte dela, acabava de ver a moa chorar lgrimas sinceras,
deixou-a consternada, falando de morrer, abatida com o que ele lhe dissera. E
se ele prprio s lhe atribua leviandade, por que no proceder com cautela e
doura, por meio de conselho e de observao, poupando-lhe as ocasies,
apontando-lhe o mal que fazem  reputao de uma senhora as aparncias de
acordo, de simpatia, de boa vontade para os homens?

No gastou menos de vinte minutos a boa senhora em dizer
essas coisas mansas, com to boa sombra, que o sobrinho sentiu apaziguar-se-lhe
o corao. Resistia,  verdade; duas ou trs vezes, para no resvalar na
indulgncia, declarou  tia que entre eles tudo estava acabado. E, para
animar-se, evocava mentalmente as razes que tinha contra a mulher. A tia,
porm, abaixava a cabea para deixar passar a onda, e surgia outra vez com os
seus grandes olhos sagazes e teimosos. Conrado ia cedendo aos poucos e mal. Foi
ento que D. Paula props um meio-termo.

 Voc perdoa-lhe, fazem as pazes, e ela vai estar comigo,
na Tijuca, um ou dois meses; uma espcie de desterro. Eu, durante este tempo,
encarrego-me de lhe pr ordem no esprito. Valeu?

Conrado aceitou. D. Paula, to depressa obteve a palavra, despediu-se
para levar a boa nova  outra, Conrado acompanhou-a at  escada. Apertaram as
mos; D. Paula no soltou a dele sem lhe repetir os conselhos de brandura e
prudncia; depois, fez esta reflexo natural:

 E vo ver que o homem de quem se trata nem merece um
minuto dos nossos cuidados...

  um tal Vasco Maria Portela...

D. Paula empalideceu. Que Vasco Maria Portela? Um velho,
antigo diplomata, que... No, esse estava na Europa desde alguns anos,
aposentado, e acabava de receber um ttulo de baro. Era um filho dele, chegado
de pouco, um pelintra... D. Paula apertou-lhe a mo, e desceu rapidamente. No
corredor, sem ter necessidade de ajustar a capa, f-lo durante alguns minutos,
com a mo trmula e um pouco de alvoroo na fisionomia. Chegou mesmo a olhar
para o cho, refletindo. Saiu, foi ter com a sobrinha, levando a reconciliao
e a clusula. Venancinha aceitou tudo.

Dois dias depois foram para a Tijuca. Venancinha ia menos
alegre do que prometera; provavelmente era o exlio, ou pode ser tambm que
algumas saudades. Em todo caso, o nome de Vasco subiu a Tijuca, se no em ambas
as cabeas, ao menos na da tia, onde era uma espcie de eco, um som remoto e
brando, alguma coisa que parecia vir do tempo da Stoltz e do ministrio Paran.
Cantora e ministrio, coisas frgeis, no o eram menos que a ventura de ser
moa, e onde iam essas trs eternidades? Jaziam nas runas de trinta anos. Era
tudo o que D. Paula tinha em si e diante de si.

J se entende que o outro Vasco, o antigo, tambm foi moo
e amou. Amaram-se, fartaram-se um do outro,  sombra do casamento, durante
alguns anos, e, como o vento que passa no guarda a palestra dos homens, no h
meio de escrever aqui o que ento se disse da aventura. A aventura acabou; foi
uma sucesso de horas doces e amargas, de delcias, de lgrimas, de cleras, de
arroubos, drogas vrias com que encheram a esta senhora a taa das paixes. D.
Paula esgotou-a inteira e emborcou-a depois para no mais beber. A saciedade
trouxe-lhe a abstinncia, e com o tempo foi esta ltima fase que fez a opinio.
Morreu-lhe o marido e foram vindo os anos. D. Paula era agora uma pessoa
austera e pia, cheia de prestgio e considerao.

A sobrinha  que lhe levou o pensamento ao passado. Foi a
presena de uma situao anloga, de mistura com o nome e o sangue do mesmo
homem, que lhe acordou algumas velhas lembranas. No esqueam que elas estavam
na Tijuca, que iam viver juntas algumas semanas, e que uma obedecia  outra;
era tentar e desafiar a memria.

 Mas ns deveras no voltamos  cidade to cedo?
perguntou Venancinha rindo, no outro dia de manh.

 J ests aborrecida?

 No, no, isso nunca, mas pergunto...

D. Paula, rindo tambm, fez com o dedo um gesto negativo; depois,
perguntou-lhe se tinha saudades c de baixo. Venancinha respondeu que nenhumas;
e para dar mais fora  resposta, acompanhou-a de um descair dos cantos da
boca, a modo de indiferena e desdm. Era pr demais na carta, D. Paula tinha o
bom costume de no ler s carreiras, como quem vai salvar o pai da forca, mas
devagar, enfiando os olhos entre as slabas e entre as letras, para ver tudo, e
achou que o gesto da sobrinha era excessivo.

'Eles amam-se!' pensou ela.

A descoberta avivou o esprito do passado. D. Paula
forcejou por sacudir fora essas memrias importunas; elas, porm, voltavam, ou
de manso ou de assalto, como raparigas que eram, cantando, rindo, fazendo o
diabo. D. Paula tornou aos seus bailes de outro tempo, s suas eternas valsas
que faziam pasmar a toda a gente, s mazurcas, que ela metia  cara das
sobrinhas como sendo a mais graciosa coisa do mundo, e aos teatros, e s
cartas, e vagamente, aos beijos; mas tudo isso  e esta  a situao  tudo
isso era como as frias crnicas, esqueleto da histria, sem a alma da histria.
Passava-se tudo na cabea. D. Paula tentava emparelhar o corao com o crebro,
a ver se sentia alguma coisa alm da pura repetio mental, mas, por mais que
evocasse as comoes extintas, no lhe voltava nenhuma. Coisas truncadas!

Se ela conseguisse espiar para dentro do corao da
sobrinha, pode ser que achasse ali a sua imagem, e ento... Desde que esta
idia penetrou no esprito de D. Paula, complicou-lhe um pouco a obra de
reparao e cura. Era sincera, tratava da alma da outra, queria v-la
restituda ao marido. Na constncia do pecado  que se pode desejar que outros
pequem tambm, para descer de companhia ao purgatrio; mas aqui o pecado j no
existia. D. Paula mostrava  sobrinha a superioridade do marido, as suas
virtudes e assim tambm as paixes, que podiam dar um mau desfecho ao
casamento, pior que trgico, o repdio.

Conrado, na primeira visita que lhes fez, nove dias
depois, confirmou a advertncia da tia; entrou frio e saiu frio. Venancinha ficou
aterrada. Esperava que os nove dias de separao tivessem abrandado o marido,
e, em verdade, assim era; mas ele mascarou-se  entrada e conteve-se para no
capitular. E isto foi mais salutar que tudo o mais. O terror de perder o marido
foi o principal elemento de restaurao. O prprio desterro no pde tanto.

Vai seno quando, dois dias depois daquela visita, estando
ambas ao porto da chcara, prestes a sair para o passeio do costume, viram vir
um cavaleiro. Venancinha fixou a vista, deu um pequeno grito, e correu a
esconder-se atrs do muro. D. Paula compreendeu e ficou. Quis ver o cavaleiro
de mais perto; viu-o dali a dois ou trs minutos, um galhardo rapaz, elegante,
com as suas finas botas lustrosas, muito bem-posto no selim; tinha a mesma cara
do outro Vasco, era o filho; o mesmo jeito da cabea, um pouco  direita, os
mesmos ombros largos, os mesmos olhos redondos e profundos.

Nessa mesma noite, Venancinha contou-lhe tudo, depois da
primeira palavra que ela lhe arrancou. Tinham-se visto nas corridas, uma vez,
logo que ele chegou da Europa. Quinze dias depois, foi-lhe apresentado em um
baile, e pareceu-lhe to bem, com um ar to parisiense, que ela falou dele, na
manh seguinte, ao marido. Conrado franziu o sobrolho, e foi este gesto que lhe
deu uma idia que at ento no tinha. Comeou a v-lo com prazer; da a pouco
com certa ansiedade. Ele falava-lhe respeitosamente, dizia-lhe coisas amigas,
que ela era a mais bonita moa do Rio, e a mais elegante, que j em Paris
ouvira elogi-la muito, por algumas senhoras da famlia Alvarenga. Tinha graa
em criticar os outros, e sabia dizer tambm umas palavras sentidas, como
ningum. No falava de amor, mas perseguia-a com os olhos, e ela, por mais que
afastasse os seus, no podia afast-los de todo. Comeou a pensar nele,
amiudadamente, com interesse, e quando se encontravam, batia-lhe muito o
corao; pode ser que ele lhe visse ento, no rosto, a impresso que fazia.

D. Paula, inclinada para ela, ouvia essa narrao, que a
fica apenas resumida e coordenada. Tinha toda a vida nos olhos; a boca meio
aberta, parecia beber as palavras da sobrinha, ansiosamente, como um cordial. E
pedia-lhe mais, que lhe contasse tudo, tudo. Venancinha criou confiana. O ar
da tia era to jovem, a exortao to meiga e cheia de um perdo antecipado,
que ela achou ali uma confidente e amiga, no obstante algumas frases severas
que lhe ouviu, mescladas s outras, por um motivo de inconsciente hipocrisia.
No digo clculo; D. Paula enganava-se a si mesma. Podemos compar-la a um
general invlido, que forceja por achar um pouco do antigo ardor na audincia
de outras campanhas.

 J vs que teu marido tinha razo, dizia ela; foste
imprudente, muito imprudente...

Venancinha achou que sim, mas jurou que estava tudo
acabado.

 Receio que no. Chegaste a am-lo deveras?

 Titia...

 Tu ainda gostas dele!

 Juro que no. No gosto; mas confesso... sim... confesso
que gostei... Perdoe-me tudo; no diga nada a Conrado; estou arrependida...
Repito que a princpio um pouco fascinada... Mas que quer a senhora?

 Ele declarou-te alguma coisa?

Declarou; foi no teatro, uma noite, no Teatro Lrico, 
sada. Tinha costume de ir buscar-me ao camarote e conduzir-me at o carro, e
foi  sada... duas palavras...

D. Paula no perguntou, por pudor, as prprias palavras do
namorado, mas imaginou as circunstncias, o corredor, os pares que saam, as
luzes, a multido, o rumor das vozes, e teve o poder de representar, com o
quadro, um pouco das sensaes dela; e pediu-lhas com interesse, astutamente.

 No sei o que senti, acudiu a moa cuja comoo
crescente ia desatando a lngua; no me lembro dos primeiros cinco minutos.
Creio que fiquei sria; em todo o caso, no lhe disse nada. Pareceu-me que toda
gente olhava para ns, que teriam ouvido, e quando algum me cumprimentava
sorrindo, dava-me idia de estar caoando. Desci as escadas no sei como,
entrei no carro sem saber o que fazia; ao apertar-lhe a mo, afrouxei bem os
dedos. Juro-lhe que no queria ter ouvido nada. Conrado disse-me que tinha
sono, e encostou-se ao fundo do carro; foi melhor assim, porque eu no sei que
diria, se tivssemos de ir conversando. Encostei-me tambm, mas por pouco
tempo; no podia estar na mesma posio. Olhava para fora atravs dos vidros, e
via s o claro dos lampies, de quando em quando, e afinal nem isso mesmo; via
os corredores do teatro, as escadas, as pessoas todas, e ele ao p de mim,
cochichando as palavras, duas palavras s, e no posso dizer o que pensei em
todo esse tempo; tinha as idias baralhadas, confusas, uma revoluo em mim...

 Mas, em casa?

 Em casa, despindo-me,  que pude refletir um pouco, mas
muito pouco. Dormi tarde, e mal. De manh, tinha a cabea aturdida. No posso
dizer que estava alegre nem triste; lembro-me que pensava muito nele, e para
arred-lo prometi a mim mesma revelar tudo ao Conrado; mas o pensamento voltava
outra vez. De quando em quando, parecia-me escutar a voz dele, e estremecia.
Cheguei a lembrar-me que,  despedida, lhe dera os dedos frouxos, e sentia, no
sei como diga, uma espcie de arrependimento, um medo de o ter ofendido... e
depois vinha o desejo de o ver outra vez... Perdoe-me, titia; a senhora  que
quer que lhe conte tudo.

A resposta de D. Paula foi apertar-lhe muito a mo e fazer
um gesto de cabea. Afinal achava alguma coisa de outro tempo, ao contato
daquelas sensaes ingenuamente narradas. Tinha os olhos ora meio cerrados, na
sonolncia da recordao,  ora aguados de curiosidade e calor, e ouvia tudo,
dia por dia, encontro por encontro, a prpria cena do teatro, que a sobrinha a
princpio lhe ocultara. E vinha tudo o mais, horas de nsia, de saudade, de
medo, de esperana, desalentos, dissimulaes, mpetos, toda a agitao de uma
criatura em tais circunstncias, nada dispensava a curiosidade insacivel da
tia. No era um livro, no era sequer um captulo de adultrio, mas um prlogo,
 interessante e violento.

Venancinha acabou. A tia no lhe disse nada, deixou-se
estar metida em si mesma; depois acordou, pegou-lhe na mo e puxou-a. No lhe
falou logo; fitou primeiro, e de perto, toda essa mocidade, inquieta e
palpitante, a boca fresca, os olhos ainda infinitos, e s voltou a si quando a
sobrinha lhe pediu outra vez perdo. D. Paula disse-lhe tudo o que a ternura e
a austeridade da me lhe poderia dizer, falou-lhe de castidade, de amor ao
marido, de respeito pblico; foi to eloqente que Venancinha no pde
conter-se, e chorou.

Veio o ch, mas no h ch possvel depois de certas
confidncias. Venancinha recolheu-se logo, e, como a luz era agora maior, saiu
da sala com os olhos baixos, para que o criado lhe no visse a comoo. D.
Paula ficou diante da mesa e do criado. Gastou vinte minutos, ou pouco menos,
em beber uma xcara de ch e roer um biscoito, e apenas ficou s, foi
encostar-se  janela, que dava para a chcara.

Ventava um pouco, as folhas moviam-se sussurrando, e,
conquanto no fossem as mesmas do outro tempo, ainda assim perguntavam-lhe:
'Paula, voc lembra-se do outro tempo?' Que esta  a particularidade
das folhas, as geraes que passam contam s que chegam as coisas que viram, e
 assim que todas sabem tudo e perguntam por tudo. Voc lembra-se do outro
tempo?

Lembrar, lembrava; mas aquela sensao de h pouco,
reflexo apenas, tinha agora cessado. Em vo repetia as palavras da sobrinha,
farejando o ar agreste da noite: era s na cabea que achava algum vestgio,
reminiscncias, coisas truncadas. O corao empacara de novo, o sangue ia outra
vez com a andadura do costume. Faltava-lhe o contato moral da outra. E
continuava, apesar de tudo, diante da noite, que era igual s outras noites de
ento, e nada tinha que se parecesse com as do tempo da Stoltz e do Marqus de
Paran; mas continuava, e l dentro as pretas espalhavam o sono contando
anedotas, e diziam, uma ou outra vez, impacientes:

Sinh velha hoje deita tarde como diabo!

VIVER!

Fim dos tempos. AHASVERUS, sentado
em uma rocha, fita longamente o horizonte, onde passam duas guias cruzando-se.
Medita, depois sonha. Vai declinando o dia.

AHASVERUS.  Chego  clusula dos
tempos; este  o limiar da eternidade. A terra est deserta; nenhum outro homem
respira o ar da vida. Sou o ltimo; posso morrer. Morrer! deliciosa idia!
Sculos de sculos vivi, cansado, mortificado, andando sempre, mas ei-los que
acabam e vou morrer com eles. Velha natureza, adeus! Cu azul, imenso cu for
aberto para que desam os espritos da vida nova, terra inimiga, que me no
comeste os ossos, adeus! O errante no errar mais. Deus me perdoar, se
quiser, mas a morte consola-me. Aquela montanha  spera como a minha dor;
aquelas guias, que ali passam, devem ser famintas como o meu desespero.
Morrereis tambm, guias divinas?

PROMETEU.  Certo que os homens acabaram;
a terra est nua deles.

AHASVERUS.  Ouo ainda uma voz...
Voz de homem? Cus implacveis, no sou ento o ltimo? Ei-lo que se
aproxima... Quem s tu? H em teus grandes olhos alguma coisa parecida com a
luz misteriosa dos arcanjos de Israel; no s homem...

PROMETEU.  No.

AHASVERUS.  Raa divina?

PROMETEU.  Tu o disseste.

AHASVERUS.  No te conheo; mas
que importa que te no conhea? No s homem; posso ento morrer; pois sou o
ltimo, e fecho a porta da vida.

PROMETEU.  A vida, como a antiga
Tebas, tem cem portas. Fechas uma, outras se abriro. s o ltimo da tua
espcie? Vir outra espcie melhor, no feita do mesmo barro, mas da mesma luz.
Sim, homem derradeiro, toda a plebe dos espritos perecer para sempre; a flor
deles  que voltar  terra para reger as coisas. Os tempos sero retificados.
O mal acabar; os ventos no espalharo mais, nem os germes da morte, nem o
clamor dos oprimidos, mas to somente a cantiga do amor perene e a bno da
universal justia...

AHASVERUS.  Que importa  espcie
que vai morrer comigo toda essa delcia pstuma? Cr-me, tu que s imortal,
para os ossos que apodrecem na terra as prpuras de Sidnia no valem nada. O
que tu me contas  ainda melhor que o sonho de Campanella. Na cidade deste havia
delitos e enfermidades; a tua exclui todas as leses morais e fsicas. O Senhor
te oua! Mas deixa-me ir morrer.

PROMETEU.  Vai, vai. Que pressa
tens em acabar os teus dias?

AHASVERUS.  A pressa de um homem
que tem vivido milheiros de anos. Sim, milheiros de anos. Homens que apenas
respiraram por dezenas deles, inventaram um sentimento de enfado, tedium
vitae, que eles nunca puderam conhecer, ao menos em toda a sua implacvel e
vasta realidade, porque  preciso haver calcado, como eu, todas as geraes e
todas as runas, para experimentar esse profundo fastio da existncia.

PROMETEU.  Milheiros de anos?

AHASVERUS.  Meu nome  Ahasverus:
vivia em Jerusalm, ao tempo em que iam crucificar Jesus Cristo. Quando ele
passou pela minha porta, afrouxou ao peso do madeiro que levava aos ombros, e
eu empurrei-o, bradando-lhe que no parasse, que no descansasse, que fosse
andando at  colina, onde tinha de ser crucificado... Ento uma voz
anunciou-me do cu que eu andaria sempre, continuamente, at o fim dos tempos.
Tal  a minha culpa; no tive piedade para com aquele que ia morrer. No sei
mesmo como isto foi. Os fariseus diziam que o filho de Maria vinha destruir a
lei, e que era preciso mat-lo; eu, pobre ignorante, quis realar o meu zelo e
da a ao daquele dia. Que de vezes vi isto mesmo, depois, atravessando os
tempos e as cidades! Onde quer que o zelo penetrou numa alma subalterna, fez-se
cruel ou ridculo. Foi a minha culpa irremissvel.

PROMETEU.  Grave culpa, em
verdade, mas a pena foi benvola. Os outros homens leram da vida um captulo,
tu leste o livro inteiro. Que sabe um captulo de outro captulo? Nada; mas o
que os leu a todos, liga-os e conclui. H pginas melanclicas? H outras
joviais e felizes.  convulso trgica precede a do riso, a vida brota da
morte, cegonhas e andorinhas trocam de clima, sem jamais abandon-lo
inteiramente;  assim que tudo se concerta e restitui. Tu viste isso, no dez
vezes, no mil vezes, mas todas as vezes; viste a magnificncia da terra
curando a aflio da alma, e a alegria da alma suprindo  desolao das coisas;
dana alternada da natureza, que d a mo esquerda a J e a direita a
Sardanapalo.

AHASVERUS.  Que sabes tu da minha
vida? Nada; ignoras a vida humana.

PROMETEU.  Ignoro a vida humana?
deixa-me rir! Eia, homem perptuo, explica-te. Conta-me tudo; saste de
Jerusalm...

AHASVERUS.  Sa de Jerusalm.
Comecei a peregrinao dos tempos. Ia a toda parte, qualquer que fosse a raa,
o culto ou a lngua; sis e neves, povos brbaros e cultos, ilhas, continentes,
onde quer que respirasse um homem, a respirei eu. Nunca mais trabalhei.
Trabalho  refgio, e no tive esse refgio. Cada manh achava comigo a moeda
do dia... Vede; c est a ltima. Ide, que j no sois precisa (atira a
moeda ao longe). No trabalhava, andava apenas, sempre, sempre, sempre, um
dia e outro dia, um ano e outro ano, e todos os anos, e todos os sculos. A
eterna justia soube o que fez: somou a eternidade com a ociosidade. As
geraes legavam-me umas s outras. As lnguas que morriam ficavam com o meu
nome embutido na ossada. Com o volver dos tempos, esquecia-se tudo; os heris
dissipavam-se em mitos, na penumbra, ao longe; e a histria ia caindo aos
pedaos, no lhe ficando mais que duas ou trs feies vagas e remotas. E eu
via-as de um modo e de outro modo. Falaste em captulo? Felizes os que s leram
a vida em um captulo. Os que se foram,  nascena dos imprios, levaram a
impresso da perpetuidade deles; os que expiraram quando eles decaam,
enterraram-se com a esperana da recomposio; mas sabes tu o que  ver as
mesmas coisas, sem parar, a mesma alternativa de prosperidade e desolao,
desolao e prosperidade, eternas exquias e eternas aleluias, auroras sobre
auroras, ocasos sobre ocasos?

PROMETEU.  Mas no padeceste,
creio;  alguma coisa no padecer nada.

AHASVERUS.  Sim, mas vi padecer
os outros homens, e, para o fim, o espetculo da alegria dava-me a mesma
sensao que os discursos de um doido. Fatalidades do sangue e da carne, conflitos
sem fim, tudo vi passar a meus olhos, a ponto que a noite me fez perder o gosto
ao dia, e acabo no distinguindo as flores das urzes. Tudo se me confunde na
retina enfarada.

PROMETEU.  Pessoalmente no te
doeu nada; e eu que padeci por tempos inmeros o efeito da clera divina?

AHASVERUS.  Tu?

PROMETEU.  Prometeu  o meu nome.

AHASVERUS.  Tu Prometeu?

PROMETEU.  E qual foi o meu
crime? Fiz de lodo e gua os primeiros homens, e depois, compadecido, roubei
para eles o fogo do cu. Tal foi o meu crime. Jpiter, que ento regia o
Olimpo, condenou-me ao mais cruel suplcio. Anda, sobe comigo a este rochedo.

AHASVERUS.  Contas-me uma fbula.
Conheo esse sonho helnico.

PROMETEU.  Velho incrdulo! Anda
ver as prprias correntes que me agrilhoaram; foi uma pena excessiva para
nenhuma culpa; mas a divindade orgulhosa e terrvel... Chegamos, olha, aqui
esto elas...

AHASVERUS.  O tempo que tudo ri
no as quis ento?

PROMETEU.  Eram de mo divina;
fabricou-as Vulcano. Dois emissrios do cu vieram atar-me ao rochedo, e uma
guia, como aquela que l corta o horizonte, comia-me o fgado, sem consumi-lo
nunca. Durou isto tempos que no contei. No, no podes imaginar este
suplcio...

AHASVERUS.  No me iludes? Tu Prometeu?
No foi ento um sonho da imaginao antiga?

PROMETEU.  Olha bem para mim,
palpa estas mos. V se existo.

AHASVERUS.  Moiss mentiu-me. Tu
Prometeu, criador dos primeiros homens?

PROMETEU.  Foi o meu crime.

AHASVERUS.  Sim, foi o teu crime,
artfice do inferno; foi o teu crime inexpivel. Aqui devias ter ficado por
todos os tempos, agrilhoado e devorado, tu, origem dos males que me afligiram.
Careci de piedade,  certo; mas tu, que me trouxeste  existncia, divindade
perversa, foste a causa original de tudo.

PROMETEU.  A morte prxima
obscurece-te a razo.

AHASVERUS.  Sim, s tu mesmo,
tens a fronte olmpica, forte e belo tito: s tu mesmo... So estas as
cadeias? No vejo o sinal das tuas lgrimas.

PROMETEU.  Chorei-as pela tua
raa.

AHASVERUS.  Ela chorou muito mais
por tua culpa.

PROMETEU.  Ouve, ltimo homem,
ltimo ingrato!

AHASVERUS.  Para que quero eu
palavras tuas? Quero os teus gemidos, divindade perversa. Aqui esto as
cadeias. V como as levanto nas mos; ouve o tinir dos ferros... Quem te
desagrilhoou outrora?

PROMETEU.  Hrcules.

AHASVERUS.  Hrcules... V se ele
te presta igual servio, agora que vais ser novamente agrilhoado.

PROMETEU.  Deliras.

AHASVERUS.  O cu deu-te o primeiro
castigo; agora a terra vai dar-te o segundo e derradeiro. Nem Hrcules poder
mais romper estes ferros. Olha como os agito no ar,  maneira de plumas;  que
eu represento a fora dos desesperos milenrios. Toda a humanidade est em mim.
Antes de cair no abismo, escreverei nesta pedra o epitfio de um mundo.
Chamarei a guia, e ela vir; dir-lhe-ei que o derradeiro homem, ao partir da
vida, deixa-lhe um regalo de deuses.

PROMETEU.  Pobre ignorante, que
rejeitas um trono! No, no podes mesmo rejeit-lo.

AHASVERUS.  s tu agora que
deliras. Eia, prostra-te, deixa-me ligar-te os braos. Assim, bem, no
resistirs mais; arqueja para a. Agora as pernas...

PROMETEU.  Acaba, acaba. So as
paixes da terra que se voltam contra mim; mas eu, que no sou homem, no
conheo a ingratido. No arrancars uma letra ao teu destino, ele se cumprir
inteiro. Tu mesmo sers o novo Hrcules. Eu, que anunciei a glria do outro,
anuncio a tua; e no sers menos generoso que ele.

AHASVERUS.  Deliras tu?

PROMETEU.  A verdade ignota aos
homens  o delrio de quem a anuncia. Anda, acaba.

AHASVERUS.  A glria no paga
nada, e extingue-se.

PROMETEU.  Esta no se
extinguir. Acaba, acaba; ensina ao bico adunco da guia como me h de devorar
a entranha; mas escuta... No, no escutes nada; no podes entender-me.

AHASVERUS.  Fala, fala.

PROMETEU.  O mundo passageiro no
pode entender o mundo eterno; mas tu sers o elo entre ambos.

AHASVERUS.  Dize tudo.

PROMETEU.  No digo nada; anda,
aperta bem estes pulsos, para que eu no fuja, para que me aches aqui  tua
volta. Que te diga tudo? J te disse que uma raa nova povoar a terra, feita
dos melhores espritos da raa extinta; a multido dos outros perecer. Nobre
famlia, lcida e poderosa, ser a perfeita comunho do divino com o humano.
Outros sero os tempos, mas entre eles e estes um elo  preciso, e esse elo s
tu.

AHASVERUS.  Eu?

PROMETEU.  Tu mesmo, tu, eleito,
tu, rei. Sim, Ahasverus, tu sers rei. O errante pousar. O desprezado dos homens
governar os homens.

AHASVERUS.  Tito artificioso,
iludes-me... Rei, eu?

PROMETEU.  Tu rei. Que outro
seria? O mundo novo precisa de uma tradio do mundo velho, e ningum pode falar
de um a outro como tu. Assim no haver interrupo entre as duas humanidades.
O perfeito proceder do imperfeito, e a tua boca dir-lhe- as suas origens.
Contars aos novos homens todo o bem e todo o mal antigo. Revivers assim como
a rvore a que cortaram as folhas secas, e conserva to-somente as viosas; mas
aqui o vio  eterno.

AHASVERUS.  Viso luminosa! Eu
mesmo?

PROMETEU.  Tu mesmo.

AHASVERUS.  Estes olhos... estas
mos... vida nova e melhor... Viso excelsa! Tito,  justo. Justa foi a pena;
mas igualmente justa  a remisso gloriosa do meu pecado. Viverei eu? eu mesmo?
Vida nova e melhor? No, tu mofas de mim.

PROMETEU.  Bem, deixa-me,
voltars um dia, quando este imenso cu for aberto para que desam os espritos
da vida nova. Aqui me achars tranqilo. Vai.

AHASVERUS.  Saudarei outra vez o
sol?

PROMETEU.  Esse mesmo que ora vai
a cair. Sol amigo, olho dos tempos, nunca mais se fechar a tua plpebra.
Fita-o, se podes.

AHASVERUS.  No posso.

PROMETEU.  Pod-lo-s depois
quando as condies da vida houverem mudado. Ento a tua retina fitar o sol
sem perigo, porque no homem futuro ficar concentrado tudo o que h melhor na
natureza, enrgico ou sutil, cintilante ou puro.

AHASVERUS.  Jura que me no
mentes.

PROMETEU.  Vers se minto.

AHASVERUS.  Fala, fala mais,
conta-me tudo.

PROMETEU.  A descrio da vida
no vale a sensao da vida; t-la-s prodigiosa. O seio de Abrao das tuas
velhas Escrituras no  seno esse mundo ulterior e perfeito. L vers David e
os profetas. L contars  gente estupefata, no s as grandes aes do mundo
extinto, como tambm os males que ela no h de conhecer, leso ou velhice,
dolo, egosmo, hipocrisia, a aborrecida vaidade, a inopinvel toleima e o
resto. A alma ter, como a terra, uma tnica incorruptvel.

AHASVERUS.  Verei ainda este
imenso cu azul!

PROMETEU.  Olha como  belo.

AHASVERUS.  Belo e sereno como a
eterna justia. Cu magnfico, melhor que as tendas de Cedar, ver-te-ei ainda e
sempre; tu recolhers os meus pensamentos, como outrora; tu me dars os dias
claros e as noites amigas...

PROMETEU.  Auroras sobre auroras.

AHASVERUS.  Eia, fala, fala mais.
Conta-me tudo. Deixa-me desatar-te estas cadeias...

PROMETEU.  Desata-as, Hrcules
novo, homem derradeiro de um mundo, que vais ser o primeiro de outro.  o teu
destino; nem tu nem eu, ningum poder mud-lo. s mais ainda que o teu Moiss.
Do alto do Nebo, viu ele, prestes a morrer, toda a terra de Jeric, que ia
pertencer  sua posteridade; e o Senhor lhe disse: 'Tu a viste com teus
olhos, e no passars a ela.' Tu passars a ela, Ahasverus; tu habitars
Jeric.

AHASVERUS.  Pe a mo sobre a
minha cabea, olha bem para mim; incute-me a tua realidade e a tua predio;
deixa-me sentir um pouco da vida nova e plena... Rei disseste?

PROMETEU.  Rei eleito de uma raa
eleita.

AHASVERUS.  No  demais para
resgatar o profundo desprezo em que vivi. Onde uma vida cuspiu lama, outra vida
por uma aurola. Anda, fala mais... fala mais... (Continua sonhando. As
duas guias aproximam-se.)

Uma guia.  Ai, ai, ai, deste
ltimo homem, est morrendo e ainda sonha com a vida.

A outra.  Nem ele a odiou tanto,
seno porque a amava muito.

O CNEGO OU METAFSICA DO ESTILO

 'Vem do Lbano, esposa minha, vem do Lbano, vem...
As mandrgoras deram o seu cheiro. Temos s nossas portas toda a casta de
pombos...'

 'Eu vos conjuro, filhas de Jerusalm, que se
encontrardes o meu amado, lhe faais saber que estou enferma de amor...'

Era assim, com essa melodia do velho drama de Jud, que
procuravam um ao outro na cabea do Cnego Matias um substantivo e um
adjetivo... No me interrompas, leitor precipitado; sei que no acreditas em
nada do que vou dizer. Di-lo-ei, contudo, a despeito da tua pouca f, porque o
dia da converso pblica h de chegar.

Nesse dia,  cuido que por volta de 2222,  o paradoxo
despir as asas para vestir a japona de uma verdade comum. Ento esta pgina
merecer, mais que favor, apoteose. Ho de traduzi-la em todas as lnguas. As
academias e institutos faro dela um pequeno livro, para uso dos sculos, papel
de bronze, corte-dourado, letras de opala embutidas, e capa de prata fosca. Os
governos decretaro que ela seja ensinada nos ginsios e liceus. As filosofias
queimaro todas as doutrinas anteriores, ainda as mais definitivas, e abraaro
esta psicologia nova, nica verdadeira, e tudo estar acabado. At l passarei
por tonto, como se vai ver.

Matias, cnego honorrio e pregador efetivo, estava
compondo um sermo quando comeou o idlio psquico. Tem quarenta anos de
idade, e vive entre livros e livros para os lados da Gamboa. Vieram
encomendar-lhe o sermo para certa festa prxima; ele que se regalava ento com
uma grande obra espiritual, chegada no ltimo paquete, recusou o encargo; mas
instaram tanto, que aceitou.

 Vossa Reverendssima faz isto brincando, disse o
principal dos festeiros.

Matias sorriu manso e discreto, como devem sorrir os
eclesisticos e os diplomatas. Os festeiros despediram-se com grandes gestos de
venerao, e foram anunciar a festa nos jornais, com a declarao de que
pregava ao Evangelho o Cnego Matias 'um dos ornamentos do clero
brasileiro'. Este 'ornamento do clero' tirou ao cnego a vontade
de almoar, quando ele o leu agora de manh; e s por estar ajustado,  que se
meteu a escrever o sermo.

Comeou de m vontade, mas no fim de alguns minutos j
trabalhava com amor. A inspirao, com os olhos no cu, e a meditao, com os
olhos no cho, ficam a um e outro lado do espaldar da cadeira, dizendo ao
ouvido do cnego mil coisas msticas e graves. Matias vai escrevendo, ora
devagar, ora depressa. As tiras saem-lhe das mos, animadas e polidas. Algumas
trazem poucas emendas ou nenhumas. De repente, indo escrever um adjetivo, suspende-se;
escreve outro e risca-o; mais outro, que no tem melhor fortuna. Aqui  o
centro do idlio. Subamos  cabea do cnego.

Upa! C estamos. Custou-te, no, leitor amigo?  para que
no acredites nas pessoas que vo ao Corcovado, e dizem que ali a impresso da
altura  tal, que o homem fica sendo coisa nenhuma. Opinio pnica e falsa,
falsa como Judas e outros diamantes. No creias tu nisso, leitor amado. Nem
Corcovados, nem Himalaias valem muita coisa ao p da tua cabea, que os mede.
C estamos. Olha bem que  a cabea do cnego. Temos  escolha um ou outro dos
hemisfrios cerebrais; mas vamos por este, que  onde nascem os substantivos.
Os adjetivos nascem no da esquerda. Descoberta minha, que, ainda assim, no  a
principal, mas a base dela, como se vai ver. Sim, meu senhor, os adjetivos
nascem de um lado, e os substantivos de outro, e toda a sorte de vocbulos est
assim dividida por motivo da diferena sexual...

 Sexual?

Sim, minha senhora, sexual. As palavras tm sexo. Estou
acabando a minha grande memria psico-lxico-lgica, em que exponho e demonstro
esta descoberta. Palavra tem sexo.

 Mas, ento, amam-se umas s outras?

Amam-se umas s outras. E casam-se. O casamento delas  o
que chamamos estilo. Senhora minha, confesse que no entendeu nada.

 Confesso que no.

Pois entre aqui tambm na cabea do cnego. Esto
justamente a suspirar deste lado. Sabe quem  que suspira?  o substantivo de
h pouco, o tal que o cnego escreveu no papel, quando suspendeu a pena. Chama
por certo adjetivo, que lhe no aparece: 'Vem do Lbano, vem...' E
fala assim, pois est em cabea de padre; se fosse de qualquer pessoa do
sculo, a linguagem seria a de Romeu: 'Julieta  o sol... ergue-te, lindo
sol.' Mas em crebro eclesistico, a linguagem  a das Escrituras. Ao
cabo, que importam frmulas? Namorados de Verona ou de Jud falam todos o mesmo
idioma, como acontece com o thaler ou o dlar, o florim ou a libra, que  tudo
o mesmo dinheiro.

Portanto, vamos l por essas circunvolues do crebro
eclesistico, atrs do substantivo que procura o adjetivo. Slvio chama por
Slvia. Escutai; ao longe parece que suspira tambm alguma pessoa;  Slvia que
chama por Slvio.

Ouvem-se agora e procuram-se. Caminho difcil e intrincado
que  este de um crebro to cheio de coisas velhas e novas! H aqui um
burburinho de idias, que mal deixa ouvir os chamados de ambos; no percamos de
vista o ardente Slvio, que l vai, que desce e sobe, escorrega e salta; aqui,
para no cair, agarra-se a umas razes latinas, ali abordoa-se a um salmo,
acol monta num pentmetro, e vai sempre andando, levado de uma fora ntima, a
que no pode resistir.

De quando em quando, aparece-lhe alguma dama  adjetivo
tambm  e oferece-lhe as suas graas antigas ou novas; mas, por Deus, no  a
mesma, no  a nica, a destinada ab eterno para este consrcio. E
Slvio vai andando,  procura da nica. Passai, olhos de toda cor, forma de
toda casta, cabelos cortados  cabea do Sol ou da Noite; morrei sem eco,
meigas cantilenas suspiradas no eterno violino; Slvio no pede um amor
qualquer, adventcio ou annimo; pede um certo amor nomeado e predestinado.

Agora no te assustes, leitor, no  nada;  o cnego que
se levanta, vai  janela, e encosta-se a espairecer do esforo. L olha, l
esquece o sermo e o resto. O papagaio em cima do poleiro, ao p da janela,
repete-lhe as palavras do costume e, no terreiro, o pavo enfuna-se todo ao sol
da manh; o prprio sol, reconhecendo o cnego, manda-lhe um dos seus fiis
raios, a cumpriment-lo. E o raio vem, e pra diante da janela: 'Cnego
ilustre, aqui venho trazer os recados do sol, meu senhor e pai.' Toda a
natureza parece assim bater palmas ao regresso daquele gal do esprito. Ele prprio
alegra-se, entorna os olhos por esse ar puro, deixa-os ir fartarem-se de
verdura e fresquido, ao som de um passarinho e de um piano; depois fala ao
papagaio, chama o jardineiro, assoa-se, esfrega as mos, encosta-se. No lhe
lembra mais nem Slvio nem Slvia.

Mas Slvio e Slvia  que se lembram de si. Enquanto o
cnego cuida em coisas estranhas, eles prosseguem em busca um do outro, sem que
ele saiba nem suspeite nada. Agora, porm, o caminho  escuro. Passamos da
conscincia para a inconscincia, onde se faz a elaborao confusa das idias,
onde as reminiscncias dormem ou cochilam. Aqui pulula a vida sem formas, os
germens, e os detritos, os rudimentos e os sedimentos;  o desvo imenso do
esprito. Aqui caram eles,  procura um do outro, chamando e suspirando. D-me
a leitora a mo, agarre-se o leitor a mim, e escorreguemos tambm.

Vasto mundo incgnito. Slvio e Slvia rompem por entre
embries e runas. Grupos de idias, deduzindo-se  maneira de silogismos,
perdem-se no tumulto de reminiscncias da infncia e do seminrio. Outras
idias, grvidas de idias, arrastam-se pesadamente, amparadas por outras
idias virgens. Coisas e homens amalgamam-se; Plato traz os culos de um
escrivo da cmara eclesistica; mandarins de todas as classes distribuem moedas
etruscas e chilenas, livros ingleses e rosas plidas; to plidas, que no
parecem as mesmas que a me do cnego plantou quando ele era criana. Memrias
pias e familiares cruzam-se e confundem-se. C esto as vozes remotas da
primeira missa; c esto as cantigas da roa que ele ouvia cantar s pretas, em
casa; farrapos de sensaes esvadas, aqui um medo, ali um gosto, acol um
fastio de coisas que vieram cada uma por sua vez, e que ora jazem na grande
unidade impalpvel e obscura.

 Vem do Lbano, esposa minha...

 Eu vos conjuro, filhas de Jerusalm...

Ouvem-se cada vez mais perto. Eis a chegam eles s
profundas camadas de teologia, de filosofia, de liturgia, de geografia e de
histria, lies antigas, noes modernas, tudo  mistura, dogma e sintaxe.
Aqui passou a mo pantesta de Spinoza, s escondidas; ali ficou a unhada do
Doutor Anglico; mas nada disso  Slvio nem Slvia. E eles vo rasgando,
levados de uma fora ntima, afinidade secreta, atravs de todos os obstculos
e por cima de todos os abismos. Tambm os desgostos ho de vir. Pesares
sombrios, que no ficaram no corao do cnego, c esto,  laia de manchas
morais, e ao p deles o reflexo amarelo ou roxo, ou o que quer que seja da dor
alheia e universal. Tudo isso vo eles cortando, com a rapidez do amor e do
desejo.

Cambaleias, leitor? No  o mundo que desaba;  o cnego
que se sentou agora mesmo. Espaireceu  vontade, tornou  mesa do trabalho, e
rel o que escreveu, para continuar; pega da pena, molha-a, desce-a ao papel, a
ver que adjetivo h de anexar ao substantivo.

Justamente agora  que os dois cobiosos esto mais perto
um do outro. As vozes crescem, o entusiasmo cresce, todo o Cntico passa
pelos lbios deles, tocados de febre. Frases alegres, anedotas de sacristia, caricaturas,
faccias, disparates, aspectos estrdios, nada os retm, menos ainda os faz
sorrir. Vo, vo, o espao estreita-se. Ficai a, perfis meio apagados de
paspalhes que fizeram rir ao cnego, e que ele inteiramente esqueceu; ficai,
rugas extintas, velhas charadas, regras de voltarete, e vs tambm, clulas de
idias novas, debuxos de concepes, p que tens de ser pirmide, ficai,
abalroai, esperai, desesperai, que eles no tm nada convosco. Amam-se e
procuram-se.

Procuram-se e acham-se. Enfim, Slvio achou Slvia.
Viram-se, caram nos braos um do outro, ofegantes de canseira, mas remidos com
a paga. Unem-se, entrelaam os braos, e regressam palpitando da inconscincia
para a conscincia. 'Quem  esta que sobe do deserto, firmada sobre o seu
amado?', pergunta Slvio, como no Cntico; e ela, com a mesma lbia
erudita, responde-lhe que ' o selo do seu corao', e que 'o
amor  to valente como a prpria morte'.

Nisto, o cnego estremece. O rosto ilumina-se-lhe. A pena,
cheia de comoo e respeito, completa o substantivo com o adjetivo. Slvia
caminhar agora ao p de Slvio, no sermo que o cnego vai pregar um dia
destes, e iro juntinhos ao prelo, se ele coligir os seus escritos, o que no
se sabe.

FIM
